Não,

Não é porque penso diferente de você, que eu devo ser constrangido ao silêncio e, assim calado, deixar de ser ouvido.

Não é porque compartilhamos da mesma orientação sexual, que eu devo assumir determinadas características que não combinam comigo e tampouco me permitem realizar-se como homem e como ser humano.

Não é porque eu discordo de muitas das ações e, por elas, não consigo reconhecer a legitimidade representativa das diversas associações LGBTSxyz e tampouco  “me ver” representado nelas, que eu seja considerado um inimigo da “causa” gay.

Não, não é pelo fato de preferir homens homossexuais de gênero masculino para me relacionar afetiva e eroticamente, para longe da reiterada confusão  de gênero com orientação homossexual, que eu seja tachado de homofóbico, simplesmente por não curtir ou sentir tesão por aqueles que sejam afeminados. Em relação a estes não sustento qualquer discriminação ou preconceito. Cada um tem o direito de vivenciar sua homossexualidade e nela se realizar. Quanto à minha preferência pessoal é só uma questão de gosto, desejo, atração. Só não consigo aceitar aqueles que concebem que toda e qualquer condição homossexual  – para os homens – se faz pela negação da sua própria masculinidade, no que tange ao gênero.

Não é porque eu me recuse a vestir ou empunhar uma bandeira com o arco-íris e sair tresloucadamente gritando e batendo no peito que “eu sou gay”, afrontando a sociedade através de “beijaços” e outras ações similares, que eu sou um desnaturado, recalcado, indigno de respeito de quem quer que seja. Por convicção pessoal, não vejo necessidade desse tipo de ação que, ao invés de se tornar uma atitude pró-ativa , estimulando  um diálogo mais amplo na opinião pública, acaba descambando para uma forma agressiva, vingativa, sectária e recalcada e, assim, reforçando contraditoriamente ainda mais o  isolamento na clandestinidade do “gueto” a que somos submetidos pelo preconceito ainda vigente na sociedade.  Apesar de reconhecer a dimensão pública que envolve o direito à plena cidadania dos homessexuais, compreendo que a sexualidade – seja homo, hetero, bi, pan ou o que mais existir – envolve uma dimensão privada, íntima e pessoal que merece respeito para além de uma “ditadura do outing”.

Não quero ser constrangido ou forçado a ter que sair pelas ruas empunhando bandeiras, muitas das quais até reconheço como legítimas. Já “saí do armário” faz muito tempo, desde meus 17 anos. Mas hoje, por direito como cidadão, curto resguardar minha privacidade  e exijo ser respeitado nisso. De resto, prefiro me abrir  ou me expor apenas para quem acho necessário ou que, ao menos, seja digno de minha confiança.

Já sou um homem quarentão, vivido, lambado e surrado por esta vida. Já tenho anos de pista. Assim como já sofri todo tipo de preconceito – e olha que nunca fui bandeiroso – também já fui acolhido por pessoas maravilhosas nos momentos em que precisei de um colo amigo, uma palavra, um olhar ou apenas um gesto de apoio.

Já enfrentei até a polícia em defesa da “causa” gay e do direito de ser quem eu sou quando as ações das associações ainda não tinham visibilidade nacional. Ainda nos encontravamos sós, abandonados em cidades pequenas do interior deste país onde as sociedades eram cruéis, rudes como vocês mais novos nem conseguem imaginar. Levei muita porrada, fui carimbado de viado, baitola, bicha e tudo o mais que vocês já conhecem bem.

Bullying? Ahahaha, sou PHD no assunto.

Vi coisas horríveis sendo praticadas contra amigos, conhecidos, travestis. Tenho muita história para contar. Como não tenho – e nem pretendo ter – filhos, creio que seja uma boa compartilha-las com vocês que aceitarem seguir este blog.

Provoquei? SIM!  E como provoquei. E não me arrependo de nada do que fiz.  Algumas vezes levei porrada merecidamente por abusar demais. Outras, eu não merecia, não tinha feito absolutamente nada. Foi apenas por ser gay.

Acredito que as bandeiras que eu tinha de levantar nesta vida já estão rasgadas e desbotadas pelo tempo. A minha parte eu já fiz. Assim como muitos outros de minha faixa etária e os mais velhos também. Hoje prefiro atuar nos bastidores, aproveitando de certa forma, a influência que minha vida social e profissional exercem em muitas pessoas. De uma forma discreta, tranquila, dialogando. Respeito aqueles que de forma séria e autenticamente democrática – sem aquelas manifestas vaidades egocentricas e frequentemente oportunistas – militam junto com a sociedade (e não contra ela como se fosse uma guerrinha idiota) pelos direitos civis dos homossexuais. É na arena da opinião pública – numa sociedade democratica e de Direito – onde estas lutas devem ser travadas.

Posso afirmar, com toda certeza e segurança, que ser gay hoje aqui no Brasil é fácil perto do que passei no passado. E isso, todos os lideres já maduros das associações LGBTTSxyz estão aí para confirmar a quem duvidar.

Naquela época, até mesmo assumir-se era um conflito monstruoso. Pois até mesmo o seu amiguinho de sala de aulas, visivelmente gay, recusava-se a conversar sobre o assunto. Éramos sozinhos, ensimesmados no turbilhar dos sentimentos, especialmente o medo.

Portanto, não me veja como um inimigo. Somos homossexuais, gays ou seja lá qual rótulo for o de sua preferência. Mas lembre-se: apenas somos seres iguais que vivem e vêem a vida de uma forma diferente. Nada além disso.

Podemos dar as mãos e fazer as pazes dentro de nossa própria diversidade?

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Por questões que envolvem segurança, bem estar familiar, questões profissionais entre outros, criei esta personagem AdeZanlucchi para ser o autor deste blog.

No entanto, que fique claro que as histórias, relatos e opiniões aqui expostas não são fictícias. São sim o resultado das experiências vividas nesses meus 40 anos de vida, 30 – pelo que me recordo – já como homossexual.

Quem me conhece saberá reconhecer-me por meus textos. Quem me conhece me respeita por quem e pelo que eu sou.

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