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Sim, quem me conhece sabe exatamente o que este depoimento e esta história toda tem a ver com a minha vida. Sim. Eu já estive dentro da ÊXODUS BR. Os motivos que levam uma pessoa a isso vão além dos citados pelo Michael no texto dele. Apresento aqui alguns dos meus e fatos vividos dentro da igreja.

Como muitos eu também fui criado dentro de uma família religiosa com maioria evangélica. Vivia minha vida tranquilamente – apesar dos entraves familiares corriqueiros que vez ou outra aconteciam – até que, em 2001, vivenciei um final de um relacionamento de 11 anos bastante traumático que me desestabilizou por completo.

Motivo? Uma sogra satânica em minha vida.

Uma sogra que tinha na mente o seguinte: o filho dela não era viado. Ele só estava viado por causa da minha companhia. Enquanto ela não sabia de nada, eu era o melhor amigo e pessoa do mundo. Após descobrir, virei o demônio, o anti-cristo encarnado e ela, como boa defensora e protetora da moral cristã, da família e dos bons costumes, tinha o dever de acabar comigo. E foi o que fez.

Três anos enfiada dentro da nossa casa (minha e dele) de onde ela não saia nem para ir na esquina comprar o próprio cigarro. Tudo para estar sempre ao lado do filhinho para defendê-lo do diabão aqui (detalhe: o filhinho tinha mais de 40 anos na época). E assim foi indo dia a dia minando e destruindo algo lindo que existia entre eu e ele. E ele como bom filhinho da mamãe deixou que ela me destruísse sem falar um “a” sequer em minha defesa.

De amigos meus – que ela me humilhava perversamente na frente deles – passando por parentes que ela tocou de minha casa e fazia questão de telefonar e inventar fofocas maldosas – incluindo os meus pais e irmãs – até interferir em meus ambientes profissionais e de estudos, ela fez de tudo um pouco.

Nos separamos e já que ela tinha amaldiçoado tudo o que construímos, que engolisse a própria maldição e convivesse com ela. Abandonei tudo e fui recomeçar a minha vida.

Neste recomeçar, acabei frequentando bares e boates gays. Isso me fez reviver os sentimentos que tomaram conta de mim quando eu ainda era jovem: a frivolidade, falsidade, promiscuidade e jogos de interesses que imperam nos guetos gays, ou seja, tudo e todos são meros objetos descartáveis. Estas coisas me fizeram perceber que aquilo não era a minha praia. Não faz parte de mim esse tipo de vida.

Não consigo ver outra pessoa como um mero objeto sexual, um pedaço de carne exposta numa vitrina onde as pessoas passam, olham, apalpam, julgam a qualidade e decidem se querem levar pra casa ou nao. Também não consigo ver outras pessoas apenas pelo exterior. Dou muito mais valor ao interior que às etiquetas de roupas, idade, beleza externa, ou qualquer coisa que é valorizada no gueto gay. Adoro as marcas da maturidade – os cabelos grizalhando, as marcas de expressão… e por isso só ou por nao valorizar o que o gueto gay acha “normal”, por rejeitar educadamente cantadas de gays mais novos ou fora do biotipo e estilo que eu curto, era constantemente chamado de tia, velha, recalcada e outras coisas que vocês bem conhecem ou podem imaginar.

Óbvio que entrei numa séria crise chegando a ficar uma semana trancado dentro da casinha que eu tinha alugado, sem comer, sem atender telefone nem campainha, sem ligar TV ou a luz. Queria sim morrer. Essa vida não é para mim.

Até que um belo dia ouço a voz de meu pai me chamando na porta e minha mãe batendo na janela do meu quarto. Estavam desesperados pois nem mesmo meus vizinhos nem o único amigo que tinha sobrado tinha alguma noticia de mim. Estavam ha uma semana tentando falar comigo e não conseguiam pois eu tinha tirado o telefone da tomada.

Por estes e outros motivos, eu tinha rompido a minha relação com Deus. Para mim, naquele momento Ele era algo digno de historinhas infantis, criação de mentes perturbadas que viviam uma utopia para sanar ou amenizar suas mazelas e neuroses pessoais. Estava num ponto que Ele existindo ou não era totalmente indiferente para mim. Não agredia ninguém por causa de sua fé, mas que não ousassem vir me falar d’Ele.

Abri a porta e foi como se eu tivesse tirado o mundo de seus ombros. A expressão de alívio, alegria e amor deles tenho gravada até hoje em minha mente.

Mas, eles são evangélicos. Numa tentativa desesperada em me “salvar”, como não encontraram o pastor Elias em Curitiba, acabaram me levando á um templo da Igreja Universal. Lá, no meio da tarde, umas 50 pessoas ouvindo o sermão de um daqueles pastores “estudados”. Mal nos sentamos e ele começa com um papo tipo isso:

“Irmãos, Deus está me pedindo para provar a fé de vocês neste momento. Tenho aqui em mãos alguns CDs do músico de nossa igreja “Fulano de tal”. Se você crê realmente que tudo o que deres a Deus ele lhe dará em dobro, compre agora este CD por R$ 5.000,00.”

Olhei para meus pais com ar de desprezo mas isso foi interrompido por uma senhora que levantou-se, foi lá e preencheu um cheque e comprou o tal CD. Atônito assisti à cena mais bizarra que já presenciei dentro de uma igreja: ele foi negociando a fé daquelas pessoas, abaixando cada vez mais o valor do CD até que a última pessoa comprou-o por meros R$ 0,50. Olhei para meus pais e disse em alto e bom som:

“Se isto for Deus, quero que ele se foda!”

Nisso vieram alguns membros da igreja (diáconos) e perguntaram se precisávamos de oração. Antes que meus pais abrissem a boca lancei:

“Se ousarem orar ou encostar suas mãos imundas sobre mim ou meus pais, a porrada vai rolar aqui dentro.”

Levantei-me e puxei meus pais para fora e fomos embora.

Bom, acabei voltando para a cidade deles, para dentro da casa deles e com uma única condição: “Você vai voltar a frequentar a igreja e vai largar desta vida mundana”.

Amém! Como eu poderia rejeitar se eu estava literalmente fodido? Morando num casebre, passando fome, em depressão profunda, desempregado, com pensamentos suicidas, etc.

Comecei a frequentar a igreja, meio sem jeito pois na cidade pequena, pelo meu passado (a bichinha da escola e do clube), a maioria da congregação sabia que eu era “viado”. Sempre percebia os rabos de olho, o zumzumzum, as risadinhas e podem acreditar: não era mania de perseguição ok?

Claro que tive de conversar com o corpo pastoral da igreja e falar absolutamente tudo sobre minha vida. Um deles, ao me receber para os discipulados, sentava-se em sua cadeira e, enquanto conversavamos, ficava lá do outro lado da mesa patolando-se (quem não sabe o que é isso, é aquele ato de ficar pegando no cacete, juntando gostoso com as mãos, oferecendo-o a quem está observando). Sim, ele estava excitado em todas as vezes. Ele não estava apenas me testando, ele queria sim é entrar na putaria ou ter alguns momentos de putaria comigo ali dentro da sala dele com a porta devidamente trancada. Busquei então outro pastor.

Passei a ser discipulado por um pastor maravilhoso (D.) que assim como eu, tinha uma vida “mundana” pregressa (no caso dele, drogas). Mas infelizmente não percebi os toques sutis que ele tentava me dar. Ele foi mandado para outra igreja e me jogaram nas mãos de um outro pastor, fundamentalista de primeira grandeza.

Tudo o que o Michael coloca no texto dele, eu vivenciei por longos 3 anos. Nada de masturbação, nada de internet, nada de vida noturna ou social – a nao ser que estivesse junto com membros da igreja e apenas com estes. E dá-lhe rejeição, repressão, noites em claro chorando e perguntando a Deus o porque d’Ele nao me tirar a vida já que aquilo nao saía de mim? Que maldição era aquela? O que eu tinha feito de tão ruim para me sentir o pior ser humano da face desta terra? Desprezível? Porque ter de conviver com pais que falavam em alto e bom som que nao deixariam seus filhinhos no berçário porque o pederasta, sodomita estava lá ajudando o departamento infantil naquele dia, e ainda ter de perdoa-los silenciosamente, em oração?

Comecei a frequentar o Exodus por indicação de um membro da igreja pois eu já estava ficando agressivo com algumas pessoas, impaciente e, segundo ele, o ministério poderia me auxiliar.

