Sim, quem me conhece sabe exatamente o que este depoimento e esta história toda tem a ver com a minha vida. Sim. Eu já estive dentro da ÊXODUS BR. Os motivos que levam uma pessoa a isso vão além dos citados pelo Michael no texto dele. Apresento aqui alguns dos meus e fatos vividos dentro da igreja.

Como muitos eu também fui criado dentro de uma família religiosa com maioria evangélica. Vivia minha vida tranquilamente – apesar dos entraves familiares corriqueiros que vez ou outra aconteciam – até que, em 2001, vivenciei um final de um relacionamento de 11 anos bastante traumático que me desestabilizou por completo.

Motivo? Uma sogra satânica em minha vida.

Uma sogra que tinha na mente o seguinte: o filho dela não era viado. Ele só estava viado por causa da minha companhia. Enquanto ela não sabia de nada, eu era o melhor amigo e pessoa do mundo. Após descobrir, virei o demônio, o anti-cristo encarnado e ela, como boa defensora e protetora da moral cristã, da família e dos bons costumes, tinha o dever de acabar comigo. E foi o que fez.

Três anos enfiada dentro da nossa casa (minha e dele) de onde ela não saia nem para ir na esquina comprar o próprio cigarro. Tudo para estar sempre ao lado do filhinho para defendê-lo do diabão aqui (detalhe: o filhinho tinha mais de 40 anos na época). E assim foi indo dia a dia minando e destruindo algo lindo que existia entre eu e ele. E ele como bom filhinho da mamãe deixou que ela me destruísse sem falar um “a” sequer em minha defesa.

De amigos meus – que ela me humilhava perversamente na frente deles – passando por parentes que ela tocou de minha casa e fazia questão de telefonar e inventar fofocas maldosas – incluindo os meus pais e irmãs – até interferir em meus ambientes profissionais e de estudos, ela fez de tudo um pouco.

Nos separamos e já que ela tinha amaldiçoado tudo o que construímos, que engolisse a própria maldição e convivesse com ela. Abandonei tudo e fui recomeçar a minha vida.

Neste recomeçar, acabei frequentando bares e boates gays. Isso me fez reviver os sentimentos que tomaram conta de mim quando eu ainda era jovem: a frivolidade, falsidade, promiscuidade e jogos de interesses que imperam nos guetos gays, ou seja, tudo e todos são meros objetos descartáveis. Estas coisas me fizeram perceber que aquilo não era a minha praia. Não faz parte de mim esse tipo de vida.

Não consigo ver outra pessoa como um mero objeto sexual, um pedaço de carne exposta numa vitrina onde as pessoas passam, olham, apalpam, julgam a qualidade e decidem se querem levar pra casa ou nao. Também não consigo ver outras pessoas apenas pelo exterior. Dou muito mais valor ao interior que às etiquetas de roupas, idade, beleza externa, ou qualquer coisa que é valorizada no gueto gay. Adoro as marcas da maturidade – os cabelos grizalhando, as marcas de expressão… e por isso só ou por nao valorizar o que o gueto gay acha “normal”, por rejeitar educadamente cantadas de gays mais novos ou fora do biotipo e estilo que eu curto, era constantemente chamado de tia, velha, recalcada e outras coisas que vocês bem conhecem ou podem imaginar.

Óbvio que entrei numa séria crise chegando a ficar uma semana trancado dentro da casinha que eu tinha alugado, sem comer, sem atender telefone nem campainha, sem ligar TV ou a luz. Queria sim morrer. Essa vida não é para mim.

Até que um belo dia ouço a voz de meu pai me chamando na porta e minha mãe batendo na janela do meu quarto. Estavam desesperados pois nem mesmo meus vizinhos nem o único amigo que tinha sobrado tinha alguma noticia de mim. Estavam ha uma semana tentando falar comigo e não conseguiam pois eu tinha tirado o telefone da tomada.

Por estes e outros motivos, eu tinha rompido a minha relação com Deus. Para mim, naquele momento Ele era algo digno de historinhas infantis, criação de mentes perturbadas que viviam uma utopia para sanar ou amenizar suas mazelas e neuroses pessoais. Estava num ponto que Ele existindo ou não era totalmente indiferente para mim. Não agredia ninguém por causa de sua fé, mas que não ousassem vir me falar d’Ele.

Abri a porta e foi como se eu tivesse tirado o mundo de seus ombros. A expressão de alívio, alegria e amor deles tenho gravada até hoje em minha mente.

