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Sim, quem me conhece sabe exatamente o que este depoimento e esta história toda tem a ver com a minha vida. Sim. Eu já estive dentro da ÊXODUS BR. Os motivos que levam uma pessoa a isso vão além dos citados pelo Michael no texto dele. Apresento aqui alguns dos meus e fatos vividos dentro da igreja.

Como muitos eu também fui criado dentro de uma família religiosa com maioria evangélica. Vivia minha vida tranquilamente – apesar dos entraves familiares corriqueiros que vez ou outra aconteciam – até que, em 2001, vivenciei um final de um relacionamento de 11 anos bastante traumático que me desestabilizou por completo.

Motivo? Uma sogra satânica em minha vida.

Uma sogra que tinha na mente o seguinte: o filho dela não era viado. Ele só estava viado por causa da minha companhia. Enquanto ela não sabia de nada, eu era o melhor amigo e pessoa do mundo. Após descobrir, virei o demônio, o anti-cristo encarnado e ela, como boa defensora e protetora da moral cristã, da família e dos bons costumes, tinha o dever de acabar comigo. E foi o que fez.

Três anos enfiada dentro da nossa casa (minha e dele) de onde ela não saia nem para ir na esquina comprar o próprio cigarro. Tudo para estar sempre ao lado do filhinho para defendê-lo do diabão aqui (detalhe: o filhinho tinha mais de 40 anos na época). E assim foi indo dia a dia minando e destruindo algo lindo que existia entre eu e ele. E ele como bom filhinho da mamãe deixou que ela me destruísse sem falar um “a” sequer em minha defesa.

De amigos meus – que ela me humilhava perversamente na frente deles – passando por parentes que ela tocou de minha casa e fazia questão de telefonar e inventar fofocas maldosas – incluindo os meus pais e irmãs – até interferir em meus ambientes profissionais e de estudos, ela fez de tudo um pouco.

Nos separamos e já que ela tinha amaldiçoado tudo o que construímos, que engolisse a própria maldição e convivesse com ela. Abandonei tudo e fui recomeçar a minha vida.

Neste recomeçar, acabei frequentando bares e boates gays. Isso me fez reviver os sentimentos que tomaram conta de mim quando eu ainda era jovem: a frivolidade, falsidade, promiscuidade e jogos de interesses que imperam nos guetos gays, ou seja, tudo e todos são meros objetos descartáveis. Estas coisas me fizeram perceber que aquilo não era a minha praia. Não faz parte de mim esse tipo de vida.

Não consigo ver outra pessoa como um mero objeto sexual, um pedaço de carne exposta numa vitrina onde as pessoas passam, olham, apalpam, julgam a qualidade e decidem se querem levar pra casa ou nao. Também não consigo ver outras pessoas apenas pelo exterior. Dou muito mais valor ao interior que às etiquetas de roupas, idade, beleza externa, ou qualquer coisa que é valorizada no gueto gay. Adoro as marcas da maturidade – os cabelos grizalhando, as marcas de expressão… e por isso só ou por nao valorizar o que o gueto gay acha “normal”, por rejeitar educadamente cantadas de gays mais novos ou fora do biotipo e estilo que eu curto, era constantemente chamado de tia, velha, recalcada e outras coisas que vocês bem conhecem ou podem imaginar.

Óbvio que entrei numa séria crise chegando a ficar uma semana trancado dentro da casinha que eu tinha alugado, sem comer, sem atender telefone nem campainha, sem ligar TV ou a luz. Queria sim morrer. Essa vida não é para mim.

Até que um belo dia ouço a voz de meu pai me chamando na porta e minha mãe batendo na janela do meu quarto. Estavam desesperados pois nem mesmo meus vizinhos nem o único amigo que tinha sobrado tinha alguma noticia de mim. Estavam ha uma semana tentando falar comigo e não conseguiam pois eu tinha tirado o telefone da tomada.

Por estes e outros motivos, eu tinha rompido a minha relação com Deus. Para mim, naquele momento Ele era algo digno de historinhas infantis, criação de mentes perturbadas que viviam uma utopia para sanar ou amenizar suas mazelas e neuroses pessoais. Estava num ponto que Ele existindo ou não era totalmente indiferente para mim. Não agredia ninguém por causa de sua fé, mas que não ousassem vir me falar d’Ele.

Abri a porta e foi como se eu tivesse tirado o mundo de seus ombros. A expressão de alívio, alegria e amor deles tenho gravada até hoje em minha mente.

Mas, eles são evangélicos. Numa tentativa desesperada em me “salvar”, como não encontraram o pastor Elias em Curitiba, acabaram me levando á um templo da Igreja Universal. Lá, no meio da tarde, umas 50 pessoas ouvindo o sermão de um daqueles pastores “estudados”. Mal nos sentamos e ele começa com um papo tipo isso:

“Irmãos, Deus está me pedindo para provar a fé de vocês neste momento. Tenho aqui em mãos alguns CDs do músico de nossa igreja “Fulano de tal”. Se você crê realmente que tudo o que deres a Deus ele lhe dará em dobro, compre agora este CD por R$ 5.000,00.”

Olhei para meus pais com ar de desprezo mas isso foi interrompido por uma senhora que levantou-se, foi lá e preencheu um cheque e comprou o tal CD. Atônito assisti à cena mais bizarra que já presenciei dentro de uma igreja: ele foi negociando a fé daquelas pessoas, abaixando cada vez mais o valor do CD até que a última pessoa comprou-o por meros R$ 0,50. Olhei para meus pais e disse em alto e bom som:

“Se isto for Deus, quero que ele se foda!”

Nisso vieram alguns membros da igreja (diáconos) e perguntaram se precisávamos de oração. Antes que meus pais abrissem a boca lancei:

“Se ousarem orar ou encostar suas mãos imundas sobre mim ou meus pais, a porrada vai rolar aqui dentro.”

Levantei-me e puxei meus pais para fora e fomos embora.

Bom, acabei voltando para a cidade deles, para dentro da casa deles e com uma única condição: “Você vai voltar a frequentar a igreja e vai largar desta vida mundana”.

Amém! Como eu poderia rejeitar se eu estava literalmente fodido? Morando num casebre, passando fome, em depressão profunda, desempregado, com pensamentos suicidas, etc.

Comecei a frequentar a igreja, meio sem jeito pois na cidade pequena, pelo meu passado (a bichinha da escola e do clube), a maioria da congregação sabia que eu era “viado”. Sempre percebia os rabos de olho, o zumzumzum, as risadinhas e podem acreditar: não era mania de perseguição ok?

