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Toda esta polêmica sobre preconceito e homofobia me faz pensar que há um sério equívoco na estratégia: a de encarar a homofobia isolada de outras formas de crimes de ódio. Do ponto de vista político, educacional, jurídico e criminal, o que justifica a implementação de ações orientadas exclusivamente para a superação de um determinado preconceito? Por que não engloba-las de forma abrangente e eficaz em ações conjuntas para coibir todas as formas de preconceito e suas correspondentes modalidades atuais de crime de ódio e para estimular uma cultura autenticamente democratica e republicana, fundada na tolerancia e no respeito a pluralidade?

No Estado Democrático de Direito, os discursos e práticas configurados como crime de ódio não são tolerados sob quaisquer pretextos em razão do fato de atacarem os fundamentos e princípios constitucionais deste Estado e sociedade. Nada está ou poderá se colocar acima desta Lei Maior! Ela constitui a referência ético-normativa (e o limite) de nossas liberdades civis, por ela outorgadas e garantidas, e de nossas vidas compartilhadas na sociedade. Ela é a referência das diferentes formas privadas de vida que devem coabitar solidariamente. Esta foi a conquista da superação das tradições medievais e das formas absolutistas de organização social e política, dentre outros. Ao longo dos séculos, a humanidade vem amadurecendo o significado republicano e democrático da tolerância. O reconhecimento dos direitos humanos  no pós-guerra marca esta evolução. Esta é a razão pela qual, por exemplo, não se pode admitir a apologia ao nazi-fascismo e outras formas de discursos, panfletos e organizações que disseminem quaisquer práticas de violência que atentem contra a dignidade humana (narcotráfico, pedofilia, etc). Isso jamais pode ser concebido como censura. Entretanto, estranha e paradoxalmente,  admite-se veiculações culturais, jogos, filmes que incitam violência. Mas isso impõe outra discussão que aqui não vem ao caso.

Tomemos a Inglaterra (apesar de suas contradições reconhecidas) como exemplo: no seu ordenamento são elencadas as diversas manifestações do crime de ódio, independente das motivações preconceituosas que as sustentam:

(1) agressões físicas, danos à propriedade, pichações e outras diferentes formas de constrangimento fisico;

(2)  ameaças de intimidação, insultos verbais, gestos abusivos, perseguições e difamações, ataque à honra, como por exemplo, as formas de humilhação do bullyng na escola ou no trabalho,  e outras diferentes formas de constrangimento moral;

(3) panfletos e posteres ofensivos, etc.

(4) organizações ou mobilizações clandestinas para disseminação do ódio.

Em outubro de 2010, o protesto raivoso contra uma Parada Gay em Manchester promovido por um grupo cristão homofóbico chamado Christian Voice foi considerado como crime de ódio e pode ser banido de todos os futuros protestos. A história registra diferentes manifestações dos crimes de ódio. De acordo com o Wikipédia, os crimes de ódio remontam à perseguição dos cristãos pelos romanos, à “solução final” de Adolf Hitler contra os judeus, à limpeza étnica na Bósnia e ao genocídio em Ruanda. Nos Estados Unidos, os exemplos incluem violência e intimidação contra os americanos nativos, o linchamento de negros e o incêndio de cruzes pela Ku Klux Klan, agressões a homossexuais, e a pintura de suásticas em frente a sinagogas. Em 2008, o governo do Equador qualificou oficialmente o assassinato de um equatoriano em Nova Iorque de “crime de ódio” contra latinos.

No Brasil, eu entendo como necessário ampliar corajosamente as leis sobre crimes de ódio, de um lado,  para além daqueles motivados pelo preconceito de cor e de raça (racismo e injúria racial), de procedencia nacional ou étnico, de religião, contra idosos e deficientes, incorporando a homofobia; por outro lado, para além de determinadas práticas, desde os assassinatos promovidos por grupos de extermínio ou esquadrões da morte e genocídios classificados como crimes hediondos, incorporando, de forma ampliada, as demais modalidades de crime de ódio incluindo as práticas de bullying em quaisquer contextos, sejam escolares ou não.
Neste sentido, a educação para a tolerancia e solidariedade democráticas dos cidadãos deve ocorrer desde a infância passando por todos os níveis da educação básica e ensino médio. A homofobia estaria incluída como algo a ser execrado em nome da convivencia republicana para a qual as crianças, adolescentes e jovens são formados. A função da educação, acima de tudo, é a de promover a inserção de forma competente e crítica mulheres e homens na esfera pública democrática e em todo seu arcabouço valorativo, sem que se despreze seus valores privados os quais devem estar em consonância com os princípios de Direito.

