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Por Márcio Retamero*
fonte: Revista A Capa
28/04/2011 às 14h03

Não é possível escolher, da obra de Machado de Assis, o melhor romance. Certamente um dos mais lidos é “Quincas Borba”. A trama central da bela obra é a adesão de Pedro Rubião ao “Humanitismo”, cujo filósofo Quincas Borba é o pai deste sistema de pensamento. Além de herdeiro de Quincas, Rubião torna-se o guardião-mor desta filosofia.

O “Humanitismo” de Quincas, na verdade, é uma crítica mordaz do Bruxo do Cosme Velho ao positivismo, cientificismo e ao evolucionismo. É célebre o trecho que dá título a este texto. Neste trecho é desvendada ao leitor a síntese do pensamento “humanitista”: duas tribos famintas e um campo de batatas; a única chance de sobrevivência de uma das tribos, pois tal campo não dá conta de alimentar ambas. Se dividissem o campo de batatas, ambas as tribos morreriam de inanição, por isso, “A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”

O ser humano como objeto do ser humano ou a “coisificação” do ser humano é, no fundo, o que Machado de Assis quer criticar e ferir de morte.

Lembrei-me do romance Quincas Borba quando soube pela internet, no último dia 7 de abril do corrente ano, da alteração no texto do PLC 122, promovida pela sua relatora atual, a senadora Marta Suplicy. O texto que altera o PLC 122 diz: “O disposto no capítulo deste artigo não se aplica à manifestação pacífica de pensamento fundada na liberdade de consciência e de crença de que trata o inciso 6° do artigo 5° (da Constituição)”.

Neste parágrafo temos a carta branca do Estado para que as igrejas fundamentalistas continuem de seus púlpitos a demonizar a homossexualidade. Para muitos, esta é a única saída para que a muralha da bancada evangélica fundamentalista no Congresso Nacional seja convencida de que o PLC 122 não é “mordaça”, como os tais apelidaram o PLC 122 desde seu início.

É pública minha admiração pela família Suplicy e pelos serviços prestados ao Brasil por esta família, principalmente no campo político. A senadora Marta é, sem sombra de dúvidas, uma grande aliada do Movimento LGBT. Contudo, creio que a alteração do texto do PLC 122 pelo parágrafo proposto pela atual relatora do PLC 122 é um retrocesso e uma cicatriz profunda no Projeto de Lei. É um lamentável equívoco!

A senadora Marta e os que apoiam a alteração do texto da PLC 122 por este parágrafo necessitam urgentemente de reflexão: quem deu a luz ainda nutre e faz crescer a homofobia (misoginia e outros preconceitos também!) no Brasil? Alguém duvida que é a ala fundamentalista do cristianismo, majoritária no nosso país? Salvaguardar o direito desta gente de continuar dando luz, nutrindo e fazendo crescer a homofobia no Brasil é erro crasso!

É claro que vozes do contra se levantarão e dirão que a Constituição garante a liberdade religiosa e a liberdade de expressão. Ok! Ok! Mas esta liberdade religiosa e de expressão é um vale tudo? Esta liberdade não é “limitada” pela responsabilidade civil e criminal?

Posso citar inúmeras fontes de sermões eclesiásticos do passado, quando ainda era permitida a escravidão, quando a mulher ainda não tinha lei que a amparasse e quando os judeus ainda eram considerados os assassinos de Cristo. Em todos esses sermões, os negros eram humilhados e vítimas do enorme preconceito racial por parte da Igreja, bem como as mulheres eram consideradas as maiores pecadoras (as “Filhas de Eva”) e os judeus eram postos abaixo do chão pelos que liam a Bíblia de maneira deturpada.

O preconceito racial, a misoginia e o antissemitismo ainda é bem presente nas culturas onde a religião cristã faz sentir sua influência. Leis que garantissem a proteção aos negros, mulheres e judeus foram elaboradas e aprovadas e hoje estão em voga para enquadrar as pessoas que são racistas, misóginas e antissemitas.

A ala fundamentalista do cristianismo ainda mantém bem escondida, o racismo, a misoginia e o antissemitismo, só não assumem tais posturas abertamente, pois a Lei protege essas pessoas. As provas disso são abundantes, ainda que veladas, basta ouvir os testemunhos de negros, mulheres e judeus e do quanto ainda são vítimas do fundamentalismo religioso. A coisa toda só não é pior por conta da força da Lei.