Claro que tive de conversar com o corpo pastoral da igreja e falar absolutamente tudo sobre minha vida. Um deles, ao me receber para os discipulados, sentava-se em sua cadeira e, enquanto conversavamos, ficava lá do outro lado da mesa patolando-se (quem não sabe o que é isso, é aquele ato de ficar pegando no cacete, juntando gostoso com as mãos, oferecendo-o a quem está observando). Sim, ele estava excitado em todas as vezes. Ele não estava apenas me testando, ele queria sim é entrar na putaria ou ter alguns momentos de putaria comigo ali dentro da sala dele com a porta devidamente trancada. Busquei então outro pastor.

Passei a ser discipulado por um pastor maravilhoso (D.) que assim como eu, tinha uma vida “mundana” pregressa (no caso dele, drogas). Mas infelizmente não percebi os toques sutis que ele tentava me dar. Ele foi mandado para outra igreja e me jogaram nas mãos de um outro pastor, fundamentalista de primeira grandeza.

Tudo o que o Michael coloca no texto dele, eu vivenciei por longos 3 anos. Nada de masturbação, nada de internet, nada de vida noturna ou social – a nao ser que estivesse junto com membros da igreja e apenas com estes. E dá-lhe rejeição, repressão, noites em claro chorando e perguntando a Deus o porque d’Ele nao me tirar a vida já que aquilo nao saía de mim? Que maldição era aquela? O que eu tinha feito de tão ruim para me sentir o pior ser humano da face desta terra? Desprezível? Porque ter de conviver com pais que falavam em alto e bom som que nao deixariam seus filhinhos no berçário porque o pederasta, sodomita estava lá ajudando o departamento infantil naquele dia, e ainda ter de perdoa-los silenciosamente, em oração?

Comecei a frequentar o Exodus por indicação de um membro da igreja pois eu já estava ficando agressivo com algumas pessoas, impaciente e, segundo ele, o ministério poderia me auxiliar.

Foi um encontro, depois outro, e mais outro e ainda muitos outros. Sempre aquela mesma pressão psicológica. Aproveitando as frases do depoimento do Michael para explicar esta fase, fui me afundando ainda mais em culpa, ansiedade e ódio contra mim mesmo. Uma profunda fase de auto-destruição que chegava a picos de auto flagelação quando me deparava diante do espelho do banheiro e me espancava. Só não cometi suicídio pois Deus me fez um homem covarde o suficiente para tal ato. Mas os pensamentos eram exatamente estes:

Eu tenho que me “purificar”. Não há cristão homossexual. Se eu era um cristão de fato, então já não era mais gay aos olhos de Deus. Determine isso em sua vida! Continue orando, pois você não está orando o suficiente e o pecado (inimigo, diabo, etc) está te vencendo. Se você não vencer isso não herdará o reino dos céus. Porque eu não estou mudando? Porque, mesmo depois disso tudo, o Senhor ainda não me apresentou o Espírito Santo? Ainda não bastou tanto sofrimento e angústia? Toma a tua cruz e carregue-a assim como Cristo carregou a dele.

E ainda tinha de ouvir diariamente de diversas pessoas dentro da igreja:

Você pode não ser um cristão verdadeiro. Você não tem fé suficiente. Você não está orando e lendo a Bíblia o suficiente. Talvez você tenha um demônio.Você não é sincero o suficiente. Você não está se esforçando o suficiente. Você não tem fé suficiente. Não caia! Estamos orando muito para que Deus te liberte disso e você encontre a verdadeira felicidade. Você não entregou a sua vida verdadeiramente a Cristo. A Bíblia diz em (…) que o homossexualismo é uma aberração aos olhos de Deus. Você quer ter o mesmo fim dos Sodomitas? Por mais que você mude, jamais será digno e puro como a minha família que nasceu dentro da igreja.

Sim, eles conseguem fazer você se sentir a pessoa mais imunda do mundo. E em momento algum pedem desculpas por isso.

Além disso tudo, arranjaram uma mulher para mim. V. é uma pessoa doce, amiga, cristã verdadeira, digna, ética, tranquila em sua fé. Mas ela me foi apresentada para que eu casasse afim de provar para a sociedade e para a igreja que eu tinha virado hétero. Provar a obra de Deus em minha vida. Porém ela tinha um filho ainda bebê. Perfeito não é mesmo? Caso eu falhasse sexualmente, já teria um filho para apresentar como meu.

Neste mesmo momento, comecei a ser treinado como lider para um futuro ministério de minha igreja de cura da homossexualidade. Tudo isso com acompanhamento e cobranças de um psicólogo evangélico, uma igreja inteira e a família.

V. foi a pessoa mais incrível que eu conheci neste período. Me acompanhou em diversos encontros da Exodus, foi a acampamentos, conversavamos por horas a fio sem nunca nos tocarmos além dos carinhos de amigos (abraços e beijos no rosto). Ela tinha plena consciência de todo o processo pelo qual eu estava passando, de minha vida anterior e respeitava isso. Percebeu que eu não estava “pronto” e soube respeitar. Vivenciou várias de minhas crises existenciais onde eu implorava a Deus para me tirar a vida pois eu nao estava mais suportando tudo aquilo tudo. O fardo que Ele tinha me dado, era grande e pesado demais e eu estava a ponto de arriar a qualquer momento.

A minha depressão de 3 anos atras não só estava latente ainda como tinha piorado muito mais. Só que eu tinha uma válvula de escape: o louvor, o coral da igreja. Era o único momento em que eu me sentia bem dentro da igreja. Digo com convicção que a minha conversão não foi pela Palavra e sim pelo louvor. Foi a música que me reaproximou de Deus. Eu literalmente ligava o fôda-se e me entregava completamente ao louvor e adoração. De mim para Ele, sem me importar com quem estivesse ao lado ou assistindo as apresentações do coral. Como 1° tenor (e dramático ainda), não tinha quem não ouvisse a voz do “eterno viado agora cantante” que buscava desesperadamente a sua salvação.

Finalizava isso, voltava a escuridão. Meu deserto – ou inferno como queiram chamar – se redesenhava à minha frente.

No último encontro da Exodus que participei V. estava comigo. Passei os 3 primeiros dias do encontro chorando copiosamente em alguns momentos e como uma estátua fria e dura em outros. Lembro-me de em determinado momento do sábado a tarde, durante uma das pregações pensar: é hoje.

