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Toda esta polêmica sobre preconceito e homofobia me faz pensar que há um sério equívoco na estratégia: a de encarar a homofobia isolada de outras formas de crimes de ódio. Do ponto de vista político, educacional, jurídico e criminal, o que justifica a implementação de ações orientadas exclusivamente para a superação de um determinado preconceito? Por que não engloba-las de forma abrangente e eficaz em ações conjuntas para coibir todas as formas de preconceito e suas correspondentes modalidades atuais de crime de ódio e para estimular uma cultura autenticamente democratica e republicana, fundada na tolerancia e no respeito a pluralidade?

No Estado Democrático de Direito, os discursos e práticas configurados como crime de ódio não são tolerados sob quaisquer pretextos em razão do fato de atacarem os fundamentos e princípios constitucionais deste Estado e sociedade. Nada está ou poderá se colocar acima desta Lei Maior! Ela constitui a referência ético-normativa (e o limite) de nossas liberdades civis, por ela outorgadas e garantidas, e de nossas vidas compartilhadas na sociedade. Ela é a referência das diferentes formas privadas de vida que devem coabitar solidariamente. Esta foi a conquista da superação das tradições medievais e das formas absolutistas de organização social e política, dentre outros. Ao longo dos séculos, a humanidade vem amadurecendo o significado republicano e democrático da tolerância. O reconhecimento dos direitos humanos  no pós-guerra marca esta evolução. Esta é a razão pela qual, por exemplo, não se pode admitir a apologia ao nazi-fascismo e outras formas de discursos, panfletos e organizações que disseminem quaisquer práticas de violência que atentem contra a dignidade humana (narcotráfico, pedofilia, etc). Isso jamais pode ser concebido como censura. Entretanto, estranha e paradoxalmente,  admite-se veiculações culturais, jogos, filmes que incitam violência. Mas isso impõe outra discussão que aqui não vem ao caso.

Tomemos a Inglaterra (apesar de suas contradições reconhecidas) como exemplo: no seu ordenamento são elencadas as diversas manifestações do crime de ódio, independente das motivações preconceituosas que as sustentam:

(1) agressões físicas, danos à propriedade, pichações e outras diferentes formas de constrangimento fisico;

(2)  ameaças de intimidação, insultos verbais, gestos abusivos, perseguições e difamações, ataque à honra, como por exemplo, as formas de humilhação do bullyng na escola ou no trabalho,  e outras diferentes formas de constrangimento moral;

(3) panfletos e posteres ofensivos, etc.

(4) organizações ou mobilizações clandestinas para disseminação do ódio.

Em outubro de 2010, o protesto raivoso contra uma Parada Gay em Manchester promovido por um grupo cristão homofóbico chamado Christian Voice foi considerado como crime de ódio e pode ser banido de todos os futuros protestos. A história registra diferentes manifestações dos crimes de ódio. De acordo com o Wikipédia, os crimes de ódio remontam à perseguição dos cristãos pelos romanos, à “solução final” de Adolf Hitler contra os judeus, à limpeza étnica na Bósnia e ao genocídio em Ruanda. Nos Estados Unidos, os exemplos incluem violência e intimidação contra os americanos nativos, o linchamento de negros e o incêndio de cruzes pela Ku Klux Klan, agressões a homossexuais, e a pintura de suásticas em frente a sinagogas. Em 2008, o governo do Equador qualificou oficialmente o assassinato de um equatoriano em Nova Iorque de “crime de ódio” contra latinos.

No Brasil, eu entendo como necessário ampliar corajosamente as leis sobre crimes de ódio, de um lado,  para além daqueles motivados pelo preconceito de cor e de raça (racismo e injúria racial), de procedencia nacional ou étnico, de religião, contra idosos e deficientes, incorporando a homofobia; por outro lado, para além de determinadas práticas, desde os assassinatos promovidos por grupos de extermínio ou esquadrões da morte e genocídios classificados como crimes hediondos, incorporando, de forma ampliada, as demais modalidades de crime de ódio incluindo as práticas de bullying em quaisquer contextos, sejam escolares ou não.
Neste sentido, a educação para a tolerancia e solidariedade democráticas dos cidadãos deve ocorrer desde a infância passando por todos os níveis da educação básica e ensino médio. A homofobia estaria incluída como algo a ser execrado em nome da convivencia republicana para a qual as crianças, adolescentes e jovens são formados. A função da educação, acima de tudo, é a de promover a inserção de forma competente e crítica mulheres e homens na esfera pública democrática e em todo seu arcabouço valorativo, sem que se despreze seus valores privados os quais devem estar em consonância com os princípios de Direito.

Em conclusão, como se pode observar, defendo leis e praticas mais amplas orientadas para a cidadania. Não vejo sentido em praticas atomizadas e fragmentadas. O problema da homofobia se enraíza em um solo mais profundo, do qual faz germinar tantas formas de preconceito que sustentam crimes de ódio. Para isso é preciso que as militancias GLBT tenham coragem de buscar racionalmente mover a opinião mais ampla e para isso devera olhar a sociedade para além de sua visão ensimesmada de gueto. A problematica do ódio, do preconceito e da discriminação é um mal que precisa ser melhor diagnosticado e atacado de forma mais ampla e eficaz.

Autor: Asas de Icaro

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Só me faltava essa agora!

Em resposta ao que você havia publicado recentemente em seu site, escrevi um texto enorme. Sim,  reconheço que nele havia impropérios tremendos, mas fui me dando conta de que tudo aquilo que escrevi não merecia ser publicado, não por você ser quem é, mas pelo fato de que todas aquelas palavras poderiam “sujar” meu blog.

Pois bem, durante estes dias, desde que você publicou o texto, venho refletindo e conversando muito com Deus até que ontem à noite, no banho – nas águas purificadoras – ocorreu-me uma coisa: para que darei munição ao inimigo?

Deleta tudo!

Não vou mais dissecar item por item de seu texto no qual se gaba por ser autor do neologismo (WAWW!!!) Homodiafonia. Acho que vou lançar alguns também: cristãocafonia, talvez cristãobabaquice ou ainda, o melhor,  CristãoDuCapeta.

Bom, brincadeiras à parte, o papo é o seguinte: de nada adianta você, outros pastores e tantos outros autodenominados “cristãos” ficarem berrando em seus templos ou publicando textos lixos como esse na web. Incluem aqui também os livros e panfletinhos estúpidos feitos por vocês que só servem para doentese isso, nós gays, definitivamente não somos.

Esta igreja sabe de todo o calvário a que fui submetido por longos três anos, tentando “me curar”, tentando tratar como doença o que para mim hoje é virtude do coração, do corpo e da alma, uma forma de amar e desejar que me realiza como homem e como ser humano. Uma dimensão erótico-afetiva da sexualidade – a forma como naturalmente minha sexualidade se realiza erótica e afetivamente – dentre tantas formas que todo e qualquer ser humano vivencia seja hetero, homo, bi, pansexual ou tomatesexual.