Em conclusão, como se pode observar, defendo leis e praticas mais amplas orientadas para a cidadania. Não vejo sentido em praticas atomizadas e fragmentadas. O problema da homofobia se enraíza em um solo mais profundo, do qual faz germinar tantas formas de preconceito que sustentam crimes de ódio. Para isso é preciso que as militancias GLBT tenham coragem de buscar racionalmente mover a opinião mais ampla e para isso devera olhar a sociedade para além de sua visão ensimesmada de gueto. A problematica do ódio, do preconceito e da discriminação é um mal que precisa ser melhor diagnosticado e atacado de forma mais ampla e eficaz.

Autor: Asas de Icaro

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Hoje à tarde enquanto estava no Twitter uma tuitada de alguém  na tag #HomofobiaNao me chamou a atenção por causa do texto. Cliquei no link e fui ver do que se tratava.

Não, não adianta pedirem o link pois eu me recuso a dar ibope para ele.

Até aceito que é um texto muito bem escrito porém, a confusão de idéias e conceitos – descontando ainda o desconhecimento histórico do movimento LGBTSxyz – o cara acabou pisando feio na bola.

Ele vem publicamente exigir respeito da sociedade num texto onde ataca, deliberadamente, a sociedade, inclusive outros gays.

Tudo bem que ele goste e se sinta bem usando maquiagem, roupas fashion, dando carão na rua entre outras coisas. Tudo bem também que ele seja efeminado. Ninguém tem absolutamente nada a ver com isso a não ser ele mesmo. Só que pera lá: chamar de gay-homofóbico os homossexuais – segundo ele, os gays-machos – que curtem, gostam  e vivem tranquilamente com a sua masculinidade e que admiram e buscam isso nos possíveis parceiros para sexo ou relacionamento afetivo já é pesado demais.

Compara-los aos homofóbicos é de uma sandice e irresponsabilidade que me deixou a tarde toda sem palavraspor isso a insônia e a necessidade de falar agora.

Ele inclusive relata – de forma fútil e jocosa – as “desculpas” que nós, gays-machos, damos quando somos paquerados ou cantados por gays que não fazem o nosso tipo.  Como se não bastasse, ele ainda afirma categoricamente que esse tipo de atitude é típica de gays que não foram machos o suficiente para assumir a sua homossexualidade e continuam lá, trancafiados dentro do armário, recalcados e infelizes. Para ele, sair do armário é virar – queira ou nao, goste ou não – em efeminado. Só assim – sendo como ele – a pessoa será completamente feliz.

Diz ainda que, historicamente, é graças às “beeessss” mais abusadas “que dão a cara a tapa diariamente” que estamos conseguindo avançar nas questões dos nossos direitos. Que os gays-machos adoram ficar na deles quietos, sem mexer uma palha sequer enquanto eles – os prováveis futuros mártires do movimento LGBTSxyz – estão pelas ruas empunhando bandeiras, levando porrada, etc mas que depois vem exigir os direitos conquistados por elas. Que as caricaturas gays da TV tem mais valor que nós, gays-machos.

Bom, o texto segue por essa linha de raciocínio. Isso tudo foi apenas uma amostra geral.

Agora me digam: é ou não é de “cair o cú da bunda” uma coisa dessas?

Quer dizer: o cara escreve um texto para um blog – com bastante visibilidade na comunidade gay – exigindo respeito da sociedade e demonstra claramente que é incapaz de respeitar seus próprios “irmãos”?

Pior foi perceber nos comentários do texto que muitos gays pensam como ele. Apoiavam a visão dele e esculhambavam mais ainda a coisa toda.

Em resumo: ele tem o direito de ser como quiser mas eu não! Ele é melhor que eu só porque o seu “outing” foi numa praça pública empunhando uma bandeira do arco-íris ao som de “I will survive” e o meu apenas para aqueles que eu julguei necessário!