Foi um encontro, depois outro, e mais outro e ainda muitos outros. Sempre aquela mesma pressão psicológica. Aproveitando as frases do depoimento do Michael para explicar esta fase, fui me afundando ainda mais em culpa, ansiedade e ódio contra mim mesmo. Uma profunda fase de auto-destruição que chegava a picos de auto flagelação quando me deparava diante do espelho do banheiro e me espancava. Só não cometi suicídio pois Deus me fez um homem covarde o suficiente para tal ato. Mas os pensamentos eram exatamente estes:

Eu tenho que me “purificar”. Não há cristão homossexual. Se eu era um cristão de fato, então já não era mais gay aos olhos de Deus. Determine isso em sua vida! Continue orando, pois você não está orando o suficiente e o pecado (inimigo, diabo, etc) está te vencendo. Se você não vencer isso não herdará o reino dos céus. Porque eu não estou mudando? Porque, mesmo depois disso tudo, o Senhor ainda não me apresentou o Espírito Santo? Ainda não bastou tanto sofrimento e angústia? Toma a tua cruz e carregue-a assim como Cristo carregou a dele.

E ainda tinha de ouvir diariamente de diversas pessoas dentro da igreja:

Você pode não ser um cristão verdadeiro. Você não tem fé suficiente. Você não está orando e lendo a Bíblia o suficiente. Talvez você tenha um demônio.Você não é sincero o suficiente. Você não está se esforçando o suficiente. Você não tem fé suficiente. Não caia! Estamos orando muito para que Deus te liberte disso e você encontre a verdadeira felicidade. Você não entregou a sua vida verdadeiramente a Cristo. A Bíblia diz em (…) que o homossexualismo é uma aberração aos olhos de Deus. Você quer ter o mesmo fim dos Sodomitas? Por mais que você mude, jamais será digno e puro como a minha família que nasceu dentro da igreja.

Sim, eles conseguem fazer você se sentir a pessoa mais imunda do mundo. E em momento algum pedem desculpas por isso.

Além disso tudo, arranjaram uma mulher para mim. V. é uma pessoa doce, amiga, cristã verdadeira, digna, ética, tranquila em sua fé. Mas ela me foi apresentada para que eu casasse afim de provar para a sociedade e para a igreja que eu tinha virado hétero. Provar a obra de Deus em minha vida. Porém ela tinha um filho ainda bebê. Perfeito não é mesmo? Caso eu falhasse sexualmente, já teria um filho para apresentar como meu.

Neste mesmo momento, comecei a ser treinado como lider para um futuro ministério de minha igreja de cura da homossexualidade. Tudo isso com acompanhamento e cobranças de um psicólogo evangélico, uma igreja inteira e a família.

V. foi a pessoa mais incrível que eu conheci neste período. Me acompanhou em diversos encontros da Exodus, foi a acampamentos, conversavamos por horas a fio sem nunca nos tocarmos além dos carinhos de amigos (abraços e beijos no rosto). Ela tinha plena consciência de todo o processo pelo qual eu estava passando, de minha vida anterior e respeitava isso. Percebeu que eu não estava “pronto” e soube respeitar. Vivenciou várias de minhas crises existenciais onde eu implorava a Deus para me tirar a vida pois eu nao estava mais suportando tudo aquilo tudo. O fardo que Ele tinha me dado, era grande e pesado demais e eu estava a ponto de arriar a qualquer momento.

A minha depressão de 3 anos atras não só estava latente ainda como tinha piorado muito mais. Só que eu tinha uma válvula de escape: o louvor, o coral da igreja. Era o único momento em que eu me sentia bem dentro da igreja. Digo com convicção que a minha conversão não foi pela Palavra e sim pelo louvor. Foi a música que me reaproximou de Deus. Eu literalmente ligava o fôda-se e me entregava completamente ao louvor e adoração. De mim para Ele, sem me importar com quem estivesse ao lado ou assistindo as apresentações do coral. Como 1° tenor (e dramático ainda), não tinha quem não ouvisse a voz do “eterno viado agora cantante” que buscava desesperadamente a sua salvação.

Finalizava isso, voltava a escuridão. Meu deserto – ou inferno como queiram chamar – se redesenhava à minha frente.

No último encontro da Exodus que participei V. estava comigo. Passei os 3 primeiros dias do encontro chorando copiosamente em alguns momentos e como uma estátua fria e dura em outros. Lembro-me de em determinado momento do sábado a tarde, durante uma das pregações pensar: é hoje.

À noite, um grupo foi para o culto na igreja e outro permaneceu na chácara para fazer uma vigília. Fiquei e fui pro meio da mata com o pessoal. Acendemos a fogueira, começaram o louvor e eu não abri a boca. Fiquei ali estático, sentado, olhando para as chamas da fogueira. Lembro-me que em determinado momento me levantar e começar a orar silenciosamente. Orar não, na verdade eu estava indo pelo mesmo caminho que me fez afastar de Deus no passado: estava em guerra declarada com Deus.

Comecei a questionar tudo aquilo, toda a minha vida pregressa, onde haveria um pecado tão grande que eu tivesse feito que merecesse pagar daquela forma? Se fosse maldição familiar, que diabos eu tinha a ver ou que contas eu tinha a acertar por uma coisa pela qual EU nao tenho culpa alguma? O que é que Ele queria de mim afinal? Ou Ele me libertava ali, naquele momento ou que se esquecesse de mim em definitivo pois eu nao suportava mais aquilo. E caí de joelhos num berreiro (choro) que acabei assustando a todos. Vieram correndo ver o que estava acontecendo comigo.

Nesse momento emudeci por alguns instantes. Quando “voltei” comecei a chorar novamente mas me falaram que era um choro diferente, era um choro de alegria, leve, puro.

Saí dali e fui tomar um banho pois eu estava ensopado de tanto suor e lágrimas e ainda fedendo fumaça por causa da fogueira. Foi um banho restaurador e de limpeza profunda. Conforme a água ia escorrendo por meu corpo fui sentindo todo aquele peso, desespero, agonia, depressão indo pelo ralo, literalmente. Quando saí do quarto os líderes vieram conversar em particular comigo para tentar entender o que tinha sido aquilo tudo. Minha resposta foi seca e direta:

“Vocês já estiveram face a face com Deus? Pois é, acabei de ter com Ele.”

“E o que Ele te falou?”, perguntaram.

“Vá em paz meu filho. Eu te coloquei no mundo para ser feliz. Eu te amo e te aceito exatamente como você é. Estarei sempre com você.”

V. estava ao meu lado, me abraçou, me deu um beijo em minha testa e disse: “Eu sempre soube disso mas você estava tão vendado pelo desespero de sua fé que eu não conseguia brecha para te avisar. Te acompanhei porque em minha orações Deus me falou para te amparar e apoiar. Fique tranquilo, pois eu nunca me iludi com relação a nós.”

Ali eu rompi em definitivo com a Exodus e com essa tentativa estúpida de “cura”.

Mas ainda continuei na Igreja por causa do Coral. Porém não frequentava os cultos com a mesma assiduidade e, quando ia, ficava do lado de fora da igreja conversando com amigos, cristãos verdadeiros. Mas isso não durou muito tempo, apenas mais uns 2 ou 3 meses.

De certo modo comecei a observar quantos homens e mulheres homossexuais tem lá dentro. Muitos mesmo. Vários casados, a familia perfeita aos olhos da igreja, porém, percebia-se em seus olhares o tesao recalcado. Em alguns homens que chegavam perto de mim para conversar sentia aquele cheiro delicioso masculino que o corpo exala nos momentos de tesao. Muitos jovens que eu percebia que só estavam ali por imposição dos pais entre tantas outras coisas.

Bom, durante todo este período conheci vários gays que estavam na mesma situação que a minha. Desesperados, desamparados, rejeitados pelas suas famílias, pela sociedade, sofrendo e passando pelas mesmas coisas que eu estava passando. Ouvi relatos e histórias de vidas pregressas que chocariam até o mais abusado e promíscuo ser humano.

Com tudo isso, chego à conclusão de que sim, Deus enviou um anjo (V.) para cuidar de mim, me amparar durante todo este processo. Depois me presenteou com um companheiro lindo. Um homem digno, íntegro, ético, religioso, carinhoso, atencioso. Depois de um deserto infernal em minha vida, voltei a gozar a plenitude do amor, a vida e claro, literalmente falando.

Muitos daqueles que conheci na ápoca da Exodus se afastaram e voltaram para a sua vida anterior – ou “caíram” como dizem na igreja. Alguns mantiveram a sua fé, a sua religiosidade. Outros, a negaram por completo em revolta por toda a opressão que sofreram enquanto fizeram parte dos seus ministérios.