À noite, um grupo foi para o culto na igreja e outro permaneceu na chácara para fazer uma vigília. Fiquei e fui pro meio da mata com o pessoal. Acendemos a fogueira, começaram o louvor e eu não abri a boca. Fiquei ali estático, sentado, olhando para as chamas da fogueira. Lembro-me que em determinado momento me levantar e começar a orar silenciosamente. Orar não, na verdade eu estava indo pelo mesmo caminho que me fez afastar de Deus no passado: estava em guerra declarada com Deus.

Comecei a questionar tudo aquilo, toda a minha vida pregressa, onde haveria um pecado tão grande que eu tivesse feito que merecesse pagar daquela forma? Se fosse maldição familiar, que diabos eu tinha a ver ou que contas eu tinha a acertar por uma coisa pela qual EU nao tenho culpa alguma? O que é que Ele queria de mim afinal? Ou Ele me libertava ali, naquele momento ou que se esquecesse de mim em definitivo pois eu nao suportava mais aquilo. E caí de joelhos num berreiro (choro) que acabei assustando a todos. Vieram correndo ver o que estava acontecendo comigo.

Nesse momento emudeci por alguns instantes. Quando “voltei” comecei a chorar novamente mas me falaram que era um choro diferente, era um choro de alegria, leve, puro.

Saí dali e fui tomar um banho pois eu estava ensopado de tanto suor e lágrimas e ainda fedendo fumaça por causa da fogueira. Foi um banho restaurador e de limpeza profunda. Conforme a água ia escorrendo por meu corpo fui sentindo todo aquele peso, desespero, agonia, depressão indo pelo ralo, literalmente. Quando saí do quarto os líderes vieram conversar em particular comigo para tentar entender o que tinha sido aquilo tudo. Minha resposta foi seca e direta:

“Vocês já estiveram face a face com Deus? Pois é, acabei de ter com Ele.”

“E o que Ele te falou?”, perguntaram.

“Vá em paz meu filho. Eu te coloquei no mundo para ser feliz. Eu te amo e te aceito exatamente como você é. Estarei sempre com você.”

V. estava ao meu lado, me abraçou, me deu um beijo em minha testa e disse: “Eu sempre soube disso mas você estava tão vendado pelo desespero de sua fé que eu não conseguia brecha para te avisar. Te acompanhei porque em minha orações Deus me falou para te amparar e apoiar. Fique tranquilo, pois eu nunca me iludi com relação a nós.”

Ali eu rompi em definitivo com a Exodus e com essa tentativa estúpida de “cura”.

Mas ainda continuei na Igreja por causa do Coral. Porém não frequentava os cultos com a mesma assiduidade e, quando ia, ficava do lado de fora da igreja conversando com amigos, cristãos verdadeiros. Mas isso não durou muito tempo, apenas mais uns 2 ou 3 meses.

De certo modo comecei a observar quantos homens e mulheres homossexuais tem lá dentro. Muitos mesmo. Vários casados, a familia perfeita aos olhos da igreja, porém, percebia-se em seus olhares o tesao recalcado. Em alguns homens que chegavam perto de mim para conversar sentia aquele cheiro delicioso masculino que o corpo exala nos momentos de tesao. Muitos jovens que eu percebia que só estavam ali por imposição dos pais entre tantas outras coisas.

Bom, durante todo este período conheci vários gays que estavam na mesma situação que a minha. Desesperados, desamparados, rejeitados pelas suas famílias, pela sociedade, sofrendo e passando pelas mesmas coisas que eu estava passando. Ouvi relatos e histórias de vidas pregressas que chocariam até o mais abusado e promíscuo ser humano.

Com tudo isso, chego à conclusão de que sim, Deus enviou um anjo (V.) para cuidar de mim, me amparar durante todo este processo. Depois me presenteou com um companheiro lindo. Um homem digno, íntegro, ético, religioso, carinhoso, atencioso. Depois de um deserto infernal em minha vida, voltei a gozar a plenitude do amor, a vida e claro, literalmente falando.

Muitos daqueles que conheci na ápoca da Exodus se afastaram e voltaram para a sua vida anterior – ou “caíram” como dizem na igreja. Alguns mantiveram a sua fé, a sua religiosidade. Outros, a negaram por completo em revolta por toda a opressão que sofreram enquanto fizeram parte dos seus ministérios.

Não posso tacar pedras na Exodus irresponsavelmente. Tem seus erros e abusos? Tem sim e estes merecem tais pedradas para serem desmascarados. Mas um detalhe eu respeito muito: a verdadeira reaproximação com Deus que ela promove – ao menos no meu caso.

Eu?

Vivo tendo de – tentar – explicar o inexplicável para aqueles que não passaram por isso tudo e por isso só, não conseguem entender: que eu sou sim um gay que professa uma fé protestante. Que vivo em plena paz comigo mesmo e, principalmente, tenho uma linda relação com Deus. Não oro (ou rezo) mais e tampouco frequento templos, mas sempre o louvo cantando, seja na alegria ou na dor.

Aos irmãos em Cristo só digo uma coisa: não orem nunca mais – para ninguém – por este tipo de cura. Orem sim para que Deus os faça pessoas felizes, realizadas e capaz de amar ao próximo assim como Jesus o fez. Orem para que Deus apazigue seus corações e mentes ao ponto em que consigam ouvir a voz d’Ele. Nada além disso.

Não permitam, jamais, que pastores – ou alguém – façam outras pessoas passar por tudo isso que passei.

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Por: Luis Eduardo de M. Teixeira*

1.Breve história sobre intolerância à minorias

O fim de tudo reside na inversão dos fatores: minha híbris (terrível ira grega) é um problema deles. Essa híbris baseia seus argumentos nas pulsões incontroláveis: é mais forte que eu! Uma estratégia racional da irracionalidade, “detenha-me ou farei algo de ruim!”. E alguém mudaria detendo-o?

Pessoas que não se preocupam com a morte dos outros, nem com a sua própria, ativam um dispositivo apocalíptico diante de nossos olhos como mensagem de um futuro abominável. Não se deve fugir ou ignorar essas imagens. Atentados a escolas, guerras sem razão, sequestros de aviões, xenofobia, homofobia, etc…

Grupos pequenos, como os chechenos na Rússia, tal como negros, judeus, homossexuais no nazismo ou atualmente nesse século no Ocidente, a “nova cruzada religiosa neopentecostal cristã” e o “catolicismo ortodoxo” contra LGBTs e os direitos humanos inatos, todos esses grupos do passado ou atuais, são acusados de crimes, de desvios, de imoralidades. Grupos historicamente massacrados transformados em culpados, criminosos, “impróprios”. O mimetismo odioso de algo que já foi no passado das primeira e segunda guerras para o presente cria uma espiral diabólica: o terrorismo de Estado já visto para um terrorismo de minúsculos grupos políticos ou religiosos funcionando como espelhos um do outro.