Não é preciso muito estudo para pesquisar sobre o mau uso da Bíblia na História da nossa civilização e de quanta dor gerou e dos rios de sangue que foram derramados ao chão. Acontece que dores ainda são geradas e sangue humano continua sendo derramado ao chão por conta da pregação religiosa homofóbica da ala fundamentalista do cristianismo. Porque não podem falar abertamente sobre negros, mulheres e judeus, os LGBT são a “Geni” dos religiosos fundamentalistas, a última que lhes restou, por isso se agarram tanto no assunto. Se forem proibidos de lançarem anátemas aos LGBT desde seus púlpitos, nada e ninguém mais sobrarão para que seja seu “Judas”.

A ala fundamentalista do cristianismo não tem o direito de semear a homofobia que destrói famílias, que ceifa vidas e que gera tanta dor e morte no nosso país. Se o Estado tem o dever de garantir a proteção de seus cidadãos e cidadãs, ao conceder o direito aos fundamentalistas religiosos de continuar a pregar as coisas que pregam contra a homossexualidade, está descumprindo seu papel e negando um direito básico, que é o direito de existir e de não ser alvo de preconceitos. Não, não vale tudo quando a matéria é liberdade religiosa e liberdade de expressão!

Ontem me chegou por e-mail um link enviado pelo Prof. Dr. Luiz Mott. O link abria um site, cujo nome é “Comando 190”. A matéria exposta era sobre o assassinato da travesti Bibi em Ji-Paraná: sete facadas ceifaram-lhe a vida. Nos comentários dos leitores do site, lemos coisas como: “O fim daqueles que não aceita glorificar a Deus – como a Bíblia nos diz o Salário do Pecado é a morte. Deus o amava, mas reprovava o que ele fazia. ele teve livre escolha e escolheu este fim. o futuro de cada um depende de uma escolha. que Deus conforte a Família.” Também está lá: “Creio eu que o fiz dos tempos esta próximo!!! Em Sodoma e Gomorra era assim, homem tendo relação sexual com homem mulher com mulher, pai estuprando filha e muito mais, hoje em dia tudo esta se repetindo , só que agora no mundo todo.” E ainda: “Infelizmente é assim, somos livres para escolhermos qual caminho queremos seguir. Deus deu ao Homem o “Livre Arbítrio”, isso para que; O Homem” não seja forçado a a fazer ou deixar de fazer algo. Existe dois caminhos: “A vida e a Morte”. A verdadeira vida, vc encontra somente em Deus através de Cristo Jesus, e a morte é o próprio mundo com suas astutas ciladas para levar o homem ao abismo. “Em resumo” Falta o Amor….E o amor verdadeiro, Somente Deus pode ensinar o Homem a amar.”

O que vemos aqui? A culpabilização da vítima! Bibi foi morta a sete facadas porque era pecadora, escolheu o caminho da morte, viveu como os de Sodoma e Gomorra, escolheu ser travesti, escolheu o pecado, e porque o “salário do pecado é a morte”, seu fim foi isto: a morte.

Temos aqui apenas uma amostra do que os “cristãos” fundamentalistas escrevem nos sites de notícias quando a vítima de assassinato é LGBT. Façam uma pesquisa superficial e vocês encontrarão coisas bem piores, escritas por eles. Onde eles aprendem isso? Dos púlpitos de suas igrejas.

Lamento profundamente a decisão da senadora Marta de alterar com este parágrafo infame o PLC 122 visando a aprovação da Frente Parlamentar Evangélica! Eles não a aprovarão mesmo assim, bem como nada no futuro que garantirá direitos aos LGBT. Por princípio, são contra! E outra: não vale tudo para aprovar de qualquer jeito um Projeto de Lei como o 122. De concessão a concessão, tal PLC já está quase sem sentido!

Não se enganem! Temos aqui um campo de batatas que nos garante o direito à vida e duas tribos lutam por ele. Apenas uma das tribos vencerá. Qual será? Ao vencedor, as batatas.

* Márcio Retamero, 37 anos, é teólogo e historiador, mestre em História Moderna pela UFF/Niterói. É pastor da Comunidade Betel/ICM RJ e da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo. É autor de “O Banquete dos Excluídos” e “Pode a Bíblia Incluir?”, ambos publicados pela Editora Metanoia. E-mail: marcio.retamero@gmail.com.