Em vão tive que enfrentar um “deserto” no qual fui lançado e lá, no final das contas, numa experiência que tenho certeza que poucos cristãos já tiveram, Deus veio ao meu encontro, tomou a minha mão para me libertar exatamente do lugar onde vocês tinham me mandado para me curar: um encontro da Exodus. Não vou entrar em detalhes pois até imagino como você vai interpretar demoniacamente esta manifestação tão marcante de Deus em minha vida: por seu olhar obscurecido e coração empedernido certamente vai afirmar que não foi Deus, foi o capeta; você entendeu errado, Ele estava te provando e você entendeu errado; e por aí vai. Não vale a pena ouvir tudo isso de novo.

O que quero dizer, pastor, é que hoje vivo plenamente em paz com Deus. Uma paz profunda, revigoradora, revitalizante. Mantenho hoje uma relação com Deus, imensa e profunda, que não consegui atingir enquanto estava sendo policiado dentro da igreja.

Hoje posso dizer conscientemente que sim: eu tenho uma relação sólida, íntima, fiel e leal com Deus.

Outra coisa pastor, é que eu não fui convertido pela palavra distorcida dos pastores. Quem me acompanhou de perto reconhece que fui quebrantado, convertido pelo louvor. Louvor este que carrego até hoje e certamente carregarei por toda a eternidade em meu coração. É a chama que arde em meu peito, é a forma que me aproximo d’Ele, que converso com Ele diariamente.

Por isso pastor, o que eu quero dizer é que se você pensa que atinge a qualquer um de nós – gays – , que já passaram ou não por algum tipo de terapia diabólica de falsa cura, lamento informar: você está perdendo seu tempo, aliás, tempo que deveria ser melhor dedicado para ser instrumento, neste mundo, da Misericórdia e do Amor d’Aquele que nos amou até o fim, do Amor que se derrama infinitamente em nosso coração. É uma perda de tempo especialmente para nós que já trilhamos o caminho da palavra falada e hoje conseguimos nos regozijar na Palavra VIVA, PURA – aquela que vem diretamente d’Ele nos momentos de oração e louvor pessoal. E é perda de tempo pois esse tipo de atitude apenas afasta mais ainda de Jesus aqueles que se sentem rejeitados por Ele por causa de discursos preconceituosos de  pessoas como você.

A única coisa que tantos como você conseguem com isso, pastor, é atingir aqueles que não tem culpa alguma. Mas vocês, em sua ira insana na sodomização do mundo fora da igreja, não percebem que ferem profundamente aqueles a quem vocês dizem proteger: o rebanho da igreja.

Meus pais são uma prova disso. Carregam uma culpa imensa imposta e reafirmada constantemente por vocês, como se eles fossem os culpados por eu ser homossexual. Apesar de convivermos pacificamente e eles se sentirem confortáveis na minha casa que divido com meu companheiro há cerca de oito anos (sim, é um lar cheio de amor, respeito e carinho), percebo de vez em quando certa instabilidade nessa relação. E, sempre que isso vem à tona, aparece alguma coisa que você – ou alguém da igreja – falou em algum culto, reunião ou conversa formal ou informal. Vocês semeiam a cizânia! Quando penso que eles estão bem, lá vem você e seu rebanho nefasto com o rodo traiçoeiro “em nome de Deus”.

Ou seja: a igreja não quer um rebanho sadio, feliz e comungando de uma relação pura e plena com Deus. Tampouco com o verdadeiro Deus. Ela quer sim, é um bando de pessoas cada vez mais doentes, neuróticas, necessitadas e algemadas nas migalhas da redenção por causa de seus pecados ou pagando por coisas que não lhes dizem respeito – como é o caso aqui. Vocês vivenciam uma relação doente e suja com o próprio corpo e com a própria sexualidade e projetam esta doença e sujeira naqueles que buscam vivenciar o amor em todas suas formas no Amor de Deus.

É isso que você prega pastor? É nisso que você crê pastor? Precisa manter os membros de sua igreja numa eterna culpa, carregando uma cruz que não lhes diz respeito? Um rebanho de eternos doentes nas garras de um “deus” traiçoeiro? De um “deus” forjado à imagem e semelhança de suas próprias amarguras e preconceitos?

É este “deus” que você representa pastor?

Um “deus” opressor, intolerante, violento, preconceituoso, incapaz de amar? Um “deus” que só faz humilhar seus filhos? Um “deus” que entregou seu filho em vão, pois o diabo e suas artimanhas tem mais poder que o sangue vertido na cruz?

Um “deus” que só serve para alguns poucos nascidos dentro da igreja, e que lançará sua espada sobre os iniciados? (E não venha dizer que não há essa divisão pois a vivenciei diariamente por longos 3 anos).

Não pastor, não é nesse “seu deus” que eu creio.

O Deus que creio e conheci é o Deus de Amor. Que nos amou tanto que nos deu seu Filho.

Então pastor, faço um desafio a você – e a todos os outros pastores, padres e cristãos – que creio não ser tão difícil já que se arrogam como “legítimos mensageiros de Deus” aqui na terra:

Durante um ano, o desafio você a falar apenas sobre o Amor de Deus.

Mas terá de ser sobre o Amor Ágape: aquele amor puro, limpo, que não vê defeitos ou diferenças.

Aquele que não superestima a culpa, o pecado.

Aquele que não supervaloriza o poder do diabo menosprezando a dor, o sofrimento, o sangue derramado e a verdade que representa a cruz.

Aquele que estendeu a mão à prostituta não para convertê-la, mas sim por simplesmente amá-la e respeitá-la como era.

Assim pastor, a partir de hoje, em todas as reuniões, cultos e conversas que você participar, não poderá falar de outra forma. Nem mesmo com seus filhos ou com sua esposa.

Isso vale para pensamentos também. Incluindo as orações: quando perceber algum pensamento que vá contra este desafio, lance-os nas mãos de Deus e desvie o pensamento para outra coisa: cante, louve ao Senhor. “Não temas, crê somente” – diz a Palavra.

Se és mesmo um homem de Deus, isso não será difícil afinal, “O meu Deus, é o Deus do impossível” não é mesmo?

Se fraquejar diante do desafio cante com o Kleber Lucas:

“Ó Deus tu és o meu Deus forte
O Grande El-Shaddai
Todo poderoso, Adonai
Teu nome é Maravilhoso
Conselheiro, Príncipe da Paz
Yeshua Hamashia, Deus Emanuel

O Pastor de Israel, o Guarda de Sião
A Brilhante Estrela da Manhã
Jesus teu nome é precioso
Meu Senhor e Cristo
O nome sobre todos pelo qual existo

Jireh, o Deus da minha provisão
Shalom, o Senhor é a minha paz
Shamah, Deus presente sempre está
El-Elion, outro igual não há

Jeovah Rafa meu Senhor
Que cura toda dor
Tsidkenu Yaveh minha justiça é
Elohim, Elohim Deus
No controle está meu Deus
Tudo governa (2x)

O Pastor de Israel, o Guarda de Sião
A Brilhante Estrela da Manhã
Jesus teu nome é precioso
Meu Senhor e Cristo
O nome sobre todos pelo qual existo

Jireh, o Deus da minha provisão
Shalom, o Senhor é a minha paz
Shamar, Deus presente sempre está
El-elion, outro igual não há

Jeovah Rafa meu Senhor
Que cura toda dor
Tsekenu Yaveh minha justiça é
Elohim, Elohim Deus
No controle está meu Deus
Tudo governa (3x)”

Sim pastor, foi essa a música que me libertou das amarras, mordaças e vendas da igreja no ultimo encontro da Exodus que participei. Foi nesse louvor que senti o poder de Deus agindo sobre mim e tirando as travas de meus olhos, de minha mente e meu coração para a verdade pura d’Ele, me libertando de todo aquele inferno que eu estava vivendo, prestes a cometer suicídio por não suportar mais tamanha angústia, desespero e rejeição.

Então é isso pastor. Está lançado o desafio a você e a todos os outros que falam “in nomine Domini“.

Cumpra-o se o seu “deus” for realmente o Deus Vivo proclamado na Boa Nova que Jesus nos anuncia!

Por Márcio Retamero*
fonte: Revista A Capa
28/04/2011 às 14h03

Não é possível escolher, da obra de Machado de Assis, o melhor romance. Certamente um dos mais lidos é “Quincas Borba”. A trama central da bela obra é a adesão de Pedro Rubião ao “Humanitismo”, cujo filósofo Quincas Borba é o pai deste sistema de pensamento. Além de herdeiro de Quincas, Rubião torna-se o guardião-mor desta filosofia.

O “Humanitismo” de Quincas, na verdade, é uma crítica mordaz do Bruxo do Cosme Velho ao positivismo, cientificismo e ao evolucionismo. É célebre o trecho que dá título a este texto. Neste trecho é desvendada ao leitor a síntese do pensamento “humanitista”: duas tribos famintas e um campo de batatas; a única chance de sobrevivência de uma das tribos, pois tal campo não dá conta de alimentar ambas. Se dividissem o campo de batatas, ambas as tribos morreriam de inanição, por isso, “A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”

O ser humano como objeto do ser humano ou a “coisificação” do ser humano é, no fundo, o que Machado de Assis quer criticar e ferir de morte.

Lembrei-me do romance Quincas Borba quando soube pela internet, no último dia 7 de abril do corrente ano, da alteração no texto do PLC 122, promovida pela sua relatora atual, a senadora Marta Suplicy. O texto que altera o PLC 122 diz: “O disposto no capítulo deste artigo não se aplica à manifestação pacífica de pensamento fundada na liberdade de consciência e de crença de que trata o inciso 6° do artigo 5° (da Constituição)”.

Neste parágrafo temos a carta branca do Estado para que as igrejas fundamentalistas continuem de seus púlpitos a demonizar a homossexualidade. Para muitos, esta é a única saída para que a muralha da bancada evangélica fundamentalista no Congresso Nacional seja convencida de que o PLC 122 não é “mordaça”, como os tais apelidaram o PLC 122 desde seu início.

É pública minha admiração pela família Suplicy e pelos serviços prestados ao Brasil por esta família, principalmente no campo político. A senadora Marta é, sem sombra de dúvidas, uma grande aliada do Movimento LGBT. Contudo, creio que a alteração do texto do PLC 122 pelo parágrafo proposto pela atual relatora do PLC 122 é um retrocesso e uma cicatriz profunda no Projeto de Lei. É um lamentável equívoco!

A senadora Marta e os que apoiam a alteração do texto da PLC 122 por este parágrafo necessitam urgentemente de reflexão: quem deu a luz ainda nutre e faz crescer a homofobia (misoginia e outros preconceitos também!) no Brasil? Alguém duvida que é a ala fundamentalista do cristianismo, majoritária no nosso país? Salvaguardar o direito desta gente de continuar dando luz, nutrindo e fazendo crescer a homofobia no Brasil é erro crasso!

É claro que vozes do contra se levantarão e dirão que a Constituição garante a liberdade religiosa e a liberdade de expressão. Ok! Ok! Mas esta liberdade religiosa e de expressão é um vale tudo? Esta liberdade não é “limitada” pela responsabilidade civil e criminal?

Posso citar inúmeras fontes de sermões eclesiásticos do passado, quando ainda era permitida a escravidão, quando a mulher ainda não tinha lei que a amparasse e quando os judeus ainda eram considerados os assassinos de Cristo. Em todos esses sermões, os negros eram humilhados e vítimas do enorme preconceito racial por parte da Igreja, bem como as mulheres eram consideradas as maiores pecadoras (as “Filhas de Eva”) e os judeus eram postos abaixo do chão pelos que liam a Bíblia de maneira deturpada.

O preconceito racial, a misoginia e o antissemitismo ainda é bem presente nas culturas onde a religião cristã faz sentir sua influência. Leis que garantissem a proteção aos negros, mulheres e judeus foram elaboradas e aprovadas e hoje estão em voga para enquadrar as pessoas que são racistas, misóginas e antissemitas.

A ala fundamentalista do cristianismo ainda mantém bem escondida, o racismo, a misoginia e o antissemitismo, só não assumem tais posturas abertamente, pois a Lei protege essas pessoas. As provas disso são abundantes, ainda que veladas, basta ouvir os testemunhos de negros, mulheres e judeus e do quanto ainda são vítimas do fundamentalismo religioso. A coisa toda só não é pior por conta da força da Lei.

Não é preciso muito estudo para pesquisar sobre o mau uso da Bíblia na História da nossa civilização e de quanta dor gerou e dos rios de sangue que foram derramados ao chão. Acontece que dores ainda são geradas e sangue humano continua sendo derramado ao chão por conta da pregação religiosa homofóbica da ala fundamentalista do cristianismo. Porque não podem falar abertamente sobre negros, mulheres e judeus, os LGBT são a “Geni” dos religiosos fundamentalistas, a última que lhes restou, por isso se agarram tanto no assunto. Se forem proibidos de lançarem anátemas aos LGBT desde seus púlpitos, nada e ninguém mais sobrarão para que seja seu “Judas”.

A ala fundamentalista do cristianismo não tem o direito de semear a homofobia que destrói famílias, que ceifa vidas e que gera tanta dor e morte no nosso país. Se o Estado tem o dever de garantir a proteção de seus cidadãos e cidadãs, ao conceder o direito aos fundamentalistas religiosos de continuar a pregar as coisas que pregam contra a homossexualidade, está descumprindo seu papel e negando um direito básico, que é o direito de existir e de não ser alvo de preconceitos. Não, não vale tudo quando a matéria é liberdade religiosa e liberdade de expressão!

Ontem me chegou por e-mail um link enviado pelo Prof. Dr. Luiz Mott. O link abria um site, cujo nome é “Comando 190”. A matéria exposta era sobre o assassinato da travesti Bibi em Ji-Paraná: sete facadas ceifaram-lhe a vida. Nos comentários dos leitores do site, lemos coisas como: “O fim daqueles que não aceita glorificar a Deus – como a Bíblia nos diz o Salário do Pecado é a morte. Deus o amava, mas reprovava o que ele fazia. ele teve livre escolha e escolheu este fim. o futuro de cada um depende de uma escolha. que Deus conforte a Família.” Também está lá: “Creio eu que o fiz dos tempos esta próximo!!! Em Sodoma e Gomorra era assim, homem tendo relação sexual com homem mulher com mulher, pai estuprando filha e muito mais, hoje em dia tudo esta se repetindo , só que agora no mundo todo.” E ainda: “Infelizmente é assim, somos livres para escolhermos qual caminho queremos seguir. Deus deu ao Homem o “Livre Arbítrio”, isso para que; O Homem” não seja forçado a a fazer ou deixar de fazer algo. Existe dois caminhos: “A vida e a Morte”. A verdadeira vida, vc encontra somente em Deus através de Cristo Jesus, e a morte é o próprio mundo com suas astutas ciladas para levar o homem ao abismo. “Em resumo” Falta o Amor….E o amor verdadeiro, Somente Deus pode ensinar o Homem a amar.”

O que vemos aqui? A culpabilização da vítima! Bibi foi morta a sete facadas porque era pecadora, escolheu o caminho da morte, viveu como os de Sodoma e Gomorra, escolheu ser travesti, escolheu o pecado, e porque o “salário do pecado é a morte”, seu fim foi isto: a morte.

Temos aqui apenas uma amostra do que os “cristãos” fundamentalistas escrevem nos sites de notícias quando a vítima de assassinato é LGBT. Façam uma pesquisa superficial e vocês encontrarão coisas bem piores, escritas por eles. Onde eles aprendem isso? Dos púlpitos de suas igrejas.

Lamento profundamente a decisão da senadora Marta de alterar com este parágrafo infame o PLC 122 visando a aprovação da Frente Parlamentar Evangélica! Eles não a aprovarão mesmo assim, bem como nada no futuro que garantirá direitos aos LGBT. Por princípio, são contra! E outra: não vale tudo para aprovar de qualquer jeito um Projeto de Lei como o 122. De concessão a concessão, tal PLC já está quase sem sentido!

Não se enganem! Temos aqui um campo de batatas que nos garante o direito à vida e duas tribos lutam por ele. Apenas uma das tribos vencerá. Qual será? Ao vencedor, as batatas.

* Márcio Retamero, 37 anos, é teólogo e historiador, mestre em História Moderna pela UFF/Niterói. É pastor da Comunidade Betel/ICM RJ e da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo. É autor de “O Banquete dos Excluídos” e “Pode a Bíblia Incluir?”, ambos publicados pela Editora Metanoia. E-mail: marcio.retamero@gmail.com.

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Nota deste blogueiro:

Muita gente acha ruim quando eu sento o porrete do PT. Já ouvi de tudo um pouco mas os comentários mais risíveis vem da comunidade LGBTxyz como por exemplo essa pérola:

Você é minoria e deveria apoiar o PT e a esquerda que são quem nos defendem.

Não, não apoio e tampouco defendo. Na verdade não apoio nenhum partido. Defendo sim pessoas. Para mim, o PT é o esculacho politiqueiro de nosso país.

Rapidamente lanço um alerta para a comunidade LGBTxyz: na campanha para reeleição do Lula eu frequentava comunidades de debates políticos no Orkut. Nunca houve um único esquerdista ou PTista que conseguisse me vencer em debates. Sempre perdiam os argumentos e partiam para a baixaria.

Um dia sou surpreendido ao entrar no Orkut e ver a minha vida íntima, privada, exposta em todas as comunidades que eu frequentava. TODAS! Nas de política, nas profissionais, nas sociais. Além disso, como se não bastasse, entraram em contato com “amigos” e familiares que constavam em meu perfil e expuseram a minha vida de forma covarde e vil.

Quer dizer então que o gay só é aceito pelo PT quando a pessoa está ali, em meio ao rebanho berrando A-MÉ-É-É-É-É-É-MMMMM. Se ousar discordar de qualquer coisa, o FATO de você ser GAY vira munição para a sua desmoralização, descrédito.

E não venham me falar que é coisa de militantes aloprados, pois nesse grupo que me atacou existiam pessoas ligadas ao comando do partido, da campanha.

Portanto fiquem atentos MiliTONTOS: a próxima vítima podem ser vocês mesmos.

Marta pode dar a cara para bater na frente dos holofotes, mas na prática – quando prefeita de SP – nos bastidores e longe das câmeras deixou bem claro que curvou-se às oligarquias conservadoras ao não implementar absolutamente nada na cidade. Serra fez muito mais pela causa LGBTxyz que ela.

E, mais uma vez aí está a prova cabal de que o PT atende apenas aos interesses do ParTido. Se ela não alterasse esse dispositivo, certamente o PT perderia o apoio da bancada “cristã” no Congresso nacional.

Não se esqueçam também que a Senadora Gleisy colocou-se publicamente contra o PLC122.

É sim, um tiro no coração do movimento LGBTSxyz.

Nesse sentido, deixo aqui registrado o meu respeito ao deputado Jean Wyllys. Ponderado, ético, sensato e, acima de tudo, justo e correto com seus ideais e a causa que defende.

Assistam à entrevista dele disponivel no blog do Sergio Viula.

Agora sim posso dizer com orgulho que me sinto representado por alguém na questão LGBTSxyz: Jean Wyllys.

Por Túlio Vianna
Fonte: Revista Fórum

A cada ano, mais e mais países têm aprovado o casamento entre homossexuais. No Brasil, o casamento civil ainda é sistematicamente confundido com o sacramento católico do matrimônio. Mas se para muitas religiões a homossexualidade ainda é pecado, para o Estado laico é o exercício do direito à livre orientação sexual e não pode ser pretexto para qualquer discriminação.


O divórcio só foi legalizado no Brasil em 1977. A depender de alguns religiosos da época, o casamento até hoje seria “até que a morte os separe”, pois “o que Deus uniu o homem não separa”. Os moralistas de plantão alegavam que o divórcio seria a degeneração da família e que, por costume, o casamento seria a “união indissolúvel entre o homem e a mulher”. Os filhos de casais separados eram invocados como as grandes vítimas da então nova lei mas, paradoxalmente, eram estigmatizados justamente por quem era contrário ao divórcio.

Passados 33 anos, o mundo não acabou, o Brasil não foi devastado pela ira divina e a emenda constitucional nº66 de julho de 2010 tornou possível o divórcio direto, sem a necessidade de uma prévia separação judicial. Ao contrário do que pregaram alguns profetas, o divórcio foi incorporado à legislação e ao cotidiano dos brasileiros sem maiores traumas.

A celeuma em relação ao casamento agora é outra: podem os homossexuais se casar? Os argumentos do debate continuam os mesmos: “a Bíblia não permite! Está lá no Levítico: 18-22!”, bradam os contrários; mas “o Estado é laico! Está lá na Constituição: 19-1!”, retrucam os defensores.

Do ponto de vista estritamente jurídico, o casamento civil é um contrato entre duas pessoas que deve ser firmado com base no princípio da autonomia da vontade. Se as partes são maiores e capazes, e há um efetivo consenso entre elas, o Direito deveria simplesmente respeitar suas vontades, sem impor qualquer tipo de limitação. Assim, não haveria qualquer óbice ao casamento de pessoas do mesmo sexo.

O casamento civil brasileiro, porém, desde sua criação, vem sendo reiteradamente confundido com o sacramento católico do matrimônio que lhe deu origem. Com a proclamação da República e o advento do Estado laico, uma das consequências imediatas foi a criação do casamento civil, pelo decreto 181/1890. Na prática, porém, o casamento civil emulava o matrimônio religioso e mantinha suas principais características: patriarcal, indissolúvel, monogâmico e heterossexual.

O Código Civil de 1916 manteve estas características, que só começaram a ser alteradas com o advento do Estatuto da Mulher Casada (Lei 4.121/62), quando a esposa deixou de ser relativamente incapaz, e da Lei do Divórcio (Lei 6.515/77), que pôs fim à indissolubilidade do casamento. A Constituição da República de 1988 deu feição bem mais moderna ao Direito de Família, assegurando a igualdade entre homens e mulheres (art.5º, I) e reconhecendo a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar (art.226, §3º). A discriminação por orientação sexual não foi expressamente mencionada no seu art.3º, IV, que proíbe o preconceito, mas foi abarcada pela vedação genérica a “quaisquer outras formas de discriminação”.

Os dogmas católicos da monogamia (art.1566, I) e da heterossexualidade (art.1514) foram mantidos pelo Código Civil de 2002 como características intrínsecas ao contrato de casamento civil, vedando assim os casamentos abertos e entre homossexuais. Estas restrições, na prática, não impedem os casamentos abertos, bastando aos interessados a aceitação do dever de fidelidade recíproca na cerimônia, para logo em seguida o descumprirem de comum acordo na vigência do casamento. O mesmo, porém, não se pode dizer dos casamentos homossexuais, que permanecem inviabilizados por uma inaceitável interferência religiosa no Estado laico.

Na impossibilidade de formalizarem sua união, os casais homossexuais passam a morar juntos, constituem famílias e seguem suas vidas, quase à revelia do Direito. Como em toda família, porém, separações ocorrem, pessoas morrem e questões jurídicas sobre este patrimônio constituído na vida em comum são levadas ao Judiciário.

A jurisprudência dos tribunais estaduais inicialmente solucionava estas questões, tratando a união como “sociedade de fato”, ou seja, como se os companheiros fossem sócios da micro-empresa “Lar Doce Lar”. Se um dos “sócios” morresse, o sobrevivente recebia a cota parte que lhe cabia na sociedade e a cota do falecido era deixada aos seus herdeiros. Atualmente, porém, muitos tribunais já dão sinais da aceitação da união estável homossexual, até para evitar situações absurdas como o companheiro falecido deixar sua herança aos seus irmãos, tios, sobrinhos ou primos que, em muitos casos, o hostilizavam por sua orientação sexual, em detrimento do companheiro sobrevivente que com ele trabalhou para acumular tal patrimônio e muitas vezes acabava por ficar na miséria.

A necessidade do reconhecimento jurídico das relações homossexuais, porém, vai muito além da questão da herança. Uma série de direitos exercidos quase que inconscientemente pelos casais heterossexuais é cotidianamente negada aos homossexuais: direito de adotar o sobrenome do companheiro, de somar renda para aprovar um financiamento ou alugar um imóvel, de inscrever-se como dependente do companheiro na Previdência, no imposto de renda e no plano de saúde, de gozar de licença na morte do companheiro ou quando este tiver filho, de realizar visita íntima ao companheiro preso, dentre muitos outros. Em suma, dá-se um tratamento jurídico de solteiro a um casal, cerceando-lhe direitos por mero preconceito moral e religioso.

Para tentar minimizar esta excrescência jurídica, tramita no STF, desde 2009, sob relatoria da ministra Ellen Gracie, a Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4.277-7 que busca o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo, como entidade familiar. Se provida, o poder judiciário, na prática estará suprindo em parte a omissão do legislativo em legislar sobre a união civil de homossexuais, reduzindo consideravelmente a discriminação jurídica hoje existente.

União estável, porém, não é casamento. Há diferenças jurídicas significativas que vão do uso do sobrenome, somente autorizado aos casados, até o tratamento dado à herança. Para além do direito, falta principalmente à união estável o simbolismo de uma cerimônia perante familiares e amigos reconhecendo a união do casal. Assim, mesmo que o STF admita a união estável homossexual, faz-se necessário que o legislativo aprove uma lei autorizando o casamento ou, ao menos, a união civil de homossexuais.

Em 1995, a então deputada federal Marta Suplicy (PT-SP) apresentou à Câmara dos Deputados o projeto de lei 1.151 propondo a regulamentação da união civil entre pessoas do mesmo sexo no Brasil. O projeto original foi modificado em 2001 por um substitutivo do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) e, desde então, aguarda a boa vontade dos deputados para votá-lo. Mais recentemente um novo projeto de lei (nº 4.914/2009) em sentido semelhante foi proposto pelo deputado federal José Genoino (PT-SP), e atualmente está sendo discutido nas comissões da Câmara.

No Brasil, até o momento, optou-se por projetos de leis que buscam regular a questão como união civil, e não como casamento. Esta união civil, que não deve ser confundida com a mera união estável, seria registrada em cartório e, na prática, geraria efeitos praticamente idênticos ao de um casamento civil. Foi a estratégia política encontrada pelo legislador para tentar minimizar a oposição à lei por parte dos setores conservadores da sociedade.

Este modelo da união civil de homossexuais foi adotado em alguns países europeus (Reino Unido, França, Alemanha etc), mas vem sendo bastante criticado por dar um tratamento jurídico desigual em função da orientação sexual. Muito mais democrático tem sido o reconhecimento por inúmeros países da igualdade jurídica entre uma união heterossexual e uma homossexual. Desde que a Holanda aprovou em 2001 o casamento homossexual, muitos outros países também sancionaram leis no mesmo sentido como Bélgica (2004), Espanha e Canadá (2005), África do Sul (2006), Noruega e Suécia (2009), Portugal e Argentina (2010).

Aqui, não raras vezes ainda se vê políticos de todos os espectros partidários valendo-se de um discurso escancaradamente religioso para rechaçar a aprovação do casamento civil de homossexuais, com base nas restrições do sacramento católico do matrimônio. Os mais cuidadosos procuram disfarçar sua fundamentação religiosa, recorrendo a argumentos do quilate da “tradição” e do “costume”, utilizados no passado para justificar a escravidão, a virgindade e o casamento indissolúvel por toda a vida.

Enquanto o exercício de direitos for negado por questões exclusivamente religiosas não seremos uma sociedade efetivamente democrática. Impressiona a quantidade de pessoas que lutam acirradamente para impedir que casais possam viver uma vida feliz juntos, porque esta relação contraria os dogmas da sua fé. Lutam para que o Direito impeça as pessoas de expressarem seu afeto, seu carinho, seu amor.

Já é hora de aprovar uma lei que permita o casamento dos homossexuais no Brasil. O Direito não pode servir de cão-de-guarda da intolerância religiosa alheia. Que os casais homossexuais também possam se casar e ser felizes para sempre, até que a morte – ou o divórcio – os separe.

Hoje à tarde enquanto estava no Twitter uma tuitada de alguém  na tag #HomofobiaNao me chamou a atenção por causa do texto. Cliquei no link e fui ver do que se tratava.

Não, não adianta pedirem o link pois eu me recuso a dar ibope para ele.

Até aceito que é um texto muito bem escrito porém, a confusão de idéias e conceitos – descontando ainda o desconhecimento histórico do movimento LGBTSxyz – o cara acabou pisando feio na bola.

Ele vem publicamente exigir respeito da sociedade num texto onde ataca, deliberadamente, a sociedade, inclusive outros gays.

Tudo bem que ele goste e se sinta bem usando maquiagem, roupas fashion, dando carão na rua entre outras coisas. Tudo bem também que ele seja efeminado. Ninguém tem absolutamente nada a ver com isso a não ser ele mesmo. Só que pera lá: chamar de gay-homofóbico os homossexuais – segundo ele, os gays-machos – que curtem, gostam  e vivem tranquilamente com a sua masculinidade e que admiram e buscam isso nos possíveis parceiros para sexo ou relacionamento afetivo já é pesado demais.

Compara-los aos homofóbicos é de uma sandice e irresponsabilidade que me deixou a tarde toda sem palavraspor isso a insônia e a necessidade de falar agora.

Ele inclusive relata – de forma fútil e jocosa – as “desculpas” que nós, gays-machos, damos quando somos paquerados ou cantados por gays que não fazem o nosso tipo.  Como se não bastasse, ele ainda afirma categoricamente que esse tipo de atitude é típica de gays que não foram machos o suficiente para assumir a sua homossexualidade e continuam lá, trancafiados dentro do armário, recalcados e infelizes. Para ele, sair do armário é virar – queira ou nao, goste ou não – em efeminado. Só assim – sendo como ele – a pessoa será completamente feliz.

Diz ainda que, historicamente, é graças às “beeessss” mais abusadas “que dão a cara a tapa diariamente” que estamos conseguindo avançar nas questões dos nossos direitos. Que os gays-machos adoram ficar na deles quietos, sem mexer uma palha sequer enquanto eles – os prováveis futuros mártires do movimento LGBTSxyz – estão pelas ruas empunhando bandeiras, levando porrada, etc mas que depois vem exigir os direitos conquistados por elas. Que as caricaturas gays da TV tem mais valor que nós, gays-machos.

Bom, o texto segue por essa linha de raciocínio. Isso tudo foi apenas uma amostra geral.

Agora me digam: é ou não é de “cair o cú da bunda” uma coisa dessas?

Quer dizer: o cara escreve um texto para um blog – com bastante visibilidade na comunidade gay – exigindo respeito da sociedade e demonstra claramente que é incapaz de respeitar seus próprios “irmãos”?

Pior foi perceber nos comentários do texto que muitos gays pensam como ele. Apoiavam a visão dele e esculhambavam mais ainda a coisa toda.

Em resumo: ele tem o direito de ser como quiser mas eu não! Ele é melhor que eu só porque o seu “outing” foi numa praça pública empunhando uma bandeira do arco-íris ao som de “I will survive” e o meu apenas para aqueles que eu julguei necessário!

Ele se esquece, comodamente claro, que muitos gays-machos como eu trabalham em grandes empresas, ou são profissionais renomados e reconhecidos em suas áreas, outros são políticos ou assessores destes, e que tais gays-machos tem poder nas mãos para ajudar a causa LGBTSxyz de outra forma, nos bastidores. Se esquece também que muitos gays-machos como eu tem um canal direto com políticos – inclusive os mais resistentes – e que conseguem, numa conversa tranquila  e apolitizada, mudar aos poucos a visão deles em favor da causa LGBTSxyz.

Se esquece também que, historicamente falando, muitos gays-machos davam a cara pra bater e enfrentavam situações bem piores que as que os gays – ele inclusive – enfrentam hoje. Junto com a comunidade gay, de mãos dadas quando necessário, estes gays-machos marcharam no passado em defesa de direitos primários e que eles também tiveram o seu mérito nas conquistas. E que hoje, se necessário for, estraremos em campo  (dar a cara pra bater publicamente) sim na defesa dos direitos da comunidade LGBTSxyz, porém, sem vestir uma fantasia do que não somos ou nos travestirmos. Estaremos ali marchando, sem negar o que e como somos: gays-machos.

Observem a foto. Tem muito gay-macho e gay-fêmea aí. Todos lutando juntos.

Talvez a visão distorcida desse cara – e de tantos outros gays que pensam assim – tenha fundamento na sua vida social, seu círculo social. Talvez, por não conviver – por puro preconceito apesar de morrerem de tesão por estes – com gays-machos, preferindo estar sempre na companhia de iguais, ele desconheça esta realidade, este estilo de vida gay,  onde estes gays-machos podem estar “infiltrados” e o que podem fazer em favor da causa LGBTSxyz. Quem sabe também esta revolta não está fincada num “NÃO” que recebeu após dar uma cantada chula em algum gay-macho? Então ele sai livremente por aí vomitando o seu ódio contra o seu semelhante.

São meras suposições minhas sobre este cara? Sim. Mas estão baseadas na realidade de muitos gays que conheço. Na cabeça destes, apenas por eu ser gay, tenho obrigação de trepar com quem quer que seja e se eu não for “mulher” tou negando a minha sexualidade. Pera lá: eu gosto de gay-macho, já maduro, discreto como eu. É pecado isso agora? É crime ter um biotipo específico que te atrai fisicamente e te deixa de pau duro só de olhar?

Ou seja, o pipi dele fica em riste quando me olha e me deseja, então o meu caralho tem a obrigação de ficar em riste mesmo não sentindo tesão pelo cara, apenas para satisfazer a vaidade e os desejos DELE? Alguém aí me mostra onde é que fica esse botão liga/desliga???

Isso nem de longe quer dizer que os gays-machos sejam incapazes de conviver socialmente, na boa, com aqueles que são diferentes. No entanto, os mais abusados tem de ter em mente o seguinte: quando cruzarem com um gay-macho na rua ou onde for, lembre-se que vocês são iguais, mas diferentes. Sejam discretos em respeito ao outro. Não digo apresentar-se como um gay-macho, mas ao menos evite dar bafão.

Nesse ponto admiro muito o André – drag Brigitte Beaulieu de Curitiba. Nos conhecemos desde a época em que ele ainda era um jovenzinho, iniciando – e já arrazando nos shows – a sua vida. Sempre me tratou com muito respeito e NUNCA fez qualquer coisa que me colocasse numa situação constrangedora. Claro que quando nos encontrávamos sozinhos na rua ou em alguma boate ou bar, ele tinha a liberdade de ferver e brincar comigo. É um amigo que, apesar da distancia e da falta de contato, tem um lugarzinho só dele em meu coração. Respeito-o demais pela pessoa linda que ele é.

Já enfrentei vários problemas por causa de gays sem noção: eu andando na rua com alguém (chefe, familiares, amigos que não sabiam, etc) e chega uma loka não sei de onde fervendo, com seu palavreado típico e lindamente educado, sem se tocar ou querer saber quem é que estava ao meu lado. Numa das vezes, era um ex-governador que eu estava acompanhando num 1° de dezembro, numa ação pública de conscientização sobre a AIDS/HIV em Curitiba-PR.

Um cara difícil de lidar, bastante resistente a qualquer assunto sobre homossexualidade e que, depois de mais de 3 horas de conversa, diálogo, onde consegui mostrar o lado “bom e normal” que a homossexualidade tem assim como a heterossexualidade. Do nada, me chega uma beeee fazendo um mega bafão histérico e fechativo, e joga tudo por terra.

Ou melhor, enterra e bate a pá em cima e sai rindo equilibrando-se na sua plataforma.

Repito o que já escrevi aqui neste blog e no Twitter, e prestem bastante atenção:

Enquanto a comunidade LGBTSxyz – incluindo as associações – não aceitar e assumir a diversidade dentro dela mesma, não tem o menor direito – e nem sentido – de exigir respeito de quem for.

Sim, me senti bastante ofendido pelas colocações deste cara. Meu compenheiro, um gay-macho lindo e tesudo,  também. Vários amigos – gays-machos – que mostrei o texto também.

Respeito é bom, todos nós gostamos, merecemos e estamos correndo atrás disso.

JUNTOS!

Se for continuar como está, não reclamem das pedradas recebidas.

Primeiro vamos arrumar a nossa casa pra depois arrumar a sociedade?

Pode ser?

Por Gustavo Poli em http://globoesporte.globo.com sex, 15/04/11

Num estádio esportivo, as regras sociais são suspensas. Mulheres xingam. Homens choram. Crianças falam palavrão. Nossa enterrada barbárie emerge – como se a multidão nos permitisse ingressar numa realidade paralela – onde ofensas são relativas – e podemos libertar nosso neanderthal esquecido, nossos instintos mais primitivos.

O código do arquibaldo moderno inclui o direito de xingar – e xingar coletivamente.  Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que o torcedor nos estádios era um fidalgo. Era irônico e doce – elegante até. Contam os antigos que quando o Brasil derrotou a Espanha na semifinal da Copa de 1950,  o Maracanã entoou “Touradas de Madri”… Podemos argumentar que a ironia é mais divertida – e que os mais divertidos gritos provocativos recentes (“Pior ataque do mundo”,  “ninguém cala esse chororô”) dispensaram o palavrão. Mas… se  a final da próxima Copa fosse hoje e  contra a Espanha o que ouviríamos no Mário Filho bilionário e repaginado? Ou melhor, o que gritaríamos?

– Arrá, urru… Ô Iniesta eu vou…

– Ei Espanha, vai…

– ÊÊÊÊÊ, eu quero ver a Espanha se…

Em algum momento, talvez ali entre os anos 50 e 60, a arquibancada vingou como palco livre para a multidão. Torcedores se organizaram – produzindo shows, bandeiras, brigas e facções semi-criminais.  Consolidou-se a via de escape que remove da pele de cordeiro – e libera a testosterona moral. Um cenário onde o que soa masculino (ser viril, ter iniciativa, agredir o adversário) é positivo; e o que soa feminino (esperar, se defender,  jogar na retranca, ser estratégico) é criticável. Jogador tem que ser macho, não pode ficar de frescura; tem que ir pra dividida, não pode tirar o pé; tem que ter coragem, não pode ter medo… e por aí vai.

Xingar o adversário – e seus representantes, sejam jogadores ou torcedores – se tornou parte da cultura doestádio – e o palavrão perdeu parte de seu peso em grosseria. Torcidas compuseram alexandrinos perfeitos só com palavras de baixa extração. A ofensa esportiva se tornou divertida – parte da cultura esportiva. Quando esses gritos ecoam na arquibancada, nenhum de nós se indigna ou  questiona. Alguns sorriem, a maioria embarca no mantra coletivo.  O torcedor grita o nome de seus ídolos na mesma proporção em que xinga o adversário.

Seleção natural

Toda competição esportiva simula um pouco a seleção natural que nos trouxe até aqui como espécie. Quando jogamos futebol, ou vôlei ou basquete – ou corremos, pedalamos, escalamos – enfrentamos adversários e limites.  Quando torcemos por um time, transferimos para os jogadores nosso objetivo de ganhar do adversário. A paixão por times e escudos exacerbou esse objetivo. Como cada partida é mero capítulo de uma história sem fim – ganhar se tornou apenas UM dos objetivos. Se alem de ganhar for possível humilhar, deixar marcado e destroçar moralmente o adversário – tanto melhor. O torcedor apaixonado é  um ultimate fighter engarrafado, um romano torcendo pelo leão no Coliseu.

E o outro lado dessa equação? O nosso representante – aquele que exaltamos mas que os outros xingam? O tal de… jogador. Bom, o jogador… é um ser humano. Ele acorda, dorme, come, descome, escova os dentes – tem parentes, bichos de estimação, ouvidos e olhos.

Na semana passada, o meio-de-rede Michael – jogador do Vôlei Futuro – chegou ao limite.

Depois de mais de dez anos de carreira, mais de dez anos de xingamentos e provocações, ele não resistiu a um coro que o chamava de viado.  E reclamou tomando a decisão de, em entrevista à repórter Helena Rebello, assumir sua homossexualidade – decisão difícil e corajosa em qualquer lugar – especialmente nesta tenra terra verde-amarela.

No Brasil, o preconceito sexual é mais profundo e externável do que qualquer outro. Eu vou a estádio desde pequeno – e desde pequeno me acostumei a questionar a masculinidade dos jogadores adversários, do árbitro, do bandeirinha e da torcida oponente. Desordem e regresso à parte, tenho zero preconceito e  vários amigos homossexuais.  Mas, no estádio, desabonar a conduta sexual alheia sempre pareceu mais lúdico que ofensivo.

Preconceito – seja social, sexual ou étnico – existe por toda parte. Na Europa, o racial tem aparecido mais. No Brasil, não vemos bananas em estádios – mas xingamentos sexuais são regra. Não há um evento esportivo no Brasil que não traga provocações do tipo. No sambódromo já vi uma arquibancada gritando para a outra:

– O outro lado… só tem viado… olê olê olê…

É assim há tanto tempo que Michael deveria estar acostumado. E dar de ombros. Ignorar. Mas não – algo fez seu chip pular. O que foi? Talvez tenham sido as crianças gritando – talvez o clima no estádio. Mas, lendo suas palavras, a impressão que dá é que Michael cansou. Cansou de ser surdo, cansou de fingir.

Eu sou gay, mas isso não deve ser comentado.

Verdade – não devia importar, mas importa. Esse é o xis da questão. O que incomodou Michael foi ver homens, mulheres e crianças tratando sua condição natural como uma ofensa. Isso não é pouca coisa.  Imagine por um instante: dez mil pessoas explorando como desprezível algo que faz parte de você, não é um defeito – mas que em toda sua vida foi tratado como tal?

Esqueça por um instante que a prática é corriqueira em estádios  – como se fosse um direito adquirido. Esqueça o debate sobre politicamente correto. Tente se colocar no lugar de Michael – que, como todo homossexual no Brasil, deve ter sido olhado com desdém desde cedo, deve ter sofrido com ironias – e deve ter tido dificuldade em viver naturalmente por causa da reação alheia.

Todo jogador brasileiro já foi chamado de homossexual – como todo juiz já foi xingado. Mas se pergunte – por que será que Richarlysson – um cara esclarecido – nunca falou claramente o que todos presumem? Por que uma torcida organizada do São Paulo rejeitava o jogador ?  Este é o Brasil – um pais onde há gente que acha que é legal espancar os outros por causa de predileção sexual… onde sub-mauricinhos se divertem sacaneando prostitutas nas esquinas…  Então, será que não há algo aprender quando alguém se diz ofendido?

Por conta das ofensas, o Cruzeiro foi punido em R$ 50 mil – algo insólito e raro no Brasil – e que levanta um debate sobre tolerância. Devemos disciplinar a multidão? Ou o xingamento ali é inodoro e cultural?  O Brasil é um país debochado – que se acostumou a rir de suas tragédias. Mas imagine por um instante que o grito não tivesse sido viado. Tivesse sido outro. Tivesse sido macaco ou judeu. Qual seria o tamanho do escândalo?

Imagine, por outra, que o xingamento fosse gordo. Mas… dirão… o sujeito não é gordo? É – mas você não chama um desconhecido na rua de gordo – a não ser que queira criar confusão, chama? Mais – você já viu algum grupo de espancamento de gordos? Ou faixas contra gordos? Ou gordos que tenham receio de assumir sua condição temendo a reação alheia?

A multidão nos fornece licença para a crueldade. Não temos rosto – podemos ser horríveis, vis, rir do defeito alheio, chamar o baixinho de anão, ridicularizar o homossexual, a mulher, o diferente.  Como a internet  demonstra – seja em blogs ou no twitter – o anonimato é capaz de produzir um misto de coragem e grosseria

Rica Perrone e a intolerância

Xingar é socialmente aceito nos estádios brasileiros. E o Cruzeiro foi punido porque seus torcedores xingaram um atleta. Na quarta-feira, o caso ganhou um contorno diferente. Rica Perrone, blogueiro do Globoesporte.com, escreveu um texto dizendo que a punição foi hipócrita. Um dia depois, #ricaperrone era o tópico mais comentado no twitter brasileiro – sendo crucificado e aplaudido ao mesmo tempo – metralhado por uns, incensado por outros.

O que fez Rica de tão grave? Bom… tratou um tema delicado com um carrinho de Junior Baiano. Caso você queira ler o texto – aqui está. Ele não foi destacado no site.

Rica vestiu a pele do torcedor – que vê a ofensa como ingênua. Na multidão, vale lembrar, não temos culpa – afinal não somos nós que xingamos – é o coletivo. Para o anônimo que xinga – o xingamento é personalizado – mas ironicamente impessoal. A visão de Rica foi essa: punir uma brincadeira antiga – que todos fazem – é hipócrita. Não achei o texto homofóbico – achei insensível  e, por vezes, infeliz.

Rica cometeu – a meu ver – dois equívocos em seu texto – e nenhum dos dois tem muito a ver com o argumento principal. O primeiro foi tratar um tema delicado de forma indelicada – ofendendo sem querer gente que, desde que nasceu, sofre com preconceito e falta de compreensão. Para ilustrar essa incompreensão, segue uma historinha ligada ao tema. Quando publicamos a reportagem em que Michael assumia seus caminhos, a manchete do Globoesporte.com foi sua frase: “Sou gay”. Achei extremamente corajosa a frase – e destacá-la me pareceu preciso e correto – até que um amigo homossexual me disse por telefone que estava se sentido ofendido.

Fiquei boquiaberto –  sem entender. Achei que, ao destacar a corajosa frase de Michael, estávamos prestando o melhor serviço contra o preconceito. Até que ele me explicou de modo simples:

– Leia a frase dele. O que ele disse foi “Sou gay, mas isso não deveria ser comentado”.

Não deveria ser comentado… destacado… bingo. Mudamos o titulo para “Contra o preconceito” e fiquei com a certeza de a avaliação primeira tinha sido superficial. Eu simplesmente não tinha entendido direito o cenário. Nunca sofri com preconceito, nunca tive olhares irônicos e risinhos debochados na minha direção – então minha capacidade de entender era obviamente limitada.

Algo parecido – de outra forma – aconteceu com Rica Perrone. Ele não foi capaz de entender quão delicado é o tema – para gente que vive sob o escrutínio alheio numa sociedade pretensamente tolerante.  Rica tem direito de não querer que seu filho seja homossexual – com pode querer que seu filho não seja corinthiano ou palmeirense. Talvez haja preconceito nisso, talvez não. Ser homossexual no Brasil atual não é fácil – e não há pai que queira ver o filho sofrer.

O segundo erro foi enxergar um fantasma. Ao dizer que os gays querem agora tratamento vip, Rica viajou numa lisérgica maionese, e recebeu o pior dos cumprimentos – a vibração da arquibancada bolsonara.  Os aplausos do lado direito, ironicamente, sublinharam os ataques pessoais e profissionais do esquerdo – daqueles que o consideraram o texto preconceituoso. Em ambos os casos, tivemos palavras de baixo nível, ofensas, grosserias – uma meta-arquibancada falando da arquibancada.  Tanta intolerância me lembrou uma frase do poeta inglês Samuel Taylor Coleridge:

“Eu já vi grande intolerância ser mostrada em nome da tolerância”

A intolerância, como a multidão, não tem partido. O indivíduo – ou a minoria – tem – e tem porque precisa se defender.  Rica, os gays não querem tratamento vip. Eles só querem respeito – a seus mais básicos direitos. Em suma, discordo do texto de Rica em quase todas as direções – mas acho que ele tem direito de escrevê-lo – e de ter sua opinião (que está muito longe da do Bolsonaro, por exemplo).

Por mais que caçar bruxas seja inócuo, não devemos achar que um preconceito é justificável só porque nos acostumamos com ele – ou nos acostumamos a ecoá-lo.

A reação de Michael tem mais a ver com o preconceito histórico – do que com o esportivo. O último é apenas reflexo do primeiro. Mas seu incômodo planta uma semente – será que somos tão diferentes do torcedor que exibe a banana para o negro brasileiro?

Será que, em algum momento, o coro de viado deixa de carregar preconceito? Por mais que não queiramos ofender – por mais que estejamos apenas implicando – ou brincando – por mais que torcer seja politicamente incorreto por definição – e por mais que, ao deixar o estádio, desliguemos esse botão e retomemos a civilidade… será?

Michael gostaria de viver num país em que gay não fosse xingamento – em que ser homossexual não fosse motivo de desprezo ou ironia. Um país em que a preferência sexual não ecoasse socialmente. Esse país, hoje, não é o Brasil. Os gritos da arquibancada refletem, sim, nosso arraigado preconceito. O brasileiro médio não lida bem com homossexualidade – prefere ironizá-la à distância e ignorá-la de perto.

A arquibancada é fascinante, é atraente, é libertadora – e abrir mão do palavrão e de tudo-o-que-podemos-fazer-ali-mas-não-em-outro-lugar é simplesmente difícil. A liberdade da multidão é extasiante – a alegria coletiva, a revolta, a vaia, o xingamento… são Brasil até a última gota. O coro – no fundo – é nosso. Somos nós assumindo nosso preconceito sem rosto – em voz alta.

Ao ouvi-lo pela enésima vez, foi que Michael, em voz baixa, pôs seu rosto diante do tapa.