Não posso tacar pedras na Exodus irresponsavelmente. Tem seus erros e abusos? Tem sim e estes merecem tais pedradas para serem desmascarados. Mas um detalhe eu respeito muito: a verdadeira reaproximação com Deus que ela promove – ao menos no meu caso.

Eu?

Vivo tendo de – tentar – explicar o inexplicável para aqueles que não passaram por isso tudo e por isso só, não conseguem entender: que eu sou sim um gay que professa uma fé protestante. Que vivo em plena paz comigo mesmo e, principalmente, tenho uma linda relação com Deus. Não oro (ou rezo) mais e tampouco frequento templos, mas sempre o louvo cantando, seja na alegria ou na dor.

Aos irmãos em Cristo só digo uma coisa: não orem nunca mais – para ninguém – por este tipo de cura. Orem sim para que Deus os faça pessoas felizes, realizadas e capaz de amar ao próximo assim como Jesus o fez. Orem para que Deus apazigue seus corações e mentes ao ponto em que consigam ouvir a voz d’Ele. Nada além disso.

Não permitam, jamais, que pastores – ou alguém – façam outras pessoas passar por tudo isso que passei.

Por: Thiago Fiago

Quando o assunto é o PLC 122/2006, Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho, Júlio Severo, Magno Malta, Marcelo Crivella, e, sobretudo, o pr. Malafaia (e os pupilos e fiéis deles, perfeitos papagaios de pirata) adoram dar seus pitacos a respeito, mas não passam de palpiteiros e apenas isso (ou, no caso de Reinaldo Azevedo, um doxósofo, ou seja, “técnico-da-opinião-que-se-crê-cientista”).

Já cumpri essa missão desmascarando Reinaldo Azevedo, Júlio Severo, Olavo de Carvalho (nos comentários) também, agora parto para provavelmente o maior paladino anti-PLC122, o pastor Malafaia.

Dia 19 pela manhã no Twitter, além dos ridículos ataques me acusando de desconhecer a Constituição, fui desafiado por @J_Valadao a mostrar onde estavam os erros de Malafaia no vídeo de um debate de Malafaia com a deputada Iara Bernardi (parte 01 e parte 02).

Lamento que a dep. tenha se preparado tão mal, sem falar na falta desse dom da oratória para não ser ofuscada por Malafaia. Mais à frente explicarei o porquê. O pastor Malafaia, com toda sua oratória, saiu vencedor. Tanto é assim que foi marcado outro debate, onde, mais uma vez, o PLC 122 teve uma representante despreparada. Contudo, um olhar mais treinado, viu-se que a vitória foi pura retórica, não de argumentos e a seguir mostro as falácias e inverdades.

“A lei criminaliza a opinião”

Nenhuma novidade, já que calúnia, injúria e difamação (e os da Lei Anti-racismo) são crimes de opinião.

“Homofobia é uma pessoa doente na Psiquiatria que quer matar um homossexual”

Provavelmente, se baseou na “Psiquiatria” (mas ele é psicólogo) para dar um verniz mais científico a essa definição, mas homofobia não é isto. Homofobia é preconceito, antipatia, medo ou aversão irracional a LGBTs (não dá pra ser mais simples do que diz a Wikipedia – vejam-se as fontes da definição) e se manifesta por palavras, atos (agressões físicas) e até homicídios bárbaros. Em outras palavras, homofobia está para LGBTs como racismo para negros, machismo para mulheres, anti-semitismo para judeus.

“Lei do privilégio, não de homofobia.”

Não entendo essa crítica. O PLC 122 quando se refere a “orientação sexual”, inclui heterossexuais também. Ou será que o pastor acha apenas que é privilégio o tratamento dado aos grupos hoje previstos na lei anti-racismo, dentre eles os religiosos?

“Alguém na afetividade homossexual for impedido é 02 a 05 anos de cadeia (…) No pátio de uma igreja tem um casal heterossexual e um homossexual (…) e um casal tiver se agarrando e o pastor impedir é 02 a 05 anos de cadeia”

O PLC trata de garantir a LGBTs o direito de manifestar seus sentimentos (um selinho, um abraço, andar de mãos dadas, por ex.), da mesma maneira que hoje casais heteroafetivos o fazem. Nem mais nem menos. Se houver exagero, a punição deverá existir como também seria para um casal heteroafetivo que passe dos limites.

Bem, agora explico o porquê do despreparo de quem fez a defesa do PLC 122 e, ainda, como é incompetente o pastor Malafaia por posar de jurista e ignorar as atualizações desse projeto que, para ele, é tão perigoso. Os vídeos foram postados no dia 24/02/2010. Desde 17/11/2009, a sen. Fátima Cleide havia apresentado um Projeto Substitutivo, que alterou radicalmente a redação.

De minha parte, eu também via como inconstitucional o PLC 122 na redação original (em resumo: muita sede ao pote), mas o referido Projeto Substitutivo sanou esse erro e é plenamente constitucional (como concordam vários juristas de renome nacional e dois ministros do STF).

Assim, descabidas essas críticas, pois a previsão de pena de 02 a 05 anos não existe mais. Aos 4’03” ele cita o artigo que era, de fato, o mais absurdo (art. 20, § 5º), mas que não existe no Substitutivo. As críticas recaem num anacronismo ridículo.

Quanto à manobra na aprovação, foi um erro infeliz e não ofusca os méritos da proposta nem o debate democrático ao longo de toda a tramitação.

“Comparar homossexualismo (sic) com racismo é outra definição. Ninguém nasce homossexual. Homossexualismo é comportamental (…) Negro não pediu pra nascer negro, é negro, criança não pede pra ser criança, é criança, idoso não pede pra ser idoso, é idoso. Querer colocar, querer botar comportamento naquilo que uma pessoa nasce sem opção é uma vergonha. (…) Querer comparar comportamento com raça é o grande jogo deles. Por que se eles fazem uma lei só deles, já tava no lixo há muito tempo, mas eles querem misturar.”

Vergonha, pastor, muita vergonha alheia é o que eu sinto quando um jurista – aliás, um poser de jurista – ignora um conceito tão básico como o de “analogia”. Explico: analogia, segundo o dicionário Michaelis (1998), como “semelhança de propriedades”, “semelhança em algumas particularidades”. São semelhanças existentes entre coisas, seres de naturezas distintas (maiores detalhes aqui).

Já que o pastor não aceita a homossexualidade como fenômeno normal da sexualidade, eu quero lembrar que “religião”, hoje protegida na Lei Anti-racismo, também não é condição inata, foi incluída na lei porque religiosos foram, ao longo da história, um grupo discriminado e sistematicamente perseguido, tal qual negros, judeus. E é exatamente por ser um grupo social histórica e sistematicamente discriminado que LGBTs, assim como religiosos, devem ser incluídos na Lei Anti-racismo.

Esse argumento é uma sinuca de bico: se se fala em “escolha/opção sexual”, em “comportamento” de LGBTs e daí se conclui ser ilegítima inclusão desse grupo na Lei Anti-racismo, automaticamente se reconhece que “religião” e “procedência nacional” também não deveriam estar na lei porque são prática/conduta e escolha (ainda que dos pais), respectivamente; contudo, se se alega que “religião” e “procedência nacional” devem sim ficar na lei porque indicam grupos histórica e sistematicamente discriminados, forçosamente se reconhecerá o argumento justificando inclusão dos LGBT’s. Não há meio-termo.

Não é apenas o Movimento LGBT brasileiro que faz essa comparação, o Parlamento Europeu considera homofobia equiparável a racismo, xenofobia, anti-semitismo, sexismo; a ONU igualmente.

“Eu provo na Ciência, não existe ordem cromossômica homossexual, ordem cromossômica é macho e fêmea. ”

Para Malafaia homossexualidade é prática, conduta. Religião também, já que não se tem notícia de que se nasça hinduísta, evangélico… Ou há uma ordem cromossômica para religiosos? Para negros (cuja diferença é apenas mais melanina na pele)? As comparações de Malafaia só são feitas quando convém, por mais falaciosas que sejam.

“Eu vou provar pra deputada que a lei criminaliza e ela é contra a Constituição, o art. 5º, inc. IV. (…) Os grupos de homossexuais me denunciaram no MJ tentando tirar meu programa do ar porque eu preguei com a Bíblia a questão da homossexualidade. Eles tentarão me incriminar no CFP, eu como pastor antes da lei ser aprovada.”