Dado o comando niilista desses grupos, as “forças de ordem” ao ou danificarem, ou matarem, tornam-se “libertação do mal”. Não precisa uma decisão explicíta para atacar: a faísca para o estopim será atribuída a um “acaso”. Nesses casos, negociar com tais grupos é sinônimo ou confissão de fraqueza, e a força deve permanecer no poder.

2. O mundo do “tudo posso naquilo que creio” e o princípio da destruição

Há uma vontade de viver sem respeitar regras e proibições: niilistas!

Vamos considerar três versões desse niilismo doentio instalado na raiz da sociedade Ocidental:

1. O niilismo derradeiro e absoluto – consiste no assassino suicidário que se transforma em refém do próprio projeto de destruição que arquitetou;

2. O niilismo ativo – acreditam que tudo é permitido e não distinguem mentira e verdade;

3. O niilismo passivo – o mais grave, exercido por todos nós que assistimos, negando o princípio da realidade, fechando os olhos e permitindo tudo a quem se permitiu ou denominou todo o poder de executar seus projetos.

Muito mais euforicamente afirmado agora, Nietzsche já havia identificado os três estados do consentimento da crueldade, para em seguida, decifrar sua triunfante decisão:

“Depois do camelo – que suporta – vem o leão – que transgride e aniquila – e, enfim, a criança, “inocência e esquecimento”, eterno retorno que se permite TUDO, pois ignora a existência da morte.”

O princípio da destruição reside em nós, quer saibamos disso ou não, martelam os autores trágicos. O ódio se espalha, como uma desregulação essencialmente mental que toma conta do corpo, das mentes e da coletividade. Imre Kertész, sobrevivente do Auschwitz e depois do comunismo repressor, prêmio nobel da Hungria, escreveu:

“Um dia deveríamos analisar o volume de ressentimentos que induz a inteligência contemporânea a desprezar a razão; deveríamos empreender uma história intelectual do ódio no intelecto”.

Racismos, chauvinismos, fanatismos… os aparentes renascimentos de uma agressividade que acreditávamos extinta nos espanta. Mas não seria o caso de se espantar com esse espanto? A roda desses “fatos corriqueiros”, bastante cotidianos, indica a grande quantidade de chispas de fogo ocultas sob nossa frágil paz civil. É bastante desonesto a escolha de dormir tranquilamente a qualquer preço, desprezando qualquer tipo de reflexão, qualquer tipo de argumento, em um comportamento obstinado de rejeição aos duros apelos infligidos pela atualidade.

3. Uma análise da construção de um fundamentalista religioso

Um caldeirão de elementos em conflito formulam a base de um fundamentalista religioso. Enumera-se:

1. Conflito fé x verdade: a base do cristianismo está na fuga da realidade. São abordagens imaginárias de causas e efeitos (“Deus”, “alma”, “eu”, “espírito”, “livre-arbítrio”, “pecado”, “salvação”, “graça”, “castigo”, “perdão dos pecados”);

2. Relação de ser e ciência “natural” (Deus e antropocentrismo, sem conceito absoluto de causas naturais);

3. Uma psicologia ligada à teologia (arrependimento, remorso, culpa, tentação do diabo, demoníaco, presença divina, arrebatamento, reino divino, juízo final, vida eterna);

4. É um mundo fictício que falseia, despreza e/ou nega a realidade vivida;

Contrapuseram o conceito de natureza com o conceito de Deus: natural equivale-se a desprezível. Fundamentalizam um ódio pela e contra a realidade! Sofrer pela realidade e fugir dela significa falir a realidade, vivendo em um mundo de ilusões e fechado em si mesmo. Deus então, nesse caso, é um “Deus dos fracos”, que deturpam conceito de fraqueza e covardia à “escolha” : “bons e escolhidos por Deus”.

Os instintos dos submissos e dos oprimidos colocam-se em primeiro termo: os mais baixos procuram uma salvação. E nessa salvação desenrolam um remédio contra suas angústias (fuga da realidade), assimilando uma casuística do pecado, da crítica de si, a inquisição da consciência, tudo para delirantemente manter-se conectado ao um afeto com um “Deus”: o mais elevado no plano imanente que um ser humano poderia exercer fica inacessível aos homens, atribuindo a perfeição à Deus. A fraqueza é a fórmula para o triunfo do cristianismo fundamentalista: dominar “feras”, deixando-as doentes psicologicamente e instintivamente, enquanto seres humanos que possuem vigor, vivência, estímulos, motivações, percepções, concepções, sonhos…. Da fraqueza, viria o amansamento da civilização: o fundamentalismo adoece uma população!

Desse adoecer, para que a pessoa “se cure”, é preciso que se sinta culpada. Pronto: agora há aptidão para a “felicidade”, tais como quando nos curamos de uma febre e nos alegramos pelo fim do estado febril,. O cristão bruto sequer guarda para si o mérito da saúde, atribuindo à Deus. Será que não houve troca de estado febril para renuncia de si?

Alcança-se a felicidade através de uma coisa chamada de “fé”, que nada mais é o descrédito na razão e na realidade, no conhecimento, na investigação da verdade, de forma incontestável, sem diálogo, sem ouvidos. Será isso fé mesmo?

Seja o que for, essa “fé” é uma força motriz que os colocam em movimento. Paradoxalmente, o enfraquecido ao regojizar-se de um fenômeno “divino e especial”, onde “poucos são escolhidos e os que não são, exilados”, desperta em si o mais obscuro do homem, que seria um ódio sem tamanho mascarado de “fé”, contra os que lhes são diferente e são felizes, sem sentirem-se culpados pelo que são! Ser cristão bruto é ser cruel consigo e com outrem: há ódio aos que pensam de outra maneira, vivem a realidade, e uma vontade de perseguir, censurando-lhes. Justificam-se em uma lógica do “melhor do que a mim, só Deus”, restando ao outro, o pior dos homens, que um dia foi conhecido ou vivenciado ao cristão bruto. É ódio contra sentidos, espíritos livres. É ódio contra a liberdade de pensar diferente do mecanismo de vitimização de si. É ódio contra a diversidade. Viraram verdadeiras “bombas humanas”.