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Nota deste blogueiro:

Muita gente acha ruim quando eu sento o porrete do PT. Já ouvi de tudo um pouco mas os comentários mais risíveis vem da comunidade LGBTxyz como por exemplo essa pérola:

Você é minoria e deveria apoiar o PT e a esquerda que são quem nos defendem.

Não, não apoio e tampouco defendo. Na verdade não apoio nenhum partido. Defendo sim pessoas. Para mim, o PT é o esculacho politiqueiro de nosso país.

Rapidamente lanço um alerta para a comunidade LGBTxyz: na campanha para reeleição do Lula eu frequentava comunidades de debates políticos no Orkut. Nunca houve um único esquerdista ou PTista que conseguisse me vencer em debates. Sempre perdiam os argumentos e partiam para a baixaria.

Um dia sou surpreendido ao entrar no Orkut e ver a minha vida íntima, privada, exposta em todas as comunidades que eu frequentava. TODAS! Nas de política, nas profissionais, nas sociais. Além disso, como se não bastasse, entraram em contato com “amigos” e familiares que constavam em meu perfil e expuseram a minha vida de forma covarde e vil.

Quer dizer então que o gay só é aceito pelo PT quando a pessoa está ali, em meio ao rebanho berrando A-MÉ-É-É-É-É-É-MMMMM. Se ousar discordar de qualquer coisa, o FATO de você ser GAY vira munição para a sua desmoralização, descrédito.

E não venham me falar que é coisa de militantes aloprados, pois nesse grupo que me atacou existiam pessoas ligadas ao comando do partido, da campanha.

Portanto fiquem atentos MiliTONTOS: a próxima vítima podem ser vocês mesmos.

Marta pode dar a cara para bater na frente dos holofotes, mas na prática – quando prefeita de SP – nos bastidores e longe das câmeras deixou bem claro que curvou-se às oligarquias conservadoras ao não implementar absolutamente nada na cidade. Serra fez muito mais pela causa LGBTxyz que ela.

E, mais uma vez aí está a prova cabal de que o PT atende apenas aos interesses do ParTido. Se ela não alterasse esse dispositivo, certamente o PT perderia o apoio da bancada “cristã” no Congresso nacional.

Não se esqueçam também que a Senadora Gleisy colocou-se publicamente contra o PLC122.

É sim, um tiro no coração do movimento LGBTSxyz.

Nesse sentido, deixo aqui registrado o meu respeito ao deputado Jean Wyllys. Ponderado, ético, sensato e, acima de tudo, justo e correto com seus ideais e a causa que defende.

Assistam à entrevista dele disponivel no blog do Sergio Viula.

Agora sim posso dizer com orgulho que me sinto representado por alguém na questão LGBTSxyz: Jean Wyllys.

Este texto foi escrito parafraseando, por meio de contrapontos, o texto original de Luiz Mott entitulado “Meu Moleque Ideal” com o objetivo de mostrar que as afirmações e fantasias enunciadas não representam a totalidade do universo homossexual. O texto a que me refiro, a meu ver, acaba reforçando a falsa idéia de que todo (homem) homossexual nega sua identidade de gênero ou, pior, manifesta tendências ou desejos pedófilos municiando homofóbicos de plantão com material da pior espécie.

O texto que escrevo apresenta um caráter eminentemente homoerótico e mostra, para além da convivência homoafetiva diária, os desejos e práticas sexuais que dois homens orgulhosos de sua masculinidade compartilham. Se você sente-se ofendido com este tipo de leitura, interrompa sua leitura ao final desta introdução enunciada em vermelho.

Se você é um cara bem resolvido e vivencia, de forma intensa e saudável, sua sexualidade sem quaisquer tabus ou falsos pudores quanto a isso, delicie-se até o final.

Não podemos, enquanto homossexuais, sermos punidos ou obrigados a carregar um fardo de atribuições distorcidas que não fazem parte de nosso caráter, personalidade ou orientação homoafetiva e homoerótica de nossa sexualidade.

Boa leitura ou até a próxima!

Considero-me um cara dos mais feliz pois amo e sou amado por um homem maravilhoso que preenche plenamente minhas fantasias e desejos sexuais, afetivos e de companheirismo.