Difícil opinar se não se sabe o conteúdo das declarações – e a julgar quem as faz é de se ter receio –, mas pra que o uso do “incriminar”? No máximo poderia ter o registro profissional cassado caso dissesse que homosexualidade é doença ou adotasse, na sua atividade de psicólogo, um “tratamento para cura” (conforme art. 3º da Resolução 01/1999 do Conselho Federal de Psicologia).

“Os grupos homossexuais não suportam o debate crítico. E a democracia (…) a marca da democracia é a livre expressão de opinião.”

Uma estúpida generalização fácil de desmentir: foram realizadas diversas audiências públicas na Câmara e no Senado.

“Tomara que essa lei seja aprovada porque ela não tem em lugar nenhum do mundo…”

Existem leis que punem a homofobia no Canadá, África do Sul, México, EUA, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Argentina, Bolívia, Colômbia (aqui, está na própria Constituição!), Equador, Guiana Francesa, Peru, Uruguai, Venezuela, Isael, Nepal, dentre outros. O Brasil faz parte do grupo de países que não tem uma lei desse tipo e cujos índices de desenvolvimento, respeito aos Direitos Humanos são baixíssimos.

Pra finalizar, diz que o “verdadeiro descriminado do Brasil é o pobre, os jovens assassinados é número ínfimo e LGBTS não são grupo de risco”.

Ignorar episódios homofóbicos como o da av. Paulista, o assassinato de inocentes como o menino Alexandre Ivo, de apenas 14 anos, não faz menos verdadeira e cruel a realidade cotidiana da homofobia vivida pelos LGBTs do Brasil, aliás crimes de ódio homofóbico crescem no mundo inteiro, segundo alerta da ONU no último dia 17, dia mundial do combate à homofobia.

Pastor Malafaia, estou à disposição para um debate na TV, na rádio, em um jornal, nas redes sociais da internet, onde for. Desmascarei aqui suas falácias e faria de novo em qualquer outra oportunidade.

Só restou, de todo o debate, apenas a retórica de Malafaia. Ainda hoje ele fala em “mordaça gay”. Os seguidores o aplaudem e parabenizam pela aguerrida luta anti-PLC 122… Já eu, que não me deixo impressionar por esses posers de plantão penso:

Como! Um grande homem? Não vejo nada além de um comediante do próprio ideal. (Nietzsche)

Só me faltava essa agora!

Em resposta ao que você havia publicado recentemente em seu site, escrevi um texto enorme. Sim,  reconheço que nele havia impropérios tremendos, mas fui me dando conta de que tudo aquilo que escrevi não merecia ser publicado, não por você ser quem é, mas pelo fato de que todas aquelas palavras poderiam “sujar” meu blog.

Pois bem, durante estes dias, desde que você publicou o texto, venho refletindo e conversando muito com Deus até que ontem à noite, no banho – nas águas purificadoras – ocorreu-me uma coisa: para que darei munição ao inimigo?

Deleta tudo!

Não vou mais dissecar item por item de seu texto no qual se gaba por ser autor do neologismo (WAWW!!!) Homodiafonia. Acho que vou lançar alguns também: cristãocafonia, talvez cristãobabaquice ou ainda, o melhor,  CristãoDuCapeta.

Bom, brincadeiras à parte, o papo é o seguinte: de nada adianta você, outros pastores e tantos outros autodenominados “cristãos” ficarem berrando em seus templos ou publicando textos lixos como esse na web. Incluem aqui também os livros e panfletinhos estúpidos feitos por vocês que só servem para doentese isso, nós gays, definitivamente não somos.

Esta igreja sabe de todo o calvário a que fui submetido por longos três anos, tentando “me curar”, tentando tratar como doença o que para mim hoje é virtude do coração, do corpo e da alma, uma forma de amar e desejar que me realiza como homem e como ser humano. Uma dimensão erótico-afetiva da sexualidade – a forma como naturalmente minha sexualidade se realiza erótica e afetivamente – dentre tantas formas que todo e qualquer ser humano vivencia seja hetero, homo, bi, pansexual ou tomatesexual.

Em vão tive que enfrentar um “deserto” no qual fui lançado e lá, no final das contas, numa experiência que tenho certeza que poucos cristãos já tiveram, Deus veio ao meu encontro, tomou a minha mão para me libertar exatamente do lugar onde vocês tinham me mandado para me curar: um encontro da Exodus. Não vou entrar em detalhes pois até imagino como você vai interpretar demoniacamente esta manifestação tão marcante de Deus em minha vida: por seu olhar obscurecido e coração empedernido certamente vai afirmar que não foi Deus, foi o capeta; você entendeu errado, Ele estava te provando e você entendeu errado; e por aí vai. Não vale a pena ouvir tudo isso de novo.

O que quero dizer, pastor, é que hoje vivo plenamente em paz com Deus. Uma paz profunda, revigoradora, revitalizante. Mantenho hoje uma relação com Deus, imensa e profunda, que não consegui atingir enquanto estava sendo policiado dentro da igreja.

Hoje posso dizer conscientemente que sim: eu tenho uma relação sólida, íntima, fiel e leal com Deus.

Outra coisa pastor, é que eu não fui convertido pela palavra distorcida dos pastores. Quem me acompanhou de perto reconhece que fui quebrantado, convertido pelo louvor. Louvor este que carrego até hoje e certamente carregarei por toda a eternidade em meu coração. É a chama que arde em meu peito, é a forma que me aproximo d’Ele, que converso com Ele diariamente.

Por isso pastor, o que eu quero dizer é que se você pensa que atinge a qualquer um de nós – gays – , que já passaram ou não por algum tipo de terapia diabólica de falsa cura, lamento informar: você está perdendo seu tempo, aliás, tempo que deveria ser melhor dedicado para ser instrumento, neste mundo, da Misericórdia e do Amor d’Aquele que nos amou até o fim, do Amor que se derrama infinitamente em nosso coração. É uma perda de tempo especialmente para nós que já trilhamos o caminho da palavra falada e hoje conseguimos nos regozijar na Palavra VIVA, PURA – aquela que vem diretamente d’Ele nos momentos de oração e louvor pessoal. E é perda de tempo pois esse tipo de atitude apenas afasta mais ainda de Jesus aqueles que se sentem rejeitados por Ele por causa de discursos preconceituosos de  pessoas como você.

A única coisa que tantos como você conseguem com isso, pastor, é atingir aqueles que não tem culpa alguma. Mas vocês, em sua ira insana na sodomização do mundo fora da igreja, não percebem que ferem profundamente aqueles a quem vocês dizem proteger: o rebanho da igreja.

Meus pais são uma prova disso. Carregam uma culpa imensa imposta e reafirmada constantemente por vocês, como se eles fossem os culpados por eu ser homossexual. Apesar de convivermos pacificamente e eles se sentirem confortáveis na minha casa que divido com meu companheiro há cerca de oito anos (sim, é um lar cheio de amor, respeito e carinho), percebo de vez em quando certa instabilidade nessa relação. E, sempre que isso vem à tona, aparece alguma coisa que você – ou alguém da igreja – falou em algum culto, reunião ou conversa formal ou informal. Vocês semeiam a cizânia! Quando penso que eles estão bem, lá vem você e seu rebanho nefasto com o rodo traiçoeiro “em nome de Deus”.

Ou seja: a igreja não quer um rebanho sadio, feliz e comungando de uma relação pura e plena com Deus. Tampouco com o verdadeiro Deus. Ela quer sim, é um bando de pessoas cada vez mais doentes, neuróticas, necessitadas e algemadas nas migalhas da redenção por causa de seus pecados ou pagando por coisas que não lhes dizem respeito – como é o caso aqui. Vocês vivenciam uma relação doente e suja com o próprio corpo e com a própria sexualidade e projetam esta doença e sujeira naqueles que buscam vivenciar o amor em todas suas formas no Amor de Deus.

É isso que você prega pastor? É nisso que você crê pastor? Precisa manter os membros de sua igreja numa eterna culpa, carregando uma cruz que não lhes diz respeito? Um rebanho de eternos doentes nas garras de um “deus” traiçoeiro? De um “deus” forjado à imagem e semelhança de suas próprias amarguras e preconceitos?

É este “deus” que você representa pastor?

Um “deus” opressor, intolerante, violento, preconceituoso, incapaz de amar? Um “deus” que só faz humilhar seus filhos? Um “deus” que entregou seu filho em vão, pois o diabo e suas artimanhas tem mais poder que o sangue vertido na cruz?