Uma bomba humana funciona movida a ódio. Essa fantástica energia destrutiva arranca pessoas das normas e as lança num jogo dinâmico da destruição do outro que incita sacrificar-se. Essa forma de suicídio é pontualmente classificada como alienação mental, uma parte dos arquivos de alienações mentais.

Somente um paranoico, um esquizofrênico, um psicótico pode pretender acabar com o mundo e consigo mesmo. Uma vítima infeliz da falta de boas referências, ele se insere em um bando de alienados irresponsáveis e age menos por si mesmo e mais pelos outros. Tem “acessos delirantes produzidos por overdoses de fé”.

Mas nem todos os miseráveis, humilhados, ofendidos, incultos, débeis, párias, drogados doentios do planeta se fazem determinados a explodirem pessoas inocentes até o seu suicídio! Todas as justificativas, generalizadas e generalizantes, nunca levam em conta a iniciativa individual, a determinação, a racionalidade irracional de quem tem conhecimento de causa, que ateia o fogo em sua auto explosão contra os “injuriosos”. E bem se sabe, a transgressão atrai a transgressão. O contágio do ódio ultrapassa as normas, dá o exemplo a outros e engrenam a roda. Freud fala da pulsão de morte: a partir de Eros – o – desejo, um subterrâneo poder de destruição caminha simultaneamente. Essa pulsão intuída por Freud reveste essa cultura, mesmo se ela se apavora diante desta força destruidora, mesmo se ela a recalca.

Fujam dos ideólogos, dos religiosos que ocultam a bomba humana com justificativas, motivações, pretextos e falsos brilhantismos teóricos ou sentimentais prontos a encobrir a violência crua com um véu de pudor.

4. O ódio se espalha

O ódio é colonialista. O ódio é racista. O ódio insufla o ódio. Enquanto alguns afirmam que o terrorismo é filho da guerra, outros afirmam que a opressão que as minorias causam aos que são maioria e não conseguem conviver com uma diversidade, com uma pluralidade, é a causa do terrorismo e que libertar o mundo desses grupos é dever da paz. Contradição: ninguém ignora dever cívico e morte homicida de alguns milhares de grupos minoritários como justificativas para ” forças de paz”!

A cólera é como uma rocha no caminho. A cólera, para Sêneca (tragediógrafo grego especialista no lado obscuro do homem), é um “vício voluntário da alma”. Voluntário é leve demais! Ela pressupõe o assentimento. É uma paixão lógica: um discurso implícito a organiza. A cólera apodera-se dos discursos e conquista espaço e tempo. Irascibilidade e mau conselho navegam junto.

Cito a cólera para afirmar que o ódio é a arte de conservar, nutrir, ampliar uma cólera, narrando histórias que jogam num abismo onde tudo desaparece. E perdidos por perdidos, onde tudo desaparece, o colérico se prefere “ninguém”: não é mais nada, é o NADA.

Quanto mais se afasta do mundo real e dos outros, quanto mais se descobre alienado, sem passado nem família, mais acumula energia explosiva para transformar dor em furor; sua própria dor em furor.

Furores devastadores costumam tentar evitar uma autoria. O silêncio cumpre um papel importante, devastador, que abre um vazio e um estupor de perguntas sem respostas: quem foi o autor? O que motivou? Por quê?

Nada!!! Só o silêncio… que desencadeiam imaginários e imaginações, desde os racionalizados aos mais enlouquecidos!

O que se pretende com isso, ao desvendarmos pelo menos o fundo da questão não respondida, é construírem uma máscara rasgada aqui e agora: desejam atribuir a um destino funesto, natural, anônimo e fatal, mas que possui uma coerência oculta e estratégica em cada ato arquitetado, em cada mente arquitetônica.

O resultado do egoísmo colérico é uma explicação e exposição da dor individual atingindo a todos no mundo. A cólera que o homem cruel dirige primeiro a si, recai sobre tantos outros, impondo-se ao mundo: o vazio interior que ele imaginou tanto ser acaba sendo em terra, ao vivo, a própria encarnação, cabendo aos outros apenas suportar o seu capricho de destruir o que quiser.

E o furor não se contenta em ordenar transgressões, colocar tudo em ordem, pois desde que toma as rédeas do jogo, normas são eliminadas, abolidas, ignoradas, dissipadas. Cessados os bons sentimentos, os bons costumes, a boa convivência, uma ternura aparente leva ao crime, o ódio passa a comandar, passa a falar ao ódio e dialogar em si mesmo, somente a ele –a- ele: torna-se medida de todas as coisas. O ódio assume o lugar do amor, a desonestidade o da honestidade, a injustiça da justiça.

O evangelho do ódio revela o segredo da fúria do vencedor. Enquanto se desvencilha de todos os laços, aprisiona seus múltiplos adversários na rede de condutas sociais corretas e dos sentimentos edificantes. Nesse momento, que é certo, ele habilmente age contra seus prisioneiros. Os furores, considerados erroneamente como cegos, aproveitam-se da boa vontade daqueles que pretendem destruir.

Os furiosos colocam seus prisioneiros diante de uma imposição paradoxal da qual eles não tem a menor idéia: se você me escuta, está atado a mim pés e mãos; se não, se expõe a remorsos de sua consciência e minha vingança. Nos dois casos, você está derrotado. Eis aí os outros aprisionados num duplo vínculo, como teorizaram psicólogos de Palo Alto, Califónia. A religião fundamentalista, enquanto movimento de massas, estendendo-se para o campo político através da exploração da fé, utiliza-se do duplo vínculo para a recuperação de prestígio político, explicando como muitos pastores são eleitos, e como corruptos antes desacreditados da população, tornam-se verdadeiros “santos”.

O furioso não é totalmente um louco, mas transforma em loucos todos aqueles que não enfrentam seu olhar, temerosos de contemplar o impensável, esse bloco de ódio absoluto que se transformou.

O furor não conhece deus, nem senhor : obriga a um mortal a romper com passado e com tudo que o cerca para investi-lo em uma total ausência de ética . Não se deixa dialetizar, nem conversar. As ruínas que espalha não anunciam um futuro radioso, novo e melhor. A inquietude que propaga não é, de modo algum, uma astúcia de razão ou do “bom Deus”. Para ele, não existe possibilidade de chegar à virtude passando pelos caminhos tortuosos do vício. A alquimia do ódio é transformar um nada em um nada mais vasto ainda. E só!