Na tentativa de analisar objetivamente as razões que levariam dois homens (ou duas mulheres, ou um homem e uma mulher) a se entregarem com exclusividade um ao outro, quando movidos por uma paixão afetiva e erótica, creio que esta fidelidade poderia ser explicada por uma motivação bastante simples: a lealdade de um para com outro. A lealdade (como vínculo de um para com outro com base na confiança mútua determinada pelo afeto) passível de ser compreendida, verbalizada e considerada, apresenta-se como universal. Qualquer posição que tenha por objetivo esvaziar este dado universal por conta de uma visão utilitarista e oportunista de relacionamento – do tipo “estou com esta pessoa por não ter outra que seja melhor no momento para substituí-la” – não passa de uma generalização falaciosa oriunda de projeções subjetivas, não apenas marcadas por frustrações pessoais acumuladas, mas sobretudo eivadas de promiscuidade. Sob o olhar promíscuo, tal posição assevera que qualquer relacionamento funda-se, mesmo sob a roupagem de amor ou paixão, na instrumentalização do outro como uma coisa a ser usada sexualmente até que seja descartada.

Entretanto podemos observar que, em geral, que as pessoas confundem a lealdade com a fidelidade, aqui considerada em relação a um pacto que duas pessoas  firmam entre si e que, por sua vez, constitui a base do relacionamento que se empenham em vivenciar.  A fidelidade não é um ato subjetivo que uma pessoa tem para com outra (isso é lealdade) mas, quando duas pessoas- movidas pelo amor e pelo desejo erótico – estabelecem e assumem livremente  um pacto seja qual for, nos moldes de um contrato, cada um assume formalmente o dever de respeitar todas suas cláusulas manifestas ou subentendidas por ambos. Em outras palavras, uma pessoa não é fiel a outra, mas fiel ao pacto que ambas livremente assumiram, mas tal pacto não se sustenta se não houver o vínculo de lealdade de uma pessoa para com outra.

Longe de conceber ou forjar padrões, cada casal deve se compreender livre, sem quaisquer constrangimentos, para estabelecer seu próprio pacto à partir dos valores e das expectativas recíprocas que compartilham. Assim, por exemplo, a exclusividade sexual pode ser ou não ser uma cláusula dentre tantas outras. Depende de como os pactuantes assim a entendem, se necessária ou não, ou como vão vivenciá-la no cotidiano. Deste modo, todo e qualquer relacionamento funda-se em um pacto e, portanto, exige dos pactuantes uma atitude de fidelidade que lhes é adequada, ao menos naquele momento em que o assumem. Neste aspecto, para longe de uma visão eivada de promiscuidade, resgata-se a lealdade que, por meio da confiança sincera de um para com outro, resguarda-se a estabilidade e a dinamicidade do relacionamento.

Claro que não se pretende aqui dissociar lealdade (dado subjetivo) e fidelidade (dado formal e objetivo). Contudo, é muito comum encontrarmos pessoas que reduzem a fidelidade a uma exclusividade sexual não se importando com todos outros aspectos (talvez mais significativos) que envolvem o pacto entre aqueles que se amam e se desejam e em relação aos quais deveriam ser fiéis. Entre ciumeiras hipócritas e puritanas ficam tão preocupados em controlar a “fidelidade” sexual a ponto de não levarem em conta as inúmeras infidelidades e deslealdades que, no convívio diário, vão corroendo o que é fundamental no relacionamento.  Este vai se tornando doentio à medida que se impõem tentativas sempre frustradas de castrar um do outro o imaginário sexual e erótico, tão natural, que deveriam compartilhar numa cumplicidade alegre e descontraída, sem quaisquer constrangimentos à individualidade de cada um. Isso pressupõe maturidade suficiente para romper com mitos que, sob a falsa compreensão de amor e paixão, entendem ingenuamente que o tesão de um se deixe enclausurar no outro.  Observe que, por esta consideração, não há qualquer defesa tácita de uma distorção promíscua do que se pode conceber acerca de um relacionamento.

De modo particular, considerando nossa condição homossexual masculina, devemos encarar que lá no fundo, todos nós, alimentamos, de um modo ou de outro, em nossa imaginação (e fantasias) um tipo ideal de homem que gostaríamos de amar e ter do lado: digamos, um mito do “príncipe” encantado. Este mito envolve um feixe de idealizações que muitas vezes nos surpreendem e que, até mesmo inconscientemente, projetamos. A maturidade, conquistada de forma equilibrada e saudável, permite perceber que este homem ideal nem sempre (ou quase nunca) assemelha-se àquele por quem estamos apaixonados e com quem convivemos .