Ele se esquece, comodamente claro, que muitos gays-machos como eu trabalham em grandes empresas, ou são profissionais renomados e reconhecidos em suas áreas, outros são políticos ou assessores destes, e que tais gays-machos tem poder nas mãos para ajudar a causa LGBTSxyz de outra forma, nos bastidores. Se esquece também que muitos gays-machos como eu tem um canal direto com políticos – inclusive os mais resistentes – e que conseguem, numa conversa tranquila  e apolitizada, mudar aos poucos a visão deles em favor da causa LGBTSxyz.

Se esquece também que, historicamente falando, muitos gays-machos davam a cara pra bater e enfrentavam situações bem piores que as que os gays – ele inclusive – enfrentam hoje. Junto com a comunidade gay, de mãos dadas quando necessário, estes gays-machos marcharam no passado em defesa de direitos primários e que eles também tiveram o seu mérito nas conquistas. E que hoje, se necessário for, estraremos em campo  (dar a cara pra bater publicamente) sim na defesa dos direitos da comunidade LGBTSxyz, porém, sem vestir uma fantasia do que não somos ou nos travestirmos. Estaremos ali marchando, sem negar o que e como somos: gays-machos.

Observem a foto. Tem muito gay-macho e gay-fêmea aí. Todos lutando juntos.

Talvez a visão distorcida desse cara – e de tantos outros gays que pensam assim – tenha fundamento na sua vida social, seu círculo social. Talvez, por não conviver – por puro preconceito apesar de morrerem de tesão por estes – com gays-machos, preferindo estar sempre na companhia de iguais, ele desconheça esta realidade, este estilo de vida gay,  onde estes gays-machos podem estar “infiltrados” e o que podem fazer em favor da causa LGBTSxyz. Quem sabe também esta revolta não está fincada num “NÃO” que recebeu após dar uma cantada chula em algum gay-macho? Então ele sai livremente por aí vomitando o seu ódio contra o seu semelhante.

São meras suposições minhas sobre este cara? Sim. Mas estão baseadas na realidade de muitos gays que conheço. Na cabeça destes, apenas por eu ser gay, tenho obrigação de trepar com quem quer que seja e se eu não for “mulher” tou negando a minha sexualidade. Pera lá: eu gosto de gay-macho, já maduro, discreto como eu. É pecado isso agora? É crime ter um biotipo específico que te atrai fisicamente e te deixa de pau duro só de olhar?

Ou seja, o pipi dele fica em riste quando me olha e me deseja, então o meu caralho tem a obrigação de ficar em riste mesmo não sentindo tesão pelo cara, apenas para satisfazer a vaidade e os desejos DELE? Alguém aí me mostra onde é que fica esse botão liga/desliga???

Isso nem de longe quer dizer que os gays-machos sejam incapazes de conviver socialmente, na boa, com aqueles que são diferentes. No entanto, os mais abusados tem de ter em mente o seguinte: quando cruzarem com um gay-macho na rua ou onde for, lembre-se que vocês são iguais, mas diferentes. Sejam discretos em respeito ao outro. Não digo apresentar-se como um gay-macho, mas ao menos evite dar bafão.

Nesse ponto admiro muito o André – drag Brigitte Beaulieu de Curitiba. Nos conhecemos desde a época em que ele ainda era um jovenzinho, iniciando – e já arrazando nos shows – a sua vida. Sempre me tratou com muito respeito e NUNCA fez qualquer coisa que me colocasse numa situação constrangedora. Claro que quando nos encontrávamos sozinhos na rua ou em alguma boate ou bar, ele tinha a liberdade de ferver e brincar comigo. É um amigo que, apesar da distancia e da falta de contato, tem um lugarzinho só dele em meu coração. Respeito-o demais pela pessoa linda que ele é.

Já enfrentei vários problemas por causa de gays sem noção: eu andando na rua com alguém (chefe, familiares, amigos que não sabiam, etc) e chega uma loka não sei de onde fervendo, com seu palavreado típico e lindamente educado, sem se tocar ou querer saber quem é que estava ao meu lado. Numa das vezes, era um ex-governador que eu estava acompanhando num 1° de dezembro, numa ação pública de conscientização sobre a AIDS/HIV em Curitiba-PR.