Mas, eles são evangélicos. Numa tentativa desesperada em me “salvar”, como não encontraram o pastor Elias em Curitiba, acabaram me levando á um templo da Igreja Universal. Lá, no meio da tarde, umas 50 pessoas ouvindo o sermão de um daqueles pastores “estudados”. Mal nos sentamos e ele começa com um papo tipo isso:

“Irmãos, Deus está me pedindo para provar a fé de vocês neste momento. Tenho aqui em mãos alguns CDs do músico de nossa igreja “Fulano de tal”. Se você crê realmente que tudo o que deres a Deus ele lhe dará em dobro, compre agora este CD por R$ 5.000,00.”

Olhei para meus pais com ar de desprezo mas isso foi interrompido por uma senhora que levantou-se, foi lá e preencheu um cheque e comprou o tal CD. Atônito assisti à cena mais bizarra que já presenciei dentro de uma igreja: ele foi negociando a fé daquelas pessoas, abaixando cada vez mais o valor do CD até que a última pessoa comprou-o por meros R$ 0,50. Olhei para meus pais e disse em alto e bom som:

“Se isto for Deus, quero que ele se foda!”

Nisso vieram alguns membros da igreja (diáconos) e perguntaram se precisávamos de oração. Antes que meus pais abrissem a boca lancei:

“Se ousarem orar ou encostar suas mãos imundas sobre mim ou meus pais, a porrada vai rolar aqui dentro.”

Levantei-me e puxei meus pais para fora e fomos embora.

Bom, acabei voltando para a cidade deles, para dentro da casa deles e com uma única condição: “Você vai voltar a frequentar a igreja e vai largar desta vida mundana”.

Amém! Como eu poderia rejeitar se eu estava literalmente fodido? Morando num casebre, passando fome, em depressão profunda, desempregado, com pensamentos suicidas, etc.

Comecei a frequentar a igreja, meio sem jeito pois na cidade pequena, pelo meu passado (a bichinha da escola e do clube), a maioria da congregação sabia que eu era “viado”. Sempre percebia os rabos de olho, o zumzumzum, as risadinhas e podem acreditar: não era mania de perseguição ok?

Claro que tive de conversar com o corpo pastoral da igreja e falar absolutamente tudo sobre minha vida. Um deles, ao me receber para os discipulados, sentava-se em sua cadeira e, enquanto conversavamos, ficava lá do outro lado da mesa patolando-se (quem não sabe o que é isso, é aquele ato de ficar pegando no cacete, juntando gostoso com as mãos, oferecendo-o a quem está observando). Sim, ele estava excitado em todas as vezes. Ele não estava apenas me testando, ele queria sim é entrar na putaria ou ter alguns momentos de putaria comigo ali dentro da sala dele com a porta devidamente trancada. Busquei então outro pastor.

Passei a ser discipulado por um pastor maravilhoso (D.) que assim como eu, tinha uma vida “mundana” pregressa (no caso dele, drogas). Mas infelizmente não percebi os toques sutis que ele tentava me dar. Ele foi mandado para outra igreja e me jogaram nas mãos de um outro pastor, fundamentalista de primeira grandeza.

Tudo o que o Michael coloca no texto dele, eu vivenciei por longos 3 anos. Nada de masturbação, nada de internet, nada de vida noturna ou social – a nao ser que estivesse junto com membros da igreja e apenas com estes. E dá-lhe rejeição, repressão, noites em claro chorando e perguntando a Deus o porque d’Ele nao me tirar a vida já que aquilo nao saía de mim? Que maldição era aquela? O que eu tinha feito de tão ruim para me sentir o pior ser humano da face desta terra? Desprezível? Porque ter de conviver com pais que falavam em alto e bom som que nao deixariam seus filhinhos no berçário porque o pederasta, sodomita estava lá ajudando o departamento infantil naquele dia, e ainda ter de perdoa-los silenciosamente, em oração?

Comecei a frequentar o Exodus por indicação de um membro da igreja pois eu já estava ficando agressivo com algumas pessoas, impaciente e, segundo ele, o ministério poderia me auxiliar.

Foi um encontro, depois outro, e mais outro e ainda muitos outros. Sempre aquela mesma pressão psicológica. Aproveitando as frases do depoimento do Michael para explicar esta fase, fui me afundando ainda mais em culpa, ansiedade e ódio contra mim mesmo. Uma profunda fase de auto-destruição que chegava a picos de auto flagelação quando me deparava diante do espelho do banheiro e me espancava. Só não cometi suicídio pois Deus me fez um homem covarde o suficiente para tal ato. Mas os pensamentos eram exatamente estes:

Eu tenho que me “purificar”. Não há cristão homossexual. Se eu era um cristão de fato, então já não era mais gay aos olhos de Deus. Determine isso em sua vida! Continue orando, pois você não está orando o suficiente e o pecado (inimigo, diabo, etc) está te vencendo. Se você não vencer isso não herdará o reino dos céus. Porque eu não estou mudando? Porque, mesmo depois disso tudo, o Senhor ainda não me apresentou o Espírito Santo? Ainda não bastou tanto sofrimento e angústia? Toma a tua cruz e carregue-a assim como Cristo carregou a dele.