Em nossas fantasias, o homem ideal pode ser alto e branco, o real, baixo e moreno. Porém, ao longo de nosso amadurecimento vamos encarando que este homem ideal não existe além de nossa imaginação e fantasias. Na maturidade compreendemos que ninguém, jamais, vai atender totalmente às idealizações das “especificações técnicas e de design” ou caber certinho dentro da forminha projetada para que o outro se encaixe. Isso aprendi pessoalmente com a vida. Cada um é cada um e, como tal, deve ser respeitado na sua individualidade. Relacionar-se acaba sendo uma aventura e um desafio no sentido de equacionar a cada momento o convívio, as expectativas, os desejos e a individualidade de cada um. Não é um apostar numa transitoriedade oportunista de relacionamento: é comprometimento que tem seu significado no amor em sua dimensão homoafetiva e homoerótica.

Continuando a parafrasear por meio de contrapontos aquele texto que acima me referi, digo o seguinte: meu caso, para ser sincero, tomando como hipótese  o fato de que o imaginário erótico (e suas idealizações e fantasias) pudesse se realizar concretamente e que, portanto, permitiria a mim escolher livremente as características biotípicas e eróticas de meu parceiro , este seria um homem “macho”do tipo daqueles representados pela arte da Grécia antiga: belos, adultos, másculos, viris, além de maduros e parrudos que, certamente para mim seria a coisa mais tesuda e delirante para se amar e foder.


Neste sentido hipotético, se as forças do universo me ajudassem, adoraria encontrar um macho acima dos 40 anos, já com os pentelhos do saco totalmente desenvolvidos, o cacete parrudo e cheio de veias grossas, não me importava a cor: adoraria se fosse negro e parrudaço de boca carnuda  como o ator Terry Crews que participou do elenco do filme “As Branquelas” (Original: “White Chicks”, 2004);gostaria também que fosse um macho branco do tipo Kevin Spacey, com ou sem barba, do tipo “cafo”, safado, meio calvo ou carecão. Queria mesmo um macho na plenitude de sua maioridade, saradão, com a voz grave e já definida, que goste de seu corpo peludo e viva assumidamente e com orgulho sua masculinidade inclusive com as marcas físicas da vida sem, contudo, ser relaxado, mas um largadão é tudo de bom. De preferência experiente de sexo, melhor ainda se fosse um macho-puto na cama. Pode ser também um que descobrisse, nos meus braços, o gosto inebriante do mergulho homoerótico de macho para macho. Sonho é sonho, e qual é o problema de fantasiar demais?!

Para além das idealizações quanto ao biótipo, se porventura eu estivesse solteiro, adoraria que esse meu macho “encantado” fosse apaixonado pela vida, interessado em compartilhar tudo o que de melhor aprendemos nesses mais de 40 anos de caminhada. Que gostasse de conversar, que se interessasse pela manutenção e bem-estar de nosso lar (desde fazer pudim de leite, construir uma estante de madeira, a cuidar do jardim, navegar na internet, brincar, cuidar e passear com nossos cachorros), aprender para auxiliar o outro em todas suas limitações. Que acordasse de manhã com um sorriso ainda sonado, me dizendo “bom dia meu macho” com sua voz ainda rouca e relaxada. Que me fizesse uma gostosa massagem quando eu estiver estressado e que certamente seria retribuída.

Honesto, carinhoso, bem-humorado, já bem resolvido financeira, emocional e profissionalmente, amigo e companheiro. Que pudéssemos viver a plenitude do amor e do tesão entre dois machos, contentes de sermos um a cara metade do outro (outro mito fantasioso, na realidade cada um é inteiro e não uma metade a ser completada). Que não busque me moldar ao seu gosto ou transformar-me em algo que não sou, me respeitando pelo que sou e como sou. Que também tenha a consciência de que a minha segurança e saúde está nas mãos dele assim como a dele está nas minhas.

Nas minhas idealizações eróticas, quero um homem-macho fogoso, que fique logo com o cacete em riste e latejando ao menor toque de minha mão. Que se contorça todo de prazer, urrando como um urso bravo quando caio de boca em seu caralho, com tesão, da cabeça até o saco. Que fique com o cuzinho peludo piscando, fisgando, quando o massageio com minha língua ou meus dedos. Higiênico, cuzinho bem limpo. Piscando na ponta do dedo molhado com cuspe, é das sensações mais sacanas que um homem pode sentir: o meu macho querendo o seu macho, se abrindo, excitado para engolir o cacete todo. Gostosura assim, só dois homens-machos podem sentir!