Um “deus” que só serve para alguns poucos nascidos dentro da igreja, e que lançará sua espada sobre os iniciados? (E não venha dizer que não há essa divisão pois a vivenciei diariamente por longos 3 anos).

Não pastor, não é nesse “seu deus” que eu creio.

O Deus que creio e conheci é o Deus de Amor. Que nos amou tanto que nos deu seu Filho.

Então pastor, faço um desafio a você – e a todos os outros pastores, padres e cristãos – que creio não ser tão difícil já que se arrogam como “legítimos mensageiros de Deus” aqui na terra:

Durante um ano, o desafio você a falar apenas sobre o Amor de Deus.

Mas terá de ser sobre o Amor Ágape: aquele amor puro, limpo, que não vê defeitos ou diferenças.

Aquele que não superestima a culpa, o pecado.

Aquele que não supervaloriza o poder do diabo menosprezando a dor, o sofrimento, o sangue derramado e a verdade que representa a cruz.

Aquele que estendeu a mão à prostituta não para convertê-la, mas sim por simplesmente amá-la e respeitá-la como era.

Assim pastor, a partir de hoje, em todas as reuniões, cultos e conversas que você participar, não poderá falar de outra forma. Nem mesmo com seus filhos ou com sua esposa.

Isso vale para pensamentos também. Incluindo as orações: quando perceber algum pensamento que vá contra este desafio, lance-os nas mãos de Deus e desvie o pensamento para outra coisa: cante, louve ao Senhor. “Não temas, crê somente” – diz a Palavra.

Se és mesmo um homem de Deus, isso não será difícil afinal, “O meu Deus, é o Deus do impossível” não é mesmo?

Se fraquejar diante do desafio cante com o Kleber Lucas:

“Ó Deus tu és o meu Deus forte
O Grande El-Shaddai
Todo poderoso, Adonai
Teu nome é Maravilhoso
Conselheiro, Príncipe da Paz
Yeshua Hamashia, Deus Emanuel

O Pastor de Israel, o Guarda de Sião
A Brilhante Estrela da Manhã
Jesus teu nome é precioso
Meu Senhor e Cristo
O nome sobre todos pelo qual existo

Jireh, o Deus da minha provisão
Shalom, o Senhor é a minha paz
Shamah, Deus presente sempre está
El-Elion, outro igual não há

Jeovah Rafa meu Senhor
Que cura toda dor
Tsidkenu Yaveh minha justiça é
Elohim, Elohim Deus
No controle está meu Deus
Tudo governa (2x)

O Pastor de Israel, o Guarda de Sião
A Brilhante Estrela da Manhã
Jesus teu nome é precioso
Meu Senhor e Cristo
O nome sobre todos pelo qual existo

Jireh, o Deus da minha provisão
Shalom, o Senhor é a minha paz
Shamar, Deus presente sempre está
El-elion, outro igual não há

Jeovah Rafa meu Senhor
Que cura toda dor
Tsekenu Yaveh minha justiça é
Elohim, Elohim Deus
No controle está meu Deus
Tudo governa (3x)”

Sim pastor, foi essa a música que me libertou das amarras, mordaças e vendas da igreja no ultimo encontro da Exodus que participei. Foi nesse louvor que senti o poder de Deus agindo sobre mim e tirando as travas de meus olhos, de minha mente e meu coração para a verdade pura d’Ele, me libertando de todo aquele inferno que eu estava vivendo, prestes a cometer suicídio por não suportar mais tamanha angústia, desespero e rejeição.

Então é isso pastor. Está lançado o desafio a você e a todos os outros que falam “in nomine Domini“.

Cumpra-o se o seu “deus” for realmente o Deus Vivo proclamado na Boa Nova que Jesus nos anuncia!

Hoje à tarde enquanto estava no Twitter uma tuitada de alguém  na tag #HomofobiaNao me chamou a atenção por causa do texto. Cliquei no link e fui ver do que se tratava.

Não, não adianta pedirem o link pois eu me recuso a dar ibope para ele.

Até aceito que é um texto muito bem escrito porém, a confusão de idéias e conceitos – descontando ainda o desconhecimento histórico do movimento LGBTSxyz – o cara acabou pisando feio na bola.

Ele vem publicamente exigir respeito da sociedade num texto onde ataca, deliberadamente, a sociedade, inclusive outros gays.

Tudo bem que ele goste e se sinta bem usando maquiagem, roupas fashion, dando carão na rua entre outras coisas. Tudo bem também que ele seja efeminado. Ninguém tem absolutamente nada a ver com isso a não ser ele mesmo. Só que pera lá: chamar de gay-homofóbico os homossexuais – segundo ele, os gays-machos – que curtem, gostam  e vivem tranquilamente com a sua masculinidade e que admiram e buscam isso nos possíveis parceiros para sexo ou relacionamento afetivo já é pesado demais.

Compara-los aos homofóbicos é de uma sandice e irresponsabilidade que me deixou a tarde toda sem palavraspor isso a insônia e a necessidade de falar agora.

Ele inclusive relata – de forma fútil e jocosa – as “desculpas” que nós, gays-machos, damos quando somos paquerados ou cantados por gays que não fazem o nosso tipo.  Como se não bastasse, ele ainda afirma categoricamente que esse tipo de atitude é típica de gays que não foram machos o suficiente para assumir a sua homossexualidade e continuam lá, trancafiados dentro do armário, recalcados e infelizes. Para ele, sair do armário é virar – queira ou nao, goste ou não – em efeminado. Só assim – sendo como ele – a pessoa será completamente feliz.

Diz ainda que, historicamente, é graças às “beeessss” mais abusadas “que dão a cara a tapa diariamente” que estamos conseguindo avançar nas questões dos nossos direitos. Que os gays-machos adoram ficar na deles quietos, sem mexer uma palha sequer enquanto eles – os prováveis futuros mártires do movimento LGBTSxyz – estão pelas ruas empunhando bandeiras, levando porrada, etc mas que depois vem exigir os direitos conquistados por elas. Que as caricaturas gays da TV tem mais valor que nós, gays-machos.

Bom, o texto segue por essa linha de raciocínio. Isso tudo foi apenas uma amostra geral.

Agora me digam: é ou não é de “cair o cú da bunda” uma coisa dessas?

Quer dizer: o cara escreve um texto para um blog – com bastante visibilidade na comunidade gay – exigindo respeito da sociedade e demonstra claramente que é incapaz de respeitar seus próprios “irmãos”?

Pior foi perceber nos comentários do texto que muitos gays pensam como ele. Apoiavam a visão dele e esculhambavam mais ainda a coisa toda.

Em resumo: ele tem o direito de ser como quiser mas eu não! Ele é melhor que eu só porque o seu “outing” foi numa praça pública empunhando uma bandeira do arco-íris ao som de “I will survive” e o meu apenas para aqueles que eu julguei necessário!

Ele se esquece, comodamente claro, que muitos gays-machos como eu trabalham em grandes empresas, ou são profissionais renomados e reconhecidos em suas áreas, outros são políticos ou assessores destes, e que tais gays-machos tem poder nas mãos para ajudar a causa LGBTSxyz de outra forma, nos bastidores. Se esquece também que muitos gays-machos como eu tem um canal direto com políticos – inclusive os mais resistentes – e que conseguem, numa conversa tranquila  e apolitizada, mudar aos poucos a visão deles em favor da causa LGBTSxyz.

Se esquece também que, historicamente falando, muitos gays-machos davam a cara pra bater e enfrentavam situações bem piores que as que os gays – ele inclusive – enfrentam hoje. Junto com a comunidade gay, de mãos dadas quando necessário, estes gays-machos marcharam no passado em defesa de direitos primários e que eles também tiveram o seu mérito nas conquistas. E que hoje, se necessário for, estraremos em campo  (dar a cara pra bater publicamente) sim na defesa dos direitos da comunidade LGBTSxyz, porém, sem vestir uma fantasia do que não somos ou nos travestirmos. Estaremos ali marchando, sem negar o que e como somos: gays-machos.

Observem a foto. Tem muito gay-macho e gay-fêmea aí. Todos lutando juntos.

Talvez a visão distorcida desse cara – e de tantos outros gays que pensam assim – tenha fundamento na sua vida social, seu círculo social. Talvez, por não conviver – por puro preconceito apesar de morrerem de tesão por estes – com gays-machos, preferindo estar sempre na companhia de iguais, ele desconheça esta realidade, este estilo de vida gay,  onde estes gays-machos podem estar “infiltrados” e o que podem fazer em favor da causa LGBTSxyz. Quem sabe também esta revolta não está fincada num “NÃO” que recebeu após dar uma cantada chula em algum gay-macho? Então ele sai livremente por aí vomitando o seu ódio contra o seu semelhante.