E ainda tinha de ouvir diariamente de diversas pessoas dentro da igreja:

Você pode não ser um cristão verdadeiro. Você não tem fé suficiente. Você não está orando e lendo a Bíblia o suficiente. Talvez você tenha um demônio.Você não é sincero o suficiente. Você não está se esforçando o suficiente. Você não tem fé suficiente. Não caia! Estamos orando muito para que Deus te liberte disso e você encontre a verdadeira felicidade. Você não entregou a sua vida verdadeiramente a Cristo. A Bíblia diz em (…) que o homossexualismo é uma aberração aos olhos de Deus. Você quer ter o mesmo fim dos Sodomitas? Por mais que você mude, jamais será digno e puro como a minha família que nasceu dentro da igreja.

Sim, eles conseguem fazer você se sentir a pessoa mais imunda do mundo. E em momento algum pedem desculpas por isso.

Além disso tudo, arranjaram uma mulher para mim. V. é uma pessoa doce, amiga, cristã verdadeira, digna, ética, tranquila em sua fé. Mas ela me foi apresentada para que eu casasse afim de provar para a sociedade e para a igreja que eu tinha virado hétero. Provar a obra de Deus em minha vida. Porém ela tinha um filho ainda bebê. Perfeito não é mesmo? Caso eu falhasse sexualmente, já teria um filho para apresentar como meu.

Neste mesmo momento, comecei a ser treinado como lider para um futuro ministério de minha igreja de cura da homossexualidade. Tudo isso com acompanhamento e cobranças de um psicólogo evangélico, uma igreja inteira e a família.

V. foi a pessoa mais incrível que eu conheci neste período. Me acompanhou em diversos encontros da Exodus, foi a acampamentos, conversavamos por horas a fio sem nunca nos tocarmos além dos carinhos de amigos (abraços e beijos no rosto). Ela tinha plena consciência de todo o processo pelo qual eu estava passando, de minha vida anterior e respeitava isso. Percebeu que eu não estava “pronto” e soube respeitar. Vivenciou várias de minhas crises existenciais onde eu implorava a Deus para me tirar a vida pois eu nao estava mais suportando tudo aquilo tudo. O fardo que Ele tinha me dado, era grande e pesado demais e eu estava a ponto de arriar a qualquer momento.

A minha depressão de 3 anos atras não só estava latente ainda como tinha piorado muito mais. Só que eu tinha uma válvula de escape: o louvor, o coral da igreja. Era o único momento em que eu me sentia bem dentro da igreja. Digo com convicção que a minha conversão não foi pela Palavra e sim pelo louvor. Foi a música que me reaproximou de Deus. Eu literalmente ligava o fôda-se e me entregava completamente ao louvor e adoração. De mim para Ele, sem me importar com quem estivesse ao lado ou assistindo as apresentações do coral. Como 1° tenor (e dramático ainda), não tinha quem não ouvisse a voz do “eterno viado agora cantante” que buscava desesperadamente a sua salvação.

Finalizava isso, voltava a escuridão. Meu deserto – ou inferno como queiram chamar – se redesenhava à minha frente.

No último encontro da Exodus que participei V. estava comigo. Passei os 3 primeiros dias do encontro chorando copiosamente em alguns momentos e como uma estátua fria e dura em outros. Lembro-me de em determinado momento do sábado a tarde, durante uma das pregações pensar: é hoje.

À noite, um grupo foi para o culto na igreja e outro permaneceu na chácara para fazer uma vigília. Fiquei e fui pro meio da mata com o pessoal. Acendemos a fogueira, começaram o louvor e eu não abri a boca. Fiquei ali estático, sentado, olhando para as chamas da fogueira. Lembro-me que em determinado momento me levantar e começar a orar silenciosamente. Orar não, na verdade eu estava indo pelo mesmo caminho que me fez afastar de Deus no passado: estava em guerra declarada com Deus.

Comecei a questionar tudo aquilo, toda a minha vida pregressa, onde haveria um pecado tão grande que eu tivesse feito que merecesse pagar daquela forma? Se fosse maldição familiar, que diabos eu tinha a ver ou que contas eu tinha a acertar por uma coisa pela qual EU nao tenho culpa alguma? O que é que Ele queria de mim afinal? Ou Ele me libertava ali, naquele momento ou que se esquecesse de mim em definitivo pois eu nao suportava mais aquilo. E caí de joelhos num berreiro (choro) que acabei assustando a todos. Vieram correndo ver o que estava acontecendo comigo.