Assim é como imagino meu homem-macho ideal.

Pode ser meio ogro, parrudo, metido a machão. Pode ser educado, elegante, cheiroso. Só não pode ser viado, bichona, puta de rua, promíscuo, que curta banheirões e fuleira. Eu gosto é de homem! Tendo postura, caráter, dignidade, sendo respeitoso, leal, honesto é o que basta.

Mas não nego que um bom caralho me faz delirar: grossa ou fina, grande ou pequena, torta ou reta, que me banhe com fartos jatos de porra ou que me deixe sedento até a próxima pela escassez dela, tanto faz, desde que saiba usá-la e não me veja apenas como um depósito de porra, um troféu para exibir aos seus amigos ou mais um nome na sua listinha de “feitos”.  Um macho que não tenha pitis infantis quando me flertam ou paqueram na rua e sim, sinta-se orgulhoso ao perceber que eu, o seu macho, é desejado por outros e tenha consciência e a segurança de que outros podem olhar e desejar, mas só ele pode tocar.

Se tiver cheiro de macho-peão-de-obra ou ser for deliciosamente cheiroso e perfumado, uma delícia, não importa qual dos dois!

Que não tinha melindres na cama e permita-se vivenciar a sexualidade em sua plenitude, que tenha pegada de macho, forte, intensa, que me agarre com a força de um abraço de tamanduá em seus braços fortes e musculosos, que curta dar e levar umas mordidas tesudas e que urre forte enquanto fodemos.

Que seja capaz de separar namoro de foda permitindo-se ser puto na hora da foda, mas um lord carinhoso e romântico na hora do namoro, sem ser “fresco”.

Que não encare a nossa relação homoafetiva como uma cópia, uma caricatura e bizarra cópia, de um modelo de casal heterossexual tentando fazer-nos viver uma coisa que não somos e jamais seremos: marido e esposa. Que não fique me cobrando que eu diga a todo momento que o amo ou que morro de tesão por ele mas sim, que seja capaz de perceber isso através de meu olhar, gestos, ações, pelo cheiro teso que exala de meu corpo quando ele me pega e também pelas esguichadas de porra na hora do gozo. Se no começo da transa quiser chupar meu furico, melhor ainda. Sem pudor, sem tabu.

Não quero nem um pai e muito menos um filho. Nesse ponto já sou mais que bem resolvido e completo.

Tenho meu pai verdadeiro que é um homem que amo demais e não necessito de nenhum outro para substituí-lo. Também não carrego carências ou ausências paternas de minha infância que necessitam ser supridas numa relação, digamos, incestuosa.

Filho? Deixo-o para aqueles que têm paciência e uma boa conta bancária para sustentá-los também dentro de uma relação incestuosa. Já tenho minhas duas cachorras que me trazem alegria, preocupações e bagunça o suficiente para o meu dia a dia. Ah, antes que pensem,  ou que as malditas destilem seus venenos, elas não são brinquedinhos sexuais ok?

Nas minhas idealizações busco um homem completo. Um companheiro.

Ah, meu macho tesudo! Se você existir, se você algum dia me aparecer, que seja logo, pois quero estar ainda com tudo em cima e dar conta do recado, pois do jeito que quero te amar e que vamos foder, vamos precisar de muito mocotó ou viagra para dar conta do rojão!

Ao final das contas, sem se tornar refém das idealizações vindas de minhas fantasias, o que importa para mim é constatar que com meu companheiro me realizo como homem no homem que ele é, que na fidelidade ao pacto que assumimos e na lealdade que vivenciamos no dia a dia, ele é meu companheiro, meu homem, meu macho e que ele me tem da mesma forma, que juntos buscamos aproximar nossos desejos e fantasias que compartilhamos, sem quaisquer constrangimentos, no diálogo franco, transparente e honesto. E que por este modo, neste relacionamento homoafetivo, buscamos que um e outro se realize afetiva e eroticamente na sua individualidade, sem que um use o outro  para uma mera satisfação transitória e egoísta de suas idealizações. Não importa o quanto dure, importa tão somente que a cada dia possamos compartilhar e atualizar aquele pacto inicial que vai se reinventando à medida que amadurecemos juntos.