Um cara difícil de lidar, bastante resistente a qualquer assunto sobre homossexualidade e que, depois de mais de 3 horas de conversa, diálogo, onde consegui mostrar o lado “bom e normal” que a homossexualidade tem assim como a heterossexualidade. Do nada, me chega uma beeee fazendo um mega bafão histérico e fechativo, e joga tudo por terra.

Ou melhor, enterra e bate a pá em cima e sai rindo equilibrando-se na sua plataforma.

Repito o que já escrevi aqui neste blog e no Twitter, e prestem bastante atenção:

Enquanto a comunidade LGBTSxyz – incluindo as associações – não aceitar e assumir a diversidade dentro dela mesma, não tem o menor direito – e nem sentido – de exigir respeito de quem for.

Sim, me senti bastante ofendido pelas colocações deste cara. Meu compenheiro, um gay-macho lindo e tesudo,  também. Vários amigos – gays-machos – que mostrei o texto também.

Respeito é bom, todos nós gostamos, merecemos e estamos correndo atrás disso.

JUNTOS!

Se for continuar como está, não reclamem das pedradas recebidas.

Primeiro vamos arrumar a nossa casa pra depois arrumar a sociedade?

Pode ser?

Este texto foi escrito parafraseando, por meio de contrapontos, o texto original de Luiz Mott entitulado “Meu Moleque Ideal” com o objetivo de mostrar que as afirmações e fantasias enunciadas não representam a totalidade do universo homossexual. O texto a que me refiro, a meu ver, acaba reforçando a falsa idéia de que todo (homem) homossexual nega sua identidade de gênero ou, pior, manifesta tendências ou desejos pedófilos municiando homofóbicos de plantão com material da pior espécie.

O texto que escrevo apresenta um caráter eminentemente homoerótico e mostra, para além da convivência homoafetiva diária, os desejos e práticas sexuais que dois homens orgulhosos de sua masculinidade compartilham. Se você sente-se ofendido com este tipo de leitura, interrompa sua leitura ao final desta introdução enunciada em vermelho.

Se você é um cara bem resolvido e vivencia, de forma intensa e saudável, sua sexualidade sem quaisquer tabus ou falsos pudores quanto a isso, delicie-se até o final.

Não podemos, enquanto homossexuais, sermos punidos ou obrigados a carregar um fardo de atribuições distorcidas que não fazem parte de nosso caráter, personalidade ou orientação homoafetiva e homoerótica de nossa sexualidade.

Boa leitura ou até a próxima!

Considero-me um cara dos mais feliz pois amo e sou amado por um homem maravilhoso que preenche plenamente minhas fantasias e desejos sexuais, afetivos e de companheirismo.

Na tentativa de analisar objetivamente as razões que levariam dois homens (ou duas mulheres, ou um homem e uma mulher) a se entregarem com exclusividade um ao outro, quando movidos por uma paixão afetiva e erótica, creio que esta fidelidade poderia ser explicada por uma motivação bastante simples: a lealdade de um para com outro. A lealdade (como vínculo de um para com outro com base na confiança mútua determinada pelo afeto) passível de ser compreendida, verbalizada e considerada, apresenta-se como universal. Qualquer posição que tenha por objetivo esvaziar este dado universal por conta de uma visão utilitarista e oportunista de relacionamento – do tipo “estou com esta pessoa por não ter outra que seja melhor no momento para substituí-la” – não passa de uma generalização falaciosa oriunda de projeções subjetivas, não apenas marcadas por frustrações pessoais acumuladas, mas sobretudo eivadas de promiscuidade. Sob o olhar promíscuo, tal posição assevera que qualquer relacionamento funda-se, mesmo sob a roupagem de amor ou paixão, na instrumentalização do outro como uma coisa a ser usada sexualmente até que seja descartada.

