Hoje à tarde enquanto estava no Twitter uma tuitada de alguém  na tag #HomofobiaNao me chamou a atenção por causa do texto. Cliquei no link e fui ver do que se tratava.

Não, não adianta pedirem o link pois eu me recuso a dar ibope para ele.

Até aceito que é um texto muito bem escrito porém, a confusão de idéias e conceitos – descontando ainda o desconhecimento histórico do movimento LGBTSxyz – o cara acabou pisando feio na bola.

Ele vem publicamente exigir respeito da sociedade num texto onde ataca, deliberadamente, a sociedade, inclusive outros gays.

Tudo bem que ele goste e se sinta bem usando maquiagem, roupas fashion, dando carão na rua entre outras coisas. Tudo bem também que ele seja efeminado. Ninguém tem absolutamente nada a ver com isso a não ser ele mesmo. Só que pera lá: chamar de gay-homofóbico os homossexuais – segundo ele, os gays-machos – que curtem, gostam  e vivem tranquilamente com a sua masculinidade e que admiram e buscam isso nos possíveis parceiros para sexo ou relacionamento afetivo já é pesado demais.

Compara-los aos homofóbicos é de uma sandice e irresponsabilidade que me deixou a tarde toda sem palavraspor isso a insônia e a necessidade de falar agora.

Ele inclusive relata – de forma fútil e jocosa – as “desculpas” que nós, gays-machos, damos quando somos paquerados ou cantados por gays que não fazem o nosso tipo.  Como se não bastasse, ele ainda afirma categoricamente que esse tipo de atitude é típica de gays que não foram machos o suficiente para assumir a sua homossexualidade e continuam lá, trancafiados dentro do armário, recalcados e infelizes. Para ele, sair do armário é virar – queira ou nao, goste ou não – em efeminado. Só assim – sendo como ele – a pessoa será completamente feliz.

Diz ainda que, historicamente, é graças às “beeessss” mais abusadas “que dão a cara a tapa diariamente” que estamos conseguindo avançar nas questões dos nossos direitos. Que os gays-machos adoram ficar na deles quietos, sem mexer uma palha sequer enquanto eles – os prováveis futuros mártires do movimento LGBTSxyz – estão pelas ruas empunhando bandeiras, levando porrada, etc mas que depois vem exigir os direitos conquistados por elas. Que as caricaturas gays da TV tem mais valor que nós, gays-machos.

Bom, o texto segue por essa linha de raciocínio. Isso tudo foi apenas uma amostra geral.

Agora me digam: é ou não é de “cair o cú da bunda” uma coisa dessas?

Quer dizer: o cara escreve um texto para um blog – com bastante visibilidade na comunidade gay – exigindo respeito da sociedade e demonstra claramente que é incapaz de respeitar seus próprios “irmãos”?

Pior foi perceber nos comentários do texto que muitos gays pensam como ele. Apoiavam a visão dele e esculhambavam mais ainda a coisa toda.

Em resumo: ele tem o direito de ser como quiser mas eu não! Ele é melhor que eu só porque o seu “outing” foi numa praça pública empunhando uma bandeira do arco-íris ao som de “I will survive” e o meu apenas para aqueles que eu julguei necessário!

Ele se esquece, comodamente claro, que muitos gays-machos como eu trabalham em grandes empresas, ou são profissionais renomados e reconhecidos em suas áreas, outros são políticos ou assessores destes, e que tais gays-machos tem poder nas mãos para ajudar a causa LGBTSxyz de outra forma, nos bastidores. Se esquece também que muitos gays-machos como eu tem um canal direto com políticos – inclusive os mais resistentes – e que conseguem, numa conversa tranquila  e apolitizada, mudar aos poucos a visão deles em favor da causa LGBTSxyz.

Se esquece também que, historicamente falando, muitos gays-machos davam a cara pra bater e enfrentavam situações bem piores que as que os gays – ele inclusive – enfrentam hoje. Junto com a comunidade gay, de mãos dadas quando necessário, estes gays-machos marcharam no passado em defesa de direitos primários e que eles também tiveram o seu mérito nas conquistas. E que hoje, se necessário for, estraremos em campo  (dar a cara pra bater publicamente) sim na defesa dos direitos da comunidade LGBTSxyz, porém, sem vestir uma fantasia do que não somos ou nos travestirmos. Estaremos ali marchando, sem negar o que e como somos: gays-machos.