São meras suposições minhas sobre este cara? Sim. Mas estão baseadas na realidade de muitos gays que conheço. Na cabeça destes, apenas por eu ser gay, tenho obrigação de trepar com quem quer que seja e se eu não for “mulher” tou negando a minha sexualidade. Pera lá: eu gosto de gay-macho, já maduro, discreto como eu. É pecado isso agora? É crime ter um biotipo específico que te atrai fisicamente e te deixa de pau duro só de olhar?

Ou seja, o pipi dele fica em riste quando me olha e me deseja, então o meu caralho tem a obrigação de ficar em riste mesmo não sentindo tesão pelo cara, apenas para satisfazer a vaidade e os desejos DELE? Alguém aí me mostra onde é que fica esse botão liga/desliga???

Isso nem de longe quer dizer que os gays-machos sejam incapazes de conviver socialmente, na boa, com aqueles que são diferentes. No entanto, os mais abusados tem de ter em mente o seguinte: quando cruzarem com um gay-macho na rua ou onde for, lembre-se que vocês são iguais, mas diferentes. Sejam discretos em respeito ao outro. Não digo apresentar-se como um gay-macho, mas ao menos evite dar bafão.

Nesse ponto admiro muito o André – drag Brigitte Beaulieu de Curitiba. Nos conhecemos desde a época em que ele ainda era um jovenzinho, iniciando – e já arrazando nos shows – a sua vida. Sempre me tratou com muito respeito e NUNCA fez qualquer coisa que me colocasse numa situação constrangedora. Claro que quando nos encontrávamos sozinhos na rua ou em alguma boate ou bar, ele tinha a liberdade de ferver e brincar comigo. É um amigo que, apesar da distancia e da falta de contato, tem um lugarzinho só dele em meu coração. Respeito-o demais pela pessoa linda que ele é.

Já enfrentei vários problemas por causa de gays sem noção: eu andando na rua com alguém (chefe, familiares, amigos que não sabiam, etc) e chega uma loka não sei de onde fervendo, com seu palavreado típico e lindamente educado, sem se tocar ou querer saber quem é que estava ao meu lado. Numa das vezes, era um ex-governador que eu estava acompanhando num 1° de dezembro, numa ação pública de conscientização sobre a AIDS/HIV em Curitiba-PR.

Um cara difícil de lidar, bastante resistente a qualquer assunto sobre homossexualidade e que, depois de mais de 3 horas de conversa, diálogo, onde consegui mostrar o lado “bom e normal” que a homossexualidade tem assim como a heterossexualidade. Do nada, me chega uma beeee fazendo um mega bafão histérico e fechativo, e joga tudo por terra.

Ou melhor, enterra e bate a pá em cima e sai rindo equilibrando-se na sua plataforma.

Repito o que já escrevi aqui neste blog e no Twitter, e prestem bastante atenção:

Enquanto a comunidade LGBTSxyz – incluindo as associações – não aceitar e assumir a diversidade dentro dela mesma, não tem o menor direito – e nem sentido – de exigir respeito de quem for.

Sim, me senti bastante ofendido pelas colocações deste cara. Meu compenheiro, um gay-macho lindo e tesudo,  também. Vários amigos – gays-machos – que mostrei o texto também.

Respeito é bom, todos nós gostamos, merecemos e estamos correndo atrás disso.

JUNTOS!

Se for continuar como está, não reclamem das pedradas recebidas.

Primeiro vamos arrumar a nossa casa pra depois arrumar a sociedade?

Pode ser?

Ex-Gay?

É meus amigos, papo mais que sério agora.

É possível uma pessoa tornar-se um “ex-gay”? Querem a minha humilde opinião? Não sei responder a isso.

Leiam o texto a seguir e assistam ao vídeo. Comento no próximo post ok?

Depoimento do Fundador da EXODUS Michael Bussee

Meu nome é Michael Bussee. Eu quero agradecer a você por esta oportunidade de contar minha história. Trinta anos atrás, eu ajudei a criar a EXODUS International. Hoje, eu estou aqui para me desculpar; Hoje eu sou um terapeuta conjugal e familiar, um pai, um cristão evangélico, nascido de novo — e orgulhoso de ser gay. Mas trinta anos atrás, eu não era tão orgulhoso.

De fato, eu cresci odiando meus sentimentos gays. Eu passei por xingamentos, bullying e surras. Por que motivo as outras crianças pareciam odiar-me tanto? Eu não escolhi ter esses sentimentos e queria me livrar deles. Eu queria mais do que tudo ser “normal,” adequar-me — apaixonar-me, assentar-me, ter filhos. Eu queria desesperadamente ser heterossexual. Mas como?

Com aproximadamente 12 anos, eu comecei uma busca pessoal por uma “cura” para homossexualidade. Eu tomei a decisão de embarcar no meu próprio êxodo privado — para encontrar a saída para a homossexualidade. Minha busca levou-me a Deus. Como estudante do ensino médio, eu aceitei Jesus como meu Senhor e Salvador pessoal. Essa decisão mudou a minha vida pra sempre e eu continuo sendo um evangélico comprometido até hoje.

Então, em 1974, eu encontrei o Centro Cristão Melodyland (Melodyland Christian Center) em Anaheim e comecei a trabalhar como um de seus conselheiros voluntários via telefone. De começo, eu não disse a nada sobre meus sentimentos gays a ninguém. Afinal, eu tinha que me “purificar.” Eu disse ao diretor do aconselhamento telefônico que eu era um “cristão homossexual.” Ele me disse que “não havia tal coisa.” Ele disse que se eu era um cristão de fato, então “já não era mais gay aos olhos de Deus,”

Eu precisava acreditar que era heterossexual agora – e “determinar isso.” Deus faria o milagre com o tempo. “Continue orando” – diziam eles. Se eu tivesse fé suficiente, eu finalmente “ficaria livre.” Eu queria isso mais do que tudo e sinceramente acreditei que isso se tornaria verdade.

Naquele tempo, não havia ministério para gays em nossa mega igreja, então meu amigo Jim Kaspar e eu decidimos inventar um. Em 1975, nós criamos a EXIT – em inglês a palavra significa saída, mas aqui era uma sigla para “EX-gay Intervention Team,” ou seja, Equipe de Intervenção Ex-Gay (uma espécie de Caça-Fantasmas – só que gay!) Começamos oferecendo sessões de aconselhamento individual, grupos de apoio semanal, estudos bíblicos, e reuniões de oração. Apesar de não termos nenhum treinamento formal, e só termos nos intitulado “ex-gays” havia poucos meses, tornamo-nos, de repente, “especialistas.”

Pastores e terapeutas começaram a enviar clientes para nós. Escrevíamos materiais sobre “Como Ajudar o Homossexual” e dávamos “testemunhos de nossa mudança” em conferências da igreja e em talk shows no rádio e na TV – incluindo o Club 700 do Pat Robertson. Robertson insistia em perguntar se nós achávamos que havíamos tido “demônios gays” algum dia. Ele pareceu desapontado quando respondemos que “não.”

Em 1976, descobrimos que outros como nós estavam formando pequenos ministérios de “mudança” ou “libertação” em suas áreas. Em setembro de 1976, no Melodyland Christian Center em Anaheim, o EXIT recebeu a primeira confêrencia de “ex-gays” de todos os tempos. Um punhado de líderes de ministérios junto com aproximadamente 60 delegados votaram para formar uma coalisão de ministérios. Chamamos essa coalisão deEXODUS. Pensamos que, chamados como Moisés e dirigidos por Deus, nós poderíamos conduzir muitos gays e lésbicas para a “terra prometida” da heterossexualidade.

Preciso dizer que alguns tiveram uma experiência positiva de mudança de vida frequentando nossos estudos bíblicos e grupos de apoio. Eles experimentaram o amor de Deus e o acolhimento de outros que conheciam suas lutas. Houve algumas “mudanças” reais – mas nenhuma das centenas de pessoas que nós aconselhamos se tornou heterossexual.

Ao contrário, muitos dos nossos clientes começaram a se desestruturar – afundando em culpa, ansiedade e ódio contra si mesmo. Por que eles não estavam “mudando”? As respostas dos líderes da igreja tornavam a dor ainda maior: “Você pode não ser um cristão verdadeiro.” “Você não tem fé suficiente.” “Você não está orando e lendo a Bíblia o suficiente.” “Talvez você tenha um demônio.” A mensagem sempre parecia ser: “Você não é sincero o suficiente. Você não está se esforçando o suficiente. Você não tem fé suficiente.”