Entretanto podemos observar que, em geral, que as pessoas confundem a lealdade com a fidelidade, aqui considerada em relação a um pacto que duas pessoas  firmam entre si e que, por sua vez, constitui a base do relacionamento que se empenham em vivenciar.  A fidelidade não é um ato subjetivo que uma pessoa tem para com outra (isso é lealdade) mas, quando duas pessoas- movidas pelo amor e pelo desejo erótico – estabelecem e assumem livremente  um pacto seja qual for, nos moldes de um contrato, cada um assume formalmente o dever de respeitar todas suas cláusulas manifestas ou subentendidas por ambos. Em outras palavras, uma pessoa não é fiel a outra, mas fiel ao pacto que ambas livremente assumiram, mas tal pacto não se sustenta se não houver o vínculo de lealdade de uma pessoa para com outra.

Longe de conceber ou forjar padrões, cada casal deve se compreender livre, sem quaisquer constrangimentos, para estabelecer seu próprio pacto à partir dos valores e das expectativas recíprocas que compartilham. Assim, por exemplo, a exclusividade sexual pode ser ou não ser uma cláusula dentre tantas outras. Depende de como os pactuantes assim a entendem, se necessária ou não, ou como vão vivenciá-la no cotidiano. Deste modo, todo e qualquer relacionamento funda-se em um pacto e, portanto, exige dos pactuantes uma atitude de fidelidade que lhes é adequada, ao menos naquele momento em que o assumem. Neste aspecto, para longe de uma visão eivada de promiscuidade, resgata-se a lealdade que, por meio da confiança sincera de um para com outro, resguarda-se a estabilidade e a dinamicidade do relacionamento.

Claro que não se pretende aqui dissociar lealdade (dado subjetivo) e fidelidade (dado formal e objetivo). Contudo, é muito comum encontrarmos pessoas que reduzem a fidelidade a uma exclusividade sexual não se importando com todos outros aspectos (talvez mais significativos) que envolvem o pacto entre aqueles que se amam e se desejam e em relação aos quais deveriam ser fiéis. Entre ciumeiras hipócritas e puritanas ficam tão preocupados em controlar a “fidelidade” sexual a ponto de não levarem em conta as inúmeras infidelidades e deslealdades que, no convívio diário, vão corroendo o que é fundamental no relacionamento.  Este vai se tornando doentio à medida que se impõem tentativas sempre frustradas de castrar um do outro o imaginário sexual e erótico, tão natural, que deveriam compartilhar numa cumplicidade alegre e descontraída, sem quaisquer constrangimentos à individualidade de cada um. Isso pressupõe maturidade suficiente para romper com mitos que, sob a falsa compreensão de amor e paixão, entendem ingenuamente que o tesão de um se deixe enclausurar no outro.  Observe que, por esta consideração, não há qualquer defesa tácita de uma distorção promíscua do que se pode conceber acerca de um relacionamento.

De modo particular, considerando nossa condição homossexual masculina, devemos encarar que lá no fundo, todos nós, alimentamos, de um modo ou de outro, em nossa imaginação (e fantasias) um tipo ideal de homem que gostaríamos de amar e ter do lado: digamos, um mito do “príncipe” encantado. Este mito envolve um feixe de idealizações que muitas vezes nos surpreendem e que, até mesmo inconscientemente, projetamos. A maturidade, conquistada de forma equilibrada e saudável, permite perceber que este homem ideal nem sempre (ou quase nunca) assemelha-se àquele por quem estamos apaixonados e com quem convivemos .

Em nossas fantasias, o homem ideal pode ser alto e branco, o real, baixo e moreno. Porém, ao longo de nosso amadurecimento vamos encarando que este homem ideal não existe além de nossa imaginação e fantasias. Na maturidade compreendemos que ninguém, jamais, vai atender totalmente às idealizações das “especificações técnicas e de design” ou caber certinho dentro da forminha projetada para que o outro se encaixe. Isso aprendi pessoalmente com a vida. Cada um é cada um e, como tal, deve ser respeitado na sua individualidade. Relacionar-se acaba sendo uma aventura e um desafio no sentido de equacionar a cada momento o convívio, as expectativas, os desejos e a individualidade de cada um. Não é um apostar numa transitoriedade oportunista de relacionamento: é comprometimento que tem seu significado no amor em sua dimensão homoafetiva e homoerótica.