Luis Eduardo de M. Teixeira , 29 anos, filósofo, poeta, contista , ciberativista

Por: Frei betto

É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos. No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as “pessoas diferenciadas”…).

Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc). No 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países-membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela “despenalização universal da homossexualidade”.

A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.

Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hetero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.

São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.

A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (I,7) que “quem ama conhece a Deus” (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama…).

Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?

Ora, direis, ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os “eunucos de nascença” (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.

Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão;e censurava o empréstimo a juros. Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?

Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.

FREI BETTO é escritor.

Via: Conteúdo Livre

Só me faltava essa agora!

Em resposta ao que você havia publicado recentemente em seu site, escrevi um texto enorme. Sim,  reconheço que nele havia impropérios tremendos, mas fui me dando conta de que tudo aquilo que escrevi não merecia ser publicado, não por você ser quem é, mas pelo fato de que todas aquelas palavras poderiam “sujar” meu blog.

Pois bem, durante estes dias, desde que você publicou o texto, venho refletindo e conversando muito com Deus até que ontem à noite, no banho – nas águas purificadoras – ocorreu-me uma coisa: para que darei munição ao inimigo?

Deleta tudo!

Não vou mais dissecar item por item de seu texto no qual se gaba por ser autor do neologismo (WAWW!!!) Homodiafonia. Acho que vou lançar alguns também: cristãocafonia, talvez cristãobabaquice ou ainda, o melhor,  CristãoDuCapeta.

Bom, brincadeiras à parte, o papo é o seguinte: de nada adianta você, outros pastores e tantos outros autodenominados “cristãos” ficarem berrando em seus templos ou publicando textos lixos como esse na web. Incluem aqui também os livros e panfletinhos estúpidos feitos por vocês que só servem para doentese isso, nós gays, definitivamente não somos.

Esta igreja sabe de todo o calvário a que fui submetido por longos três anos, tentando “me curar”, tentando tratar como doença o que para mim hoje é virtude do coração, do corpo e da alma, uma forma de amar e desejar que me realiza como homem e como ser humano. Uma dimensão erótico-afetiva da sexualidade – a forma como naturalmente minha sexualidade se realiza erótica e afetivamente – dentre tantas formas que todo e qualquer ser humano vivencia seja hetero, homo, bi, pansexual ou tomatesexual.

Em vão tive que enfrentar um “deserto” no qual fui lançado e lá, no final das contas, numa experiência que tenho certeza que poucos cristãos já tiveram, Deus veio ao meu encontro, tomou a minha mão para me libertar exatamente do lugar onde vocês tinham me mandado para me curar: um encontro da Exodus. Não vou entrar em detalhes pois até imagino como você vai interpretar demoniacamente esta manifestação tão marcante de Deus em minha vida: por seu olhar obscurecido e coração empedernido certamente vai afirmar que não foi Deus, foi o capeta; você entendeu errado, Ele estava te provando e você entendeu errado; e por aí vai. Não vale a pena ouvir tudo isso de novo.

O que quero dizer, pastor, é que hoje vivo plenamente em paz com Deus. Uma paz profunda, revigoradora, revitalizante. Mantenho hoje uma relação com Deus, imensa e profunda, que não consegui atingir enquanto estava sendo policiado dentro da igreja.

Hoje posso dizer conscientemente que sim: eu tenho uma relação sólida, íntima, fiel e leal com Deus.

Outra coisa pastor, é que eu não fui convertido pela palavra distorcida dos pastores. Quem me acompanhou de perto reconhece que fui quebrantado, convertido pelo louvor. Louvor este que carrego até hoje e certamente carregarei por toda a eternidade em meu coração. É a chama que arde em meu peito, é a forma que me aproximo d’Ele, que converso com Ele diariamente.

Por isso pastor, o que eu quero dizer é que se você pensa que atinge a qualquer um de nós – gays – , que já passaram ou não por algum tipo de terapia diabólica de falsa cura, lamento informar: você está perdendo seu tempo, aliás, tempo que deveria ser melhor dedicado para ser instrumento, neste mundo, da Misericórdia e do Amor d’Aquele que nos amou até o fim, do Amor que se derrama infinitamente em nosso coração. É uma perda de tempo especialmente para nós que já trilhamos o caminho da palavra falada e hoje conseguimos nos regozijar na Palavra VIVA, PURA – aquela que vem diretamente d’Ele nos momentos de oração e louvor pessoal. E é perda de tempo pois esse tipo de atitude apenas afasta mais ainda de Jesus aqueles que se sentem rejeitados por Ele por causa de discursos preconceituosos de  pessoas como você.

A única coisa que tantos como você conseguem com isso, pastor, é atingir aqueles que não tem culpa alguma. Mas vocês, em sua ira insana na sodomização do mundo fora da igreja, não percebem que ferem profundamente aqueles a quem vocês dizem proteger: o rebanho da igreja.

Meus pais são uma prova disso. Carregam uma culpa imensa imposta e reafirmada constantemente por vocês, como se eles fossem os culpados por eu ser homossexual. Apesar de convivermos pacificamente e eles se sentirem confortáveis na minha casa que divido com meu companheiro há cerca de oito anos (sim, é um lar cheio de amor, respeito e carinho), percebo de vez em quando certa instabilidade nessa relação. E, sempre que isso vem à tona, aparece alguma coisa que você – ou alguém da igreja – falou em algum culto, reunião ou conversa formal ou informal. Vocês semeiam a cizânia! Quando penso que eles estão bem, lá vem você e seu rebanho nefasto com o rodo traiçoeiro “em nome de Deus”.

Ou seja: a igreja não quer um rebanho sadio, feliz e comungando de uma relação pura e plena com Deus. Tampouco com o verdadeiro Deus. Ela quer sim, é um bando de pessoas cada vez mais doentes, neuróticas, necessitadas e algemadas nas migalhas da redenção por causa de seus pecados ou pagando por coisas que não lhes dizem respeito – como é o caso aqui. Vocês vivenciam uma relação doente e suja com o próprio corpo e com a própria sexualidade e projetam esta doença e sujeira naqueles que buscam vivenciar o amor em todas suas formas no Amor de Deus.

É isso que você prega pastor? É nisso que você crê pastor? Precisa manter os membros de sua igreja numa eterna culpa, carregando uma cruz que não lhes diz respeito? Um rebanho de eternos doentes nas garras de um “deus” traiçoeiro? De um “deus” forjado à imagem e semelhança de suas próprias amarguras e preconceitos?