Alguns simplesmente caíram fora e nunca mais se ouviu falar deles. Eu acho que esses tiveram sorte. Outros se tornaram auto-destrutivos. Um jovem se embriagou e dirigiu contra uma árvore). Um dos líderes que trabalhavam comigo me disse que havia deixado a EXODUS e estava frequentado bares heterossexuais, procurando alguém que batesse nele. Ele disse que as surras o faziam sentir-se menos culpado, fazendo expiação pelo seu pecado. Um dos meus clientes mais dedicados, Mark, pegou uma lâmina e cortou suas genitais repetidamente, e depois colocou produto limpa-ralos sobre as feridas, porque depois de meses de celibato, ele havia tido uma “queda.”


No meio de tudo isso, minha própria fé no movimento EXODUS estava desmoronando. Ninguém estava realmente se tornando “ex-gay.” A quem estávamos enganando? Como um líder atual da EXODUS admitiu, éramos apenas “cristãos com tendências homossexuais que preferiam não ter aquelas tendências.” Ao nos denominarmos como “ex-gays,” nós estávamos mentindo pra nós mesmos e para os outros. Estávamos machucando pessoas.

Em 1979, um outro pioneiro da EXODUS (Gary Cooper) e eu decidimos deixar a EXODUS — e nossas esposas. Por anos, nós dois havíamos firmemente acreditado que o processo EXODUS nos tornaria heterossexuais. Ao invés disso, percebemos que havíamos nos apaixonado um pelo outro! Saímos do armário publicamente contra a EXODUS em 1991. Nossa história apareceu no documentário “One Nation Under God” (Uma Nação Sob Deus). Gary morreu de pouco antes do filme ser concluído.

Desde então, eu continuei a ser um dos mais persistentes críticos da EXODUS – não porque eu queira “negar esperança.” Pelo contrário, eu quero afirmar que Deus ama cada pessoa, e que o amor e o perdão de Deus realmente mudam vidas. Certamente mudaram a minha. Apenas nunca me fizeram heterossexual. Eu encontrei harmonia entre minha sexualidade e minha espiritualidade — e eu tenho esperança de que outros farão o mesmo. A jornada de cada um é diferente. Meu próprio êxodo tem sido uma jornada incrível.

 Já fui demitido de dois empregos apenas por ser gay. E cinco anos atrás, eu sobrevivi a um violento e absurdo crime de ódio que quase levou minha vida. Eu fui espancado e esfaqueado nas costas por membros de uma gangue que gritavam “viado”, enquanto me atacavam. Meu melhor amigo, Jeffery Owens, não teve tanta sorte. Ele foi esfaqueado cinco vezes nas costas e sangrou até a morte na mesa de cirurgia.

Apesar de tudo isso, eu me considero um sobrevivente. Eu sou um homem gay cristão evangélico feliz; relativamente bem ajustado; tenho um relacionamento amoroso comprometido com um cara maravilhoso, meu parceiro Richard; e sirvo como ancião na minha igreja presbiteriana local. Eu amo a Deus e amo a vida.

E tenho esperança. Acredito que estamos abrindo caminho; grupos como a EXODUSvão encerrar suas atividades quando as pessoas não mais pensarem que precisam renegar quem realmente são para tentarem ser o que não são.

Até lá, àquelas pessoas maravilhosas (gays, ex-gays e ex-ex-gays) que têm abençoado minha vida e enriquecido minha jornada, sou sinceramente grato. E àqueles que eu possa ter ferido através do meu envolvimento com a EXODUS, peço sinceras desculpas.

Fonte: http://www.beyondexgay.com/article/busseeapology

Tradução: Sergio Viula para o blog Fora do Armário

Você pode ver um outro depoimento, do Sergio Viula, fundador do grupo MOSES (brasileiro), que também é um ex-ex-gay clicando aqui.

Por Gustavo Poli em http://globoesporte.globo.com sex, 15/04/11

Num estádio esportivo, as regras sociais são suspensas. Mulheres xingam. Homens choram. Crianças falam palavrão. Nossa enterrada barbárie emerge – como se a multidão nos permitisse ingressar numa realidade paralela – onde ofensas são relativas – e podemos libertar nosso neanderthal esquecido, nossos instintos mais primitivos.

O código do arquibaldo moderno inclui o direito de xingar – e xingar coletivamente.  Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que o torcedor nos estádios era um fidalgo. Era irônico e doce – elegante até. Contam os antigos que quando o Brasil derrotou a Espanha na semifinal da Copa de 1950,  o Maracanã entoou “Touradas de Madri”… Podemos argumentar que a ironia é mais divertida – e que os mais divertidos gritos provocativos recentes (“Pior ataque do mundo”,  “ninguém cala esse chororô”) dispensaram o palavrão. Mas… se  a final da próxima Copa fosse hoje e  contra a Espanha o que ouviríamos no Mário Filho bilionário e repaginado? Ou melhor, o que gritaríamos?

– Arrá, urru… Ô Iniesta eu vou…

– Ei Espanha, vai…

– ÊÊÊÊÊ, eu quero ver a Espanha se…

Em algum momento, talvez ali entre os anos 50 e 60, a arquibancada vingou como palco livre para a multidão. Torcedores se organizaram – produzindo shows, bandeiras, brigas e facções semi-criminais.  Consolidou-se a via de escape que remove da pele de cordeiro – e libera a testosterona moral. Um cenário onde o que soa masculino (ser viril, ter iniciativa, agredir o adversário) é positivo; e o que soa feminino (esperar, se defender,  jogar na retranca, ser estratégico) é criticável. Jogador tem que ser macho, não pode ficar de frescura; tem que ir pra dividida, não pode tirar o pé; tem que ter coragem, não pode ter medo… e por aí vai.

Xingar o adversário – e seus representantes, sejam jogadores ou torcedores – se tornou parte da cultura doestádio – e o palavrão perdeu parte de seu peso em grosseria. Torcidas compuseram alexandrinos perfeitos só com palavras de baixa extração. A ofensa esportiva se tornou divertida – parte da cultura esportiva. Quando esses gritos ecoam na arquibancada, nenhum de nós se indigna ou  questiona. Alguns sorriem, a maioria embarca no mantra coletivo.  O torcedor grita o nome de seus ídolos na mesma proporção em que xinga o adversário.

Seleção natural

Toda competição esportiva simula um pouco a seleção natural que nos trouxe até aqui como espécie. Quando jogamos futebol, ou vôlei ou basquete – ou corremos, pedalamos, escalamos – enfrentamos adversários e limites.  Quando torcemos por um time, transferimos para os jogadores nosso objetivo de ganhar do adversário. A paixão por times e escudos exacerbou esse objetivo. Como cada partida é mero capítulo de uma história sem fim – ganhar se tornou apenas UM dos objetivos. Se alem de ganhar for possível humilhar, deixar marcado e destroçar moralmente o adversário – tanto melhor. O torcedor apaixonado é  um ultimate fighter engarrafado, um romano torcendo pelo leão no Coliseu.

E o outro lado dessa equação? O nosso representante – aquele que exaltamos mas que os outros xingam? O tal de… jogador. Bom, o jogador… é um ser humano. Ele acorda, dorme, come, descome, escova os dentes – tem parentes, bichos de estimação, ouvidos e olhos.

Na semana passada, o meio-de-rede Michael – jogador do Vôlei Futuro – chegou ao limite.

Depois de mais de dez anos de carreira, mais de dez anos de xingamentos e provocações, ele não resistiu a um coro que o chamava de viado.  E reclamou tomando a decisão de, em entrevista à repórter Helena Rebello, assumir sua homossexualidade – decisão difícil e corajosa em qualquer lugar – especialmente nesta tenra terra verde-amarela.

No Brasil, o preconceito sexual é mais profundo e externável do que qualquer outro. Eu vou a estádio desde pequeno – e desde pequeno me acostumei a questionar a masculinidade dos jogadores adversários, do árbitro, do bandeirinha e da torcida oponente. Desordem e regresso à parte, tenho zero preconceito e  vários amigos homossexuais.  Mas, no estádio, desabonar a conduta sexual alheia sempre pareceu mais lúdico que ofensivo.