Nesse momento emudeci por alguns instantes. Quando “voltei” comecei a chorar novamente mas me falaram que era um choro diferente, era um choro de alegria, leve, puro.

Saí dali e fui tomar um banho pois eu estava ensopado de tanto suor e lágrimas e ainda fedendo fumaça por causa da fogueira. Foi um banho restaurador e de limpeza profunda. Conforme a água ia escorrendo por meu corpo fui sentindo todo aquele peso, desespero, agonia, depressão indo pelo ralo, literalmente. Quando saí do quarto os líderes vieram conversar em particular comigo para tentar entender o que tinha sido aquilo tudo. Minha resposta foi seca e direta:

“Vocês já estiveram face a face com Deus? Pois é, acabei de ter com Ele.”

“E o que Ele te falou?”, perguntaram.

“Vá em paz meu filho. Eu te coloquei no mundo para ser feliz. Eu te amo e te aceito exatamente como você é. Estarei sempre com você.”

V. estava ao meu lado, me abraçou, me deu um beijo em minha testa e disse: “Eu sempre soube disso mas você estava tão vendado pelo desespero de sua fé que eu não conseguia brecha para te avisar. Te acompanhei porque em minha orações Deus me falou para te amparar e apoiar. Fique tranquilo, pois eu nunca me iludi com relação a nós.”

Ali eu rompi em definitivo com a Exodus e com essa tentativa estúpida de “cura”.

Mas ainda continuei na Igreja por causa do Coral. Porém não frequentava os cultos com a mesma assiduidade e, quando ia, ficava do lado de fora da igreja conversando com amigos, cristãos verdadeiros. Mas isso não durou muito tempo, apenas mais uns 2 ou 3 meses.

De certo modo comecei a observar quantos homens e mulheres homossexuais tem lá dentro. Muitos mesmo. Vários casados, a familia perfeita aos olhos da igreja, porém, percebia-se em seus olhares o tesao recalcado. Em alguns homens que chegavam perto de mim para conversar sentia aquele cheiro delicioso masculino que o corpo exala nos momentos de tesao. Muitos jovens que eu percebia que só estavam ali por imposição dos pais entre tantas outras coisas.

Bom, durante todo este período conheci vários gays que estavam na mesma situação que a minha. Desesperados, desamparados, rejeitados pelas suas famílias, pela sociedade, sofrendo e passando pelas mesmas coisas que eu estava passando. Ouvi relatos e histórias de vidas pregressas que chocariam até o mais abusado e promíscuo ser humano.

Com tudo isso, chego à conclusão de que sim, Deus enviou um anjo (V.) para cuidar de mim, me amparar durante todo este processo. Depois me presenteou com um companheiro lindo. Um homem digno, íntegro, ético, religioso, carinhoso, atencioso. Depois de um deserto infernal em minha vida, voltei a gozar a plenitude do amor, a vida e claro, literalmente falando.

Muitos daqueles que conheci na ápoca da Exodus se afastaram e voltaram para a sua vida anterior – ou “caíram” como dizem na igreja. Alguns mantiveram a sua fé, a sua religiosidade. Outros, a negaram por completo em revolta por toda a opressão que sofreram enquanto fizeram parte dos seus ministérios.

Não posso tacar pedras na Exodus irresponsavelmente. Tem seus erros e abusos? Tem sim e estes merecem tais pedradas para serem desmascarados. Mas um detalhe eu respeito muito: a verdadeira reaproximação com Deus que ela promove – ao menos no meu caso.

Eu?

Vivo tendo de – tentar – explicar o inexplicável para aqueles que não passaram por isso tudo e por isso só, não conseguem entender: que eu sou sim um gay que professa uma fé protestante. Que vivo em plena paz comigo mesmo e, principalmente, tenho uma linda relação com Deus. Não oro (ou rezo) mais e tampouco frequento templos, mas sempre o louvo cantando, seja na alegria ou na dor.

Aos irmãos em Cristo só digo uma coisa: não orem nunca mais – para ninguém – por este tipo de cura. Orem sim para que Deus os faça pessoas felizes, realizadas e capaz de amar ao próximo assim como Jesus o fez. Orem para que Deus apazigue seus corações e mentes ao ponto em que consigam ouvir a voz d’Ele. Nada além disso.

Não permitam, jamais, que pastores – ou alguém – façam outras pessoas passar por tudo isso que passei.

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