É este “deus” que você representa pastor?

Um “deus” opressor, intolerante, violento, preconceituoso, incapaz de amar? Um “deus” que só faz humilhar seus filhos? Um “deus” que entregou seu filho em vão, pois o diabo e suas artimanhas tem mais poder que o sangue vertido na cruz?

Um “deus” que só serve para alguns poucos nascidos dentro da igreja, e que lançará sua espada sobre os iniciados? (E não venha dizer que não há essa divisão pois a vivenciei diariamente por longos 3 anos).

Não pastor, não é nesse “seu deus” que eu creio.

O Deus que creio e conheci é o Deus de Amor. Que nos amou tanto que nos deu seu Filho.

Então pastor, faço um desafio a você – e a todos os outros pastores, padres e cristãos – que creio não ser tão difícil já que se arrogam como “legítimos mensageiros de Deus” aqui na terra:

Durante um ano, o desafio você a falar apenas sobre o Amor de Deus.

Mas terá de ser sobre o Amor Ágape: aquele amor puro, limpo, que não vê defeitos ou diferenças.

Aquele que não superestima a culpa, o pecado.

Aquele que não supervaloriza o poder do diabo menosprezando a dor, o sofrimento, o sangue derramado e a verdade que representa a cruz.

Aquele que estendeu a mão à prostituta não para convertê-la, mas sim por simplesmente amá-la e respeitá-la como era.

Assim pastor, a partir de hoje, em todas as reuniões, cultos e conversas que você participar, não poderá falar de outra forma. Nem mesmo com seus filhos ou com sua esposa.

Isso vale para pensamentos também. Incluindo as orações: quando perceber algum pensamento que vá contra este desafio, lance-os nas mãos de Deus e desvie o pensamento para outra coisa: cante, louve ao Senhor. “Não temas, crê somente” – diz a Palavra.

Se és mesmo um homem de Deus, isso não será difícil afinal, “O meu Deus, é o Deus do impossível” não é mesmo?

Se fraquejar diante do desafio cante com o Kleber Lucas:

“Ó Deus tu és o meu Deus forte
O Grande El-Shaddai
Todo poderoso, Adonai
Teu nome é Maravilhoso
Conselheiro, Príncipe da Paz
Yeshua Hamashia, Deus Emanuel

O Pastor de Israel, o Guarda de Sião
A Brilhante Estrela da Manhã
Jesus teu nome é precioso
Meu Senhor e Cristo
O nome sobre todos pelo qual existo

Jireh, o Deus da minha provisão
Shalom, o Senhor é a minha paz
Shamah, Deus presente sempre está
El-Elion, outro igual não há

Jeovah Rafa meu Senhor
Que cura toda dor
Tsidkenu Yaveh minha justiça é
Elohim, Elohim Deus
No controle está meu Deus
Tudo governa (2x)

O Pastor de Israel, o Guarda de Sião
A Brilhante Estrela da Manhã
Jesus teu nome é precioso
Meu Senhor e Cristo
O nome sobre todos pelo qual existo

Jireh, o Deus da minha provisão
Shalom, o Senhor é a minha paz
Shamar, Deus presente sempre está
El-elion, outro igual não há

Jeovah Rafa meu Senhor
Que cura toda dor
Tsekenu Yaveh minha justiça é
Elohim, Elohim Deus
No controle está meu Deus
Tudo governa (3x)”

Sim pastor, foi essa a música que me libertou das amarras, mordaças e vendas da igreja no ultimo encontro da Exodus que participei. Foi nesse louvor que senti o poder de Deus agindo sobre mim e tirando as travas de meus olhos, de minha mente e meu coração para a verdade pura d’Ele, me libertando de todo aquele inferno que eu estava vivendo, prestes a cometer suicídio por não suportar mais tamanha angústia, desespero e rejeição.

Então é isso pastor. Está lançado o desafio a você e a todos os outros que falam “in nomine Domini“.

Cumpra-o se o seu “deus” for realmente o Deus Vivo proclamado na Boa Nova que Jesus nos anuncia!

Ex-Gay?

É meus amigos, papo mais que sério agora.

É possível uma pessoa tornar-se um “ex-gay”? Querem a minha humilde opinião? Não sei responder a isso.

Leiam o texto a seguir e assistam ao vídeo. Comento no próximo post ok?

Depoimento do Fundador da EXODUS Michael Bussee

Meu nome é Michael Bussee. Eu quero agradecer a você por esta oportunidade de contar minha história. Trinta anos atrás, eu ajudei a criar a EXODUS International. Hoje, eu estou aqui para me desculpar; Hoje eu sou um terapeuta conjugal e familiar, um pai, um cristão evangélico, nascido de novo — e orgulhoso de ser gay. Mas trinta anos atrás, eu não era tão orgulhoso.

De fato, eu cresci odiando meus sentimentos gays. Eu passei por xingamentos, bullying e surras. Por que motivo as outras crianças pareciam odiar-me tanto? Eu não escolhi ter esses sentimentos e queria me livrar deles. Eu queria mais do que tudo ser “normal,” adequar-me — apaixonar-me, assentar-me, ter filhos. Eu queria desesperadamente ser heterossexual. Mas como?

Com aproximadamente 12 anos, eu comecei uma busca pessoal por uma “cura” para homossexualidade. Eu tomei a decisão de embarcar no meu próprio êxodo privado — para encontrar a saída para a homossexualidade. Minha busca levou-me a Deus. Como estudante do ensino médio, eu aceitei Jesus como meu Senhor e Salvador pessoal. Essa decisão mudou a minha vida pra sempre e eu continuo sendo um evangélico comprometido até hoje.

Então, em 1974, eu encontrei o Centro Cristão Melodyland (Melodyland Christian Center) em Anaheim e comecei a trabalhar como um de seus conselheiros voluntários via telefone. De começo, eu não disse a nada sobre meus sentimentos gays a ninguém. Afinal, eu tinha que me “purificar.” Eu disse ao diretor do aconselhamento telefônico que eu era um “cristão homossexual.” Ele me disse que “não havia tal coisa.” Ele disse que se eu era um cristão de fato, então “já não era mais gay aos olhos de Deus,”

Eu precisava acreditar que era heterossexual agora – e “determinar isso.” Deus faria o milagre com o tempo. “Continue orando” – diziam eles. Se eu tivesse fé suficiente, eu finalmente “ficaria livre.” Eu queria isso mais do que tudo e sinceramente acreditei que isso se tornaria verdade.