Preconceito – seja social, sexual ou étnico – existe por toda parte. Na Europa, o racial tem aparecido mais. No Brasil, não vemos bananas em estádios – mas xingamentos sexuais são regra. Não há um evento esportivo no Brasil que não traga provocações do tipo. No sambódromo já vi uma arquibancada gritando para a outra:

– O outro lado… só tem viado… olê olê olê…

É assim há tanto tempo que Michael deveria estar acostumado. E dar de ombros. Ignorar. Mas não – algo fez seu chip pular. O que foi? Talvez tenham sido as crianças gritando – talvez o clima no estádio. Mas, lendo suas palavras, a impressão que dá é que Michael cansou. Cansou de ser surdo, cansou de fingir.

Eu sou gay, mas isso não deve ser comentado.

Verdade – não devia importar, mas importa. Esse é o xis da questão. O que incomodou Michael foi ver homens, mulheres e crianças tratando sua condição natural como uma ofensa. Isso não é pouca coisa.  Imagine por um instante: dez mil pessoas explorando como desprezível algo que faz parte de você, não é um defeito – mas que em toda sua vida foi tratado como tal?

Esqueça por um instante que a prática é corriqueira em estádios  – como se fosse um direito adquirido. Esqueça o debate sobre politicamente correto. Tente se colocar no lugar de Michael – que, como todo homossexual no Brasil, deve ter sido olhado com desdém desde cedo, deve ter sofrido com ironias – e deve ter tido dificuldade em viver naturalmente por causa da reação alheia.

Todo jogador brasileiro já foi chamado de homossexual – como todo juiz já foi xingado. Mas se pergunte – por que será que Richarlysson – um cara esclarecido – nunca falou claramente o que todos presumem? Por que uma torcida organizada do São Paulo rejeitava o jogador ?  Este é o Brasil – um pais onde há gente que acha que é legal espancar os outros por causa de predileção sexual… onde sub-mauricinhos se divertem sacaneando prostitutas nas esquinas…  Então, será que não há algo aprender quando alguém se diz ofendido?

Por conta das ofensas, o Cruzeiro foi punido em R$ 50 mil – algo insólito e raro no Brasil – e que levanta um debate sobre tolerância. Devemos disciplinar a multidão? Ou o xingamento ali é inodoro e cultural?  O Brasil é um país debochado – que se acostumou a rir de suas tragédias. Mas imagine por um instante que o grito não tivesse sido viado. Tivesse sido outro. Tivesse sido macaco ou judeu. Qual seria o tamanho do escândalo?

Imagine, por outra, que o xingamento fosse gordo. Mas… dirão… o sujeito não é gordo? É – mas você não chama um desconhecido na rua de gordo – a não ser que queira criar confusão, chama? Mais – você já viu algum grupo de espancamento de gordos? Ou faixas contra gordos? Ou gordos que tenham receio de assumir sua condição temendo a reação alheia?

A multidão nos fornece licença para a crueldade. Não temos rosto – podemos ser horríveis, vis, rir do defeito alheio, chamar o baixinho de anão, ridicularizar o homossexual, a mulher, o diferente.  Como a internet  demonstra – seja em blogs ou no twitter – o anonimato é capaz de produzir um misto de coragem e grosseria

Rica Perrone e a intolerância

Xingar é socialmente aceito nos estádios brasileiros. E o Cruzeiro foi punido porque seus torcedores xingaram um atleta. Na quarta-feira, o caso ganhou um contorno diferente. Rica Perrone, blogueiro do Globoesporte.com, escreveu um texto dizendo que a punição foi hipócrita. Um dia depois, #ricaperrone era o tópico mais comentado no twitter brasileiro – sendo crucificado e aplaudido ao mesmo tempo – metralhado por uns, incensado por outros.

O que fez Rica de tão grave? Bom… tratou um tema delicado com um carrinho de Junior Baiano. Caso você queira ler o texto – aqui está. Ele não foi destacado no site.

Rica vestiu a pele do torcedor – que vê a ofensa como ingênua. Na multidão, vale lembrar, não temos culpa – afinal não somos nós que xingamos – é o coletivo. Para o anônimo que xinga – o xingamento é personalizado – mas ironicamente impessoal. A visão de Rica foi essa: punir uma brincadeira antiga – que todos fazem – é hipócrita. Não achei o texto homofóbico – achei insensível  e, por vezes, infeliz.

Rica cometeu – a meu ver – dois equívocos em seu texto – e nenhum dos dois tem muito a ver com o argumento principal. O primeiro foi tratar um tema delicado de forma indelicada – ofendendo sem querer gente que, desde que nasceu, sofre com preconceito e falta de compreensão. Para ilustrar essa incompreensão, segue uma historinha ligada ao tema. Quando publicamos a reportagem em que Michael assumia seus caminhos, a manchete do Globoesporte.com foi sua frase: “Sou gay”. Achei extremamente corajosa a frase – e destacá-la me pareceu preciso e correto – até que um amigo homossexual me disse por telefone que estava se sentido ofendido.

Fiquei boquiaberto –  sem entender. Achei que, ao destacar a corajosa frase de Michael, estávamos prestando o melhor serviço contra o preconceito. Até que ele me explicou de modo simples:

– Leia a frase dele. O que ele disse foi “Sou gay, mas isso não deveria ser comentado”.

Não deveria ser comentado… destacado… bingo. Mudamos o titulo para “Contra o preconceito” e fiquei com a certeza de a avaliação primeira tinha sido superficial. Eu simplesmente não tinha entendido direito o cenário. Nunca sofri com preconceito, nunca tive olhares irônicos e risinhos debochados na minha direção – então minha capacidade de entender era obviamente limitada.

Algo parecido – de outra forma – aconteceu com Rica Perrone. Ele não foi capaz de entender quão delicado é o tema – para gente que vive sob o escrutínio alheio numa sociedade pretensamente tolerante.  Rica tem direito de não querer que seu filho seja homossexual – com pode querer que seu filho não seja corinthiano ou palmeirense. Talvez haja preconceito nisso, talvez não. Ser homossexual no Brasil atual não é fácil – e não há pai que queira ver o filho sofrer.

O segundo erro foi enxergar um fantasma. Ao dizer que os gays querem agora tratamento vip, Rica viajou numa lisérgica maionese, e recebeu o pior dos cumprimentos – a vibração da arquibancada bolsonara.  Os aplausos do lado direito, ironicamente, sublinharam os ataques pessoais e profissionais do esquerdo – daqueles que o consideraram o texto preconceituoso. Em ambos os casos, tivemos palavras de baixo nível, ofensas, grosserias – uma meta-arquibancada falando da arquibancada.  Tanta intolerância me lembrou uma frase do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge:

“Eu já vi grande intolerância ser mostrada em nome da tolerância”

A intolerância, como a multidão, não tem partido. O indivíduo – ou a minoria – tem – e tem porque precisa se defender.  Rica, os gays não querem tratamento vip. Eles só querem respeito – a seus mais básicos direitos. Em suma, discordo do texto de Rica em quase todas as direções – mas acho que ele tem direito de escrevê-lo – e de ter sua opinião (que está muito longe da do Bolsonaro, por exemplo).

Por mais que caçar bruxas seja inócuo, não devemos achar que um preconceito é justificável só porque nos acostumamos com ele – ou nos acostumamos a ecoá-lo.

A reação de Michael tem mais a ver com o preconceito histórico – do que com o esportivo. O último é apenas reflexo do primeiro. Mas seu incômodo planta uma semente – será que somos tão diferentes do torcedor que exibe a banana para o negro brasileiro?

Será que, em algum momento, o coro de viado deixa de carregar preconceito? Por mais que não queiramos ofender – por mais que estejamos apenas implicando – ou brincando – por mais que torcer seja politicamente incorreto por definição – e por mais que, ao deixar o estádio, desliguemos esse botão e retomemos a civilidade… será?

Michael gostaria de viver num país em que gay não fosse xingamento – em que ser homossexual não fosse motivo de desprezo ou ironia. Um país em que a preferência sexual não ecoasse socialmente. Esse país, hoje, não é o Brasil. Os gritos da arquibancada refletem, sim, nosso arraigado preconceito. O brasileiro médio não lida bem com homossexualidade – prefere ironizá-la à distância e ignorá-la de perto.

A arquibancada é fascinante, é atraente, é libertadora – e abrir mão do palavrão e de tudo-o-que-podemos-fazer-ali-mas-não-em-outro-lugar é simplesmente difícil. A liberdade da multidão é extasiante – a alegria coletiva, a revolta, a vaia, o xingamento… são Brasil até a última gota. O coro – no fundo – é nosso. Somos nós assumindo nosso preconceito sem rosto – em voz alta.

Ao ouvi-lo pela enésima vez, foi que Michael, em voz baixa, pôs seu rosto diante do tapa.