Continuando a parafrasear por meio de contrapontos aquele texto que acima me referi, digo o seguinte: meu caso, para ser sincero, tomando como hipótese  o fato de que o imaginário erótico (e suas idealizações e fantasias) pudesse se realizar concretamente e que, portanto, permitiria a mim escolher livremente as características biotípicas e eróticas de meu parceiro , este seria um homem “macho”do tipo daqueles representados pela arte da Grécia antiga: belos, adultos, másculos, viris, além de maduros e parrudos que, certamente para mim seria a coisa mais tesuda e delirante para se amar e foder.


Neste sentido hipotético, se as forças do universo me ajudassem, adoraria encontrar um macho acima dos 40 anos, já com os pentelhos do saco totalmente desenvolvidos, o cacete parrudo e cheio de veias grossas, não me importava a cor: adoraria se fosse negro e parrudaço de boca carnuda  como o ator Terry Crews que participou do elenco do filme “As Branquelas” (Original: “White Chicks”, 2004);gostaria também que fosse um macho branco do tipo Kevin Spacey, com ou sem barba, do tipo “cafo”, safado, meio calvo ou carecão. Queria mesmo um macho na plenitude de sua maioridade, saradão, com a voz grave e já definida, que goste de seu corpo peludo e viva assumidamente e com orgulho sua masculinidade inclusive com as marcas físicas da vida sem, contudo, ser relaxado, mas um largadão é tudo de bom. De preferência experiente de sexo, melhor ainda se fosse um macho-puto na cama. Pode ser também um que descobrisse, nos meus braços, o gosto inebriante do mergulho homoerótico de macho para macho. Sonho é sonho, e qual é o problema de fantasiar demais?!

Para além das idealizações quanto ao biótipo, se porventura eu estivesse solteiro, adoraria que esse meu macho “encantado” fosse apaixonado pela vida, interessado em compartilhar tudo o que de melhor aprendemos nesses mais de 40 anos de caminhada. Que gostasse de conversar, que se interessasse pela manutenção e bem-estar de nosso lar (desde fazer pudim de leite, construir uma estante de madeira, a cuidar do jardim, navegar na internet, brincar, cuidar e passear com nossos cachorros), aprender para auxiliar o outro em todas suas limitações. Que acordasse de manhã com um sorriso ainda sonado, me dizendo “bom dia meu macho” com sua voz ainda rouca e relaxada. Que me fizesse uma gostosa massagem quando eu estiver estressado e que certamente seria retribuída.

Honesto, carinhoso, bem-humorado, já bem resolvido financeira, emocional e profissionalmente, amigo e companheiro. Que pudéssemos viver a plenitude do amor e do tesão entre dois machos, contentes de sermos um a cara metade do outro (outro mito fantasioso, na realidade cada um é inteiro e não uma metade a ser completada). Que não busque me moldar ao seu gosto ou transformar-me em algo que não sou, me respeitando pelo que sou e como sou. Que também tenha a consciência de que a minha segurança e saúde está nas mãos dele assim como a dele está nas minhas.

Nas minhas idealizações eróticas, quero um homem-macho fogoso, que fique logo com o cacete em riste e latejando ao menor toque de minha mão. Que se contorça todo de prazer, urrando como um urso bravo quando caio de boca em seu caralho, com tesão, da cabeça até o saco. Que fique com o cuzinho peludo piscando, fisgando, quando o massageio com minha língua ou meus dedos. Higiênico, cuzinho bem limpo. Piscando na ponta do dedo molhado com cuspe, é das sensações mais sacanas que um homem pode sentir: o meu macho querendo o seu macho, se abrindo, excitado para engolir o cacete todo. Gostosura assim, só dois homens-machos podem sentir!

Assim é como imagino meu homem-macho ideal.

Pode ser meio ogro, parrudo, metido a machão. Pode ser educado, elegante, cheiroso. Só não pode ser viado, bichona, puta de rua, promíscuo, que curta banheirões e fuleira. Eu gosto é de homem! Tendo postura, caráter, dignidade, sendo respeitoso, leal, honesto é o que basta.

Mas não nego que um bom caralho me faz delirar: grossa ou fina, grande ou pequena, torta ou reta, que me banhe com fartos jatos de porra ou que me deixe sedento até a próxima pela escassez dela, tanto faz, desde que saiba usá-la e não me veja apenas como um depósito de porra, um troféu para exibir aos seus amigos ou mais um nome na sua listinha de “feitos”.  Um macho que não tenha pitis infantis quando me flertam ou paqueram na rua e sim, sinta-se orgulhoso ao perceber que eu, o seu macho, é desejado por outros e tenha consciência e a segurança de que outros podem olhar e desejar, mas só ele pode tocar.