Naquele tempo, não havia ministério para gays em nossa mega igreja, então meu amigo Jim Kaspar e eu decidimos inventar um. Em 1975, nós criamos a EXIT – em inglês a palavra significa saída, mas aqui era uma sigla para “EX-gay Intervention Team,” ou seja, Equipe de Intervenção Ex-Gay (uma espécie de Caça-Fantasmas – só que gay!) Começamos oferecendo sessões de aconselhamento individual, grupos de apoio semanal, estudos bíblicos, e reuniões de oração. Apesar de não termos nenhum treinamento formal, e só termos nos intitulado “ex-gays” havia poucos meses, tornamo-nos, de repente, “especialistas.”

Pastores e terapeutas começaram a enviar clientes para nós. Escrevíamos materiais sobre “Como Ajudar o Homossexual” e dávamos “testemunhos de nossa mudança” em conferências da igreja e em talk shows no rádio e na TV – incluindo o Club 700 do Pat Robertson. Robertson insistia em perguntar se nós achávamos que havíamos tido “demônios gays” algum dia. Ele pareceu desapontado quando respondemos que “não.”

Em 1976, descobrimos que outros como nós estavam formando pequenos ministérios de “mudança” ou “libertação” em suas áreas. Em setembro de 1976, no Melodyland Christian Center em Anaheim, o EXIT recebeu a primeira confêrencia de “ex-gays” de todos os tempos. Um punhado de líderes de ministérios junto com aproximadamente 60 delegados votaram para formar uma coalisão de ministérios. Chamamos essa coalisão deEXODUS. Pensamos que, chamados como Moisés e dirigidos por Deus, nós poderíamos conduzir muitos gays e lésbicas para a “terra prometida” da heterossexualidade.

Preciso dizer que alguns tiveram uma experiência positiva de mudança de vida frequentando nossos estudos bíblicos e grupos de apoio. Eles experimentaram o amor de Deus e o acolhimento de outros que conheciam suas lutas. Houve algumas “mudanças” reais – mas nenhuma das centenas de pessoas que nós aconselhamos se tornou heterossexual.

Ao contrário, muitos dos nossos clientes começaram a se desestruturar – afundando em culpa, ansiedade e ódio contra si mesmo. Por que eles não estavam “mudando”? As respostas dos líderes da igreja tornavam a dor ainda maior: “Você pode não ser um cristão verdadeiro.” “Você não tem fé suficiente.” “Você não está orando e lendo a Bíblia o suficiente.” “Talvez você tenha um demônio.” A mensagem sempre parecia ser: “Você não é sincero o suficiente. Você não está se esforçando o suficiente. Você não tem fé suficiente.”

Alguns simplesmente caíram fora e nunca mais se ouviu falar deles. Eu acho que esses tiveram sorte. Outros se tornaram auto-destrutivos. Um jovem se embriagou e dirigiu contra uma árvore). Um dos líderes que trabalhavam comigo me disse que havia deixado a EXODUS e estava frequentado bares heterossexuais, procurando alguém que batesse nele. Ele disse que as surras o faziam sentir-se menos culpado, fazendo expiação pelo seu pecado. Um dos meus clientes mais dedicados, Mark, pegou uma lâmina e cortou suas genitais repetidamente, e depois colocou produto limpa-ralos sobre as feridas, porque depois de meses de celibato, ele havia tido uma “queda.”


No meio de tudo isso, minha própria fé no movimento EXODUS estava desmoronando. Ninguém estava realmente se tornando “ex-gay.” A quem estávamos enganando? Como um líder atual da EXODUS admitiu, éramos apenas “cristãos com tendências homossexuais que preferiam não ter aquelas tendências.” Ao nos denominarmos como “ex-gays,” nós estávamos mentindo pra nós mesmos e para os outros. Estávamos machucando pessoas.

Em 1979, um outro pioneiro da EXODUS (Gary Cooper) e eu decidimos deixar a EXODUS — e nossas esposas. Por anos, nós dois havíamos firmemente acreditado que o processo EXODUS nos tornaria heterossexuais. Ao invés disso, percebemos que havíamos nos apaixonado um pelo outro! Saímos do armário publicamente contra a EXODUS em 1991. Nossa história apareceu no documentário “One Nation Under God” (Uma Nação Sob Deus). Gary morreu de pouco antes do filme ser concluído.

Desde então, eu continuei a ser um dos mais persistentes críticos da EXODUS – não porque eu queira “negar esperança.” Pelo contrário, eu quero afirmar que Deus ama cada pessoa, e que o amor e o perdão de Deus realmente mudam vidas. Certamente mudaram a minha. Apenas nunca me fizeram heterossexual. Eu encontrei harmonia entre minha sexualidade e minha espiritualidade — e eu tenho esperança de que outros farão o mesmo. A jornada de cada um é diferente. Meu próprio êxodo tem sido uma jornada incrível.

 Já fui demitido de dois empregos apenas por ser gay. E cinco anos atrás, eu sobrevivi a um violento e absurdo crime de ódio que quase levou minha vida. Eu fui espancado e esfaqueado nas costas por membros de uma gangue que gritavam “viado”, enquanto me atacavam. Meu melhor amigo, Jeffery Owens, não teve tanta sorte. Ele foi esfaqueado cinco vezes nas costas e sangrou até a morte na mesa de cirurgia.

Apesar de tudo isso, eu me considero um sobrevivente. Eu sou um homem gay cristão evangélico feliz; relativamente bem ajustado; tenho um relacionamento amoroso comprometido com um cara maravilhoso, meu parceiro Richard; e sirvo como ancião na minha igreja presbiteriana local. Eu amo a Deus e amo a vida.

E tenho esperança. Acredito que estamos abrindo caminho; grupos como a EXODUSvão encerrar suas atividades quando as pessoas não mais pensarem que precisam renegar quem realmente são para tentarem ser o que não são.

Até lá, àquelas pessoas maravilhosas (gays, ex-gays e ex-ex-gays) que têm abençoado minha vida e enriquecido minha jornada, sou sinceramente grato. E àqueles que eu possa ter ferido através do meu envolvimento com a EXODUS, peço sinceras desculpas.

Fonte: http://www.beyondexgay.com/article/busseeapology

Tradução: Sergio Viula para o blog Fora do Armário

Você pode ver um outro depoimento, do Sergio Viula, fundador do grupo MOSES (brasileiro), que também é um ex-ex-gay clicando aqui.