Observem a foto. Tem muito gay-macho e gay-fêmea aí. Todos lutando juntos.

Talvez a visão distorcida desse cara – e de tantos outros gays que pensam assim – tenha fundamento na sua vida social, seu círculo social. Talvez, por não conviver – por puro preconceito apesar de morrerem de tesão por estes – com gays-machos, preferindo estar sempre na companhia de iguais, ele desconheça esta realidade, este estilo de vida gay,  onde estes gays-machos podem estar “infiltrados” e o que podem fazer em favor da causa LGBTSxyz. Quem sabe também esta revolta não está fincada num “NÃO” que recebeu após dar uma cantada chula em algum gay-macho? Então ele sai livremente por aí vomitando o seu ódio contra o seu semelhante.

São meras suposições minhas sobre este cara? Sim. Mas estão baseadas na realidade de muitos gays que conheço. Na cabeça destes, apenas por eu ser gay, tenho obrigação de trepar com quem quer que seja e se eu não for “mulher” tou negando a minha sexualidade. Pera lá: eu gosto de gay-macho, já maduro, discreto como eu. É pecado isso agora? É crime ter um biotipo específico que te atrai fisicamente e te deixa de pau duro só de olhar?

Ou seja, o pipi dele fica em riste quando me olha e me deseja, então o meu caralho tem a obrigação de ficar em riste mesmo não sentindo tesão pelo cara, apenas para satisfazer a vaidade e os desejos DELE? Alguém aí me mostra onde é que fica esse botão liga/desliga???

Isso nem de longe quer dizer que os gays-machos sejam incapazes de conviver socialmente, na boa, com aqueles que são diferentes. No entanto, os mais abusados tem de ter em mente o seguinte: quando cruzarem com um gay-macho na rua ou onde for, lembre-se que vocês são iguais, mas diferentes. Sejam discretos em respeito ao outro. Não digo apresentar-se como um gay-macho, mas ao menos evite dar bafão.

Nesse ponto admiro muito o André – drag Brigitte Beaulieu de Curitiba. Nos conhecemos desde a época em que ele ainda era um jovenzinho, iniciando – e já arrazando nos shows – a sua vida. Sempre me tratou com muito respeito e NUNCA fez qualquer coisa que me colocasse numa situação constrangedora. Claro que quando nos encontrávamos sozinhos na rua ou em alguma boate ou bar, ele tinha a liberdade de ferver e brincar comigo. É um amigo que, apesar da distancia e da falta de contato, tem um lugarzinho só dele em meu coração. Respeito-o demais pela pessoa linda que ele é.

Já enfrentei vários problemas por causa de gays sem noção: eu andando na rua com alguém (chefe, familiares, amigos que não sabiam, etc) e chega uma loka não sei de onde fervendo, com seu palavreado típico e lindamente educado, sem se tocar ou querer saber quem é que estava ao meu lado. Numa das vezes, era um ex-governador que eu estava acompanhando num 1° de dezembro, numa ação pública de conscientização sobre a AIDS/HIV em Curitiba-PR.

Um cara difícil de lidar, bastante resistente a qualquer assunto sobre homossexualidade e que, depois de mais de 3 horas de conversa, diálogo, onde consegui mostrar o lado “bom e normal” que a homossexualidade tem assim como a heterossexualidade. Do nada, me chega uma beeee fazendo um mega bafão histérico e fechativo, e joga tudo por terra.

Ou melhor, enterra e bate a pá em cima e sai rindo equilibrando-se na sua plataforma.

Repito o que já escrevi aqui neste blog e no Twitter, e prestem bastante atenção:

Enquanto a comunidade LGBTSxyz – incluindo as associações – não aceitar e assumir a diversidade dentro dela mesma, não tem o menor direito – e nem sentido – de exigir respeito de quem for.

Sim, me senti bastante ofendido pelas colocações deste cara. Meu compenheiro, um gay-macho lindo e tesudo,  também. Vários amigos – gays-machos – que mostrei o texto também.

Respeito é bom, todos nós gostamos, merecemos e estamos correndo atrás disso.

JUNTOS!

Se for continuar como está, não reclamem das pedradas recebidas.

Primeiro vamos arrumar a nossa casa pra depois arrumar a sociedade?

Pode ser?

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