Se tiver cheiro de macho-peão-de-obra ou ser for deliciosamente cheiroso e perfumado, uma delícia, não importa qual dos dois!

Que não tinha melindres na cama e permita-se vivenciar a sexualidade em sua plenitude, que tenha pegada de macho, forte, intensa, que me agarre com a força de um abraço de tamanduá em seus braços fortes e musculosos, que curta dar e levar umas mordidas tesudas e que urre forte enquanto fodemos.

Que seja capaz de separar namoro de foda permitindo-se ser puto na hora da foda, mas um lord carinhoso e romântico na hora do namoro, sem ser “fresco”.

Que não encare a nossa relação homoafetiva como uma cópia, uma caricatura e bizarra cópia, de um modelo de casal heterossexual tentando fazer-nos viver uma coisa que não somos e jamais seremos: marido e esposa. Que não fique me cobrando que eu diga a todo momento que o amo ou que morro de tesão por ele mas sim, que seja capaz de perceber isso através de meu olhar, gestos, ações, pelo cheiro teso que exala de meu corpo quando ele me pega e também pelas esguichadas de porra na hora do gozo. Se no começo da transa quiser chupar meu furico, melhor ainda. Sem pudor, sem tabu.

Não quero nem um pai e muito menos um filho. Nesse ponto já sou mais que bem resolvido e completo.

Tenho meu pai verdadeiro que é um homem que amo demais e não necessito de nenhum outro para substituí-lo. Também não carrego carências ou ausências paternas de minha infância que necessitam ser supridas numa relação, digamos, incestuosa.

Filho? Deixo-o para aqueles que têm paciência e uma boa conta bancária para sustentá-los também dentro de uma relação incestuosa. Já tenho minhas duas cachorras que me trazem alegria, preocupações e bagunça o suficiente para o meu dia a dia. Ah, antes que pensem,  ou que as malditas destilem seus venenos, elas não são brinquedinhos sexuais ok?

Nas minhas idealizações busco um homem completo. Um companheiro.

Ah, meu macho tesudo! Se você existir, se você algum dia me aparecer, que seja logo, pois quero estar ainda com tudo em cima e dar conta do recado, pois do jeito que quero te amar e que vamos foder, vamos precisar de muito mocotó ou viagra para dar conta do rojão!

Ao final das contas, sem se tornar refém das idealizações vindas de minhas fantasias, o que importa para mim é constatar que com meu companheiro me realizo como homem no homem que ele é, que na fidelidade ao pacto que assumimos e na lealdade que vivenciamos no dia a dia, ele é meu companheiro, meu homem, meu macho e que ele me tem da mesma forma, que juntos buscamos aproximar nossos desejos e fantasias que compartilhamos, sem quaisquer constrangimentos, no diálogo franco, transparente e honesto. E que por este modo, neste relacionamento homoafetivo, buscamos que um e outro se realize afetiva e eroticamente na sua individualidade, sem que um use o outro  para uma mera satisfação transitória e egoísta de suas idealizações. Não importa o quanto dure, importa tão somente que a cada dia possamos compartilhar e atualizar aquele pacto inicial que vai se reinventando à medida que amadurecemos juntos.

O vídeo abaixo mostra uma manifestação pró-Bolsonaro realizada no Rio de Janeiro dias atrás.

Percebam como estes que colocam-se contra os nossos direitos conseguem se trair em suas próprias palavras.

Num ponto diz que todo homossexual tem o direito de viver dignamente como pessoa humana, que não tem qualquer tipo de preconceito e não é homofóbico.

Em outro, cita uma lista de aberrações, absurdos e hipocrisias. Porém não se dá conta que esta lista é a mesma de direitos que ele, como heterossexual, tem garantidos.

Também vale destacar como eles distorcem a verdade em benefício próprio. Reclamam de uma suposta “ditadura gay” mas esconde que vivemos sob uma ditadura heterossexual e machista.

O vídeo fala por si.

Tirem suas conclusões e percebam a multidão homofóbica que eles tanto arrotam existir